
“A guerra continua a gerar morte, mas a guerra não pode extinguir a vida”. Este tem sido o lema dos missionários do Colégio Comboniano de Cartum. Foto © Grégoire de Fombelle/WCC
Está prestes a fazer um ano desde que eclodiu a guerra civil no Sudão. Com as atenções do mundo ocidental centradas em Gaza e na Ucrânia, deste conflito quase não se fala, apesar de já ter feito mais de 15 mil mortos e 30 mil feridos. As Nações Unidas estimam que mais de oito milhões de pessoas tenham fugido, mas também há aqueles que permanecem “para ajudar quem é descartado pela guerra”: é o caso dos missionários combonianos, que, no meio do sangrento conflito, acabam de abrir uma clínica de assistência a doentes terminais.
“A guerra continua a gerar morte, mas a guerra não pode extinguir a vida”. Este tem sido o lema dos missionários do Colégio Comboniano de Cartum, que – tal como milhares de habitantes da capital -, foram entretanto deslocados para a cidade de Porto Sudão, principal porto marítimo do país, nas margens do Mar Vermelho. Foi aí que abriram recentemente aquela que é a primeira clínica do país, totalmente administrada e gerida por enfermeiros e especializada em cuidados paliativos, e que conta também com uma equipa de voluntários da comunidade comboniana que acompanham os doentes terminais e crónicos nas periferias da cidade.
“Ajudamos as muitas vítimas ‘descartadas’ da guerra, porque as outras estruturas dão prioridade às pessoas que podem ser salvas”, disse ao Vatican News um missionário comboniano que quis permanecer anónimo por motivos de segurança.
A partir de Porto Sudão, os missionários combonianos gerem ainda uma plataforma de cursos universitários online para estudantes que se encontram deslocados, em colaboração com uma ONG do Hospital São Rafael de Milão, em Itália.
Lamentando que, devido à guerra civil, muitos territórios do país sejam impossíveis de alcançar, os missionários não desanimam. E por estes dias ganharam uma esperança renovada: com a Páscoa, veio a abertura da clínica, e também o batismo de 16 novos cristãos em Porto Sudão e de outros 34 em Kosti, cidade mais a sul, num país onde os cristãos correspondem a apenas 4,5% da população.
Os alertas dos Médicos sem Fronteiras e da ONU

Uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras oferece consultas médicas em Kassala, numa zona que recebeu um grande número de pessoas deslocadas com deficiência. Foto © MSF
Igualmente presentes no país, os Médicos Sem Fronteiras também não desistem de ajudar a população, mas alertaram recentemente que “a escala da crise está além da capacidade de qualquer organização isolada, exigindo uma ação urgente e coordenada por parte da comunidade internacional”.
A organização humanitária desenvolveu um programa de dez semanas para ajudar os deslocados na zona de Kassala (entre Cartum e Porto Sudão), tendo enviado clínicas móveis para locais remotos de modo a garantir que os cuidados médicos essenciais chegavam ao maior número possível de pessoas, e relata: “As condições de vida das pessoas deslocadas em Kassala extremamente terríveis, marcadas por abrigos sobrelotados, acesso limitado a alimentos e água potável e serviços de saúde inadequados”.
No entanto, a necessidade de esforços humanitários alargados “estende-se muito para além dos limites do estado de Kassala”, reconhecem os Médicos Sem Fronteiras. “São desesperadamente necessárias ações urgentes em todo o Sudão, especialmente em zonas de difícil acesso, como Darfur e Cartum. Também é necessária no Leste do Sudão, onde é possível um maior acesso, mas apenas uma pequena quantidade de assistência proporcional às vastas necessidades humanitárias consegue chegar”, acrescentam.
Os dados mais recentes do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU reforçam a preocupação: menos de uma em cada 20 pessoas no Sudão pode pagar por uma refeição completa e, em todo o país, 18 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar aguda e cinco milhões enfrentam a fome. Está iminente “a pior crise de fome do mundo” , alertam as Nações Unidas.
A diretora executiva do PMA, Cindy McCain, lembra que há 20 anos, o Darfur foi a maior crise de fome do mundo e houve união para responder. “Mas hoje – lamenta – o povo do Sudão foi esquecido. Milhões de vidas, a paz e a estabilidade de toda uma região estão em jogo”.









