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padre Manuel Antunes, foto Câmara Municipal da Sertã
padre Manuel Antunes, foto Câmara Municipal da Sertã

Nas margens da filosofia (LXXVIII)

No Natal recordamos pessoas que determinaram as nossas vidas

O Natal é uma época determinante para lembrarmos os nossos amigos, tanto aqueles com quem ainda convivemos como os que já morreram, mas que no entanto continuam vivos na nossa memória. Ao consultar um livro do padre Manuel Antunes para efeitos de escrita de um artigo, veio-me à lembrança a sua pessoa, bem como as várias instâncias da minha vida em que teve um papel importante, nomeadamente na escolha do curso de filosofia. De facto, na minha entrada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, eu matriculara-me em Germânicas. A frequência da cadeira de História da Cultura Clássica, regida pelo padre Manuel Antunes era comum a todos os cursos, no primeiro ano dos mesmos. Nela me matriculei enquanto aluna de Germanísticas. Gostei muito dos vários conteúdos e do modo como foram apresentados, o que me levou a mudar de orientação e a perceber que a minha vocação era a filosofia. Por isso, nessa mesma época, desisti de Germânicas e no ano seguinte voltei a matricular-me na FLUL, mas então num curso diferente. Perdi um ano mas foi uma decisão da qual nunca me arrependi.

Dado que (inexplicavelmente) o padre Manuel Antunes não pertencia ao elenco dos docentes de Filosofia mas trabalhava integrado na área das disciplinas da Cultura, comum a todos os cursos, não voltei a tê-lo como professor na FLUL. Mas foram as suas aulas que me fizeram amar os gregos e as temáticas filosóficas. Delas trouxera do liceu um vaguíssimo conhecimento, dado que a construção de silogismos ocupava um papel determinante na disciplina de filosofia.

Padre Manuel Antunes.

Padre Manuel Antunes “alguém no qual se cruzavam a humildade, a erudição, a mansidão, a paciência e, sobretudo, a bondade”. Foto: Direitos reservados

Mais tarde, depois de terminar o curso, tive duas experiências com o padre Manuel Antunes que me marcaram profundamente, embora uma fosse muito mais breve do que a outra. No primeiro caso refiro-me à série de conferências sobre Cultura Política, realizadas em Lisboa, na Igreja do Coração de Jesus, imediatamente a seguir ao 25 de Abril, uma altura em que urgia esclarecer o público, geralmente pouco informado sobre essa matéria e atreito a slogans e teorias pouco fundamentadas. Como exemplo do segundo caso recordo o facto de ter tido o padre Manuel Antunes como assistente da nossa Equipa de Casais de Nossa Senhora.

Começo pelas conferências pois correspondem a um tempo breve, imediatamente a seguir à Revolução de Abril. Entrados em democracia, urgia dar às pessoas alguma cultura política que lhes permitisse orientação na babel de ideias e partidos, ajudando-as a colmatar falhas de informação. O padre Manuel Antunes foi um dos conferencistas e admirei a sua paciência em responder a questões por vezes absurdas e provocatórias. Fazia-o sempre delicadamente levando todos a acalmarem os ânimos, a procederem como alunos interessados e a desistirem de slogans e de frases feitas. A sua abordagem era estritamente informativa e nunca o vi tomar partido por esta ou aquela orientação política, limitando-se a apresentá-la de um modo objectivo e fundamentado.

Mais tarde voltei a ter contacto com o padre Manuel Antunes, agora numa circunstância diferente, pois ele foi durante anos o assistente do nosso grupo de Casais de Nossa Senhora. Aqui os problemas levavam-nos para um mundo de entendimentos e desentendimentos, para dúvidas de toda a ordem, para a troca de leituras sobre a vida conjugal nas suas diferentes fases e problemas – havia jovens casais (ao grupo dos quais então pertencíamos) e casais mais velhos, já pais de filhos crescidos e com outro tipo de preocupações. A todos e a todas o padre Manuel ouvia com uma paciência de santo, às vezes sorrindo, outras aconselhando e, muitas vezes, indicando leituras apropriadas aos problemas levantados.

Com a doença e morte do padre Manuel Antunes a equipa desfez-se, nós integrámos um grupo mais jovem e a maior parte dos membros da equipa primitiva já morreu. Mas tenho a certeza de que nenhum dos sobreviventes se esqueceu da importância que para todos nós representou a figura e a atitude do padre Manuel Antunes, alguém no qual se cruzavam a humildade, a erudição, a mansidão, a paciência e, sobretudo, a bondade, manifesta ao longo de todas as reuniões que tivemos, aliada a uma atitude de abertura e de escuta, próprias do verdadeiro sábio. Para além de tudo o que nos ensinou, das dúvidas que nos ajudou a resolver e dos conselhos de leitura que recebemos, posso dizer com segurança que com ele aprendemos a viver melhor. Daí o recordar neste Natal como uma das pessoas de quem tenho saudades e com quem mais aprendi.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

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