Editorial

60 anos da “Pacem in Terris”: No meio da guerra, uma agenda para a paz

| 11 Abr 2023

João XXIII: um programa pela paz e a dignidade humana que é uma “ordem” querida por Deus. 

 

A busca da “paz na terra” (Pacem in Terris), encíclica que o Papa João XXIII lançou, faz nestes dias 60 anos: além de um apelo a favor do entendimento entre os povos, é também um grito e um programa em favor da dignidade e dos direitos de cada pessoa.

Esse programa era entendido pelo agora São João XXIII como uma “ordem” querida por Deus, da qual dependia a paz no mundo. “A paz – observava – permanece palavra vazia de sentido, se não se funda na ordem que, com confiante esperança, esboçamos nesta nossa carta encíclica: ordem fundada na verdade, construída segundo a justiça, alimentada e consumada na caridade, realizada sob os auspícios da liberdade” (n. 166).

Três factos contextuais podem ser aduzidos para se compreender melhor a origem e o alcance desta encíclica dirigida a todos os hierarcas e fiéis, mas também, pela primeira vez, “a todas as pessoas de boa vontade”.

O primeiro tem que ver com a motivação mais próxima da preocupação de João XXIII com a paz: a eclosão da crise dos mísseis (nucleares), que o regime soviético pretendia instalar em Cuba, e que fez aumentar a tensão internacional, colocando o mundo à beira de uma nova guerra, que teria consequências catastróficas.

O segundo acontecimento foi o Concílio Vaticano II que, convocado dois anos antes de forma surpreendente por aquele Papa, dava então os primeiros passos, à procura de um caminho que, nesse preciso momento, já se tinha afastado bastante dos planos que a Cúria Romana desenhara, dando passos firmes no aggiornamento da Igreja Católica.

Finalmente, não se pode esquecer que o autor da Pacem in Terris, se debatia já com a doença, quando a encíclica foi publicada, e acabaria por falecer menos de dois meses depois (3 de junho de 1963). A sua mensagem de paz fez, entretanto, o seu caminho.

As repercussões internacionais do magistério de S. João XXIII no tocante à dignidade humana e à paz são hoje reconhecidas. Ao publicar um tão marcante quanto oportuno apelo à reflexão e à ação, direta ou indiretamente, ele inscreveu-se num movimento ainda em germe que viria a dar frutos nas décadas seguintes.

Tem-se referido, nesta linha, o movimento dos direitos humanos e o modo como este tema foi pautando cada vez mais a política e as relações internacionais; a relevância de agências de governação global como o sistema das Nações Unidas; ou a existência de instâncias de jurisdição à escala planetária para julgar crimes contra a humanidade. De algum modo, também movimentos anti-armas nucleares foram ganhando força, a ponto de essa linha se ter tornado política oficial da ONU, expressa na luta pela sua abolição.

Míssil. Armas. Índia

Míssil numa parada militar na Índia, em 2004: nos últimos anos, o comércio de armas esteve sempre a crescer. Foto Wikipedia.

 

Precisamente uma das mensagens que decorrem da Pacem in Terris é a afirmação categórica de que, no tempo das armas atómicas, é uma irracionalidade continuar a pensar que a guerra possa conduzir à paz.

A verdade é que as guerras mortíferas continuaram a marcar o panorama mundial. A do Vietname, por exemplo, terminou em 1975, vinte anos depois do seu início, e a guerra israelo-árabe ainda continua. O Médio Oriente, algumas das ex-repúblicas soviéticas, vários pontos na África continuaram a viver focos de conflitos. Quem imaginou que, com o fim da Guerra Fria, no início dos anos 1990, a humanidade assistiria a uma época nova de paz, num mundo que recusaria a guerra como forma de resolver dissensões, rapidamente se terá rendido à evidência contrária.

Quando, em fevereiro de 2022, as tropas de Moscovo entraram pela Ucrânia e ocuparam uma boa parte do país, levando a um conflito de incidências à escala global, muitos deram-se conta de que a nova geração de políticos e de militares havia esquecido a memória do que foram as duas guerras mundiais da primeira metade do século XX. Afinal, parece que não só não aprendemos com o passado, como nos aproximamos de novos limiares de desumanidade e de destruição.

Em sociedades hipermediatizadas e conectadas, as imagens de destruição e de morte banalizam-se e orçamentos públicos e privados começam cada vez mais a ser pautados pela economia de guerra.

Um dos aspetos que chama a atenção é a premência com que as imagens mediáticas da guerra pautam a agenda dos discursos públicos, em contraste com as iniciativas e movimentações em favor da elaboração de uma agenda para a paz.

Papa Francisco em videoconferência com patriarca cirilo a 16 março 2022 foto facebook de antonio spadaro sj

O Papa Francisco em videoconferência com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, em 2022: manter vias abertas para o diálogo. Foto reproduzida da página do padre Antonio Spadaro no Facebook.

 

A mensagem do Evangelho, ponto de partida do Papa João XXIII, é a mensagem da paz. “A paz esteja convosco”, diz o Ressuscitado. É esse o horizonte. É esse o carril a construir e percorrer. Com as armas da sensibilização, do debate, da oração, da negociação e de outras formas criativas que urge inventar. Sendo armas “pobres” face ao poder destruidor dos mísseis, podem gerar dinâmicas poderosas, em termos de opinião pública. É preciso assumir e dizer que a guerra não é o caminho, mas o descaminho; que a guerra não é a nossa “praia”, mas sim a paz, mesmo que consideremos uma guerra justa e entendamos que temos de a travar.

Não queremos a paz dos cemitérios. Não aceitamos a paz da injustiça e da humilhação. “A paz que Jesus nos dá na Páscoa – fazia notar o Papa Francisco na “Semana Maior” de 2022 – não é a paz que segue as estratégias do mundo, que acredita obtê-la pela força, pelas conquistas e pelas várias formas de imposição. Essa paz, na verdade,é apenas um intervalo entre guerras.”

E é preciso valorizar o esforço que Francisco tem feito para manter vias abertas para que se explorem caminhos de diálogo e de busca de soluções. Não apenas no caso da Ucrânia.

De resto, para o Papa, a questão, relativamente às armas de guerra, sobretudo as nucleares, já não reside apenas no uso, mas deveria caminhar cada vez mais para a sua produção e a sua posse, que é “imoral”. Não é pelas armas que a humanidade avança, mas aprendendo a dialogar, a escutar e conhecer, a construir soluções…

Esta aprendizagem terá de envolver toda a sociedade – nas famílias, nas escolas, nas associações, nas comunidades cristãs e de outras confissões, nos meios de comunicação, nos estados maiores e quarteis dos militares.

“A paz é possível e obrigatória”, mas precisa de ser construída como prática comum e quotidiana, em todos os planos – da vida individual e de grupo às instituições de todo o tipo.

 

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