OXFAM denuncia

No norte de Gaza, sobrevive-se com 245 calorias por dia, “menos que uma lata de feijão”

| 4 Abr 2024

© Unrwa Crianças na fila para receber comida em Gaza

“Imaginem como é não apenas tentar sobreviver com 245 calorias todos os dias, mas também ter que observar os seus filhos ou parentes idosos fazerem o mesmo”, afirma o diretor executivo da Oxfam International. Foto © UNRWA

A população do norte de Gaza tem sido forçada a sobreviver com uma média de 245 calorias por dia – “menos do que uma lata de feijão” – desde janeiro, denuncia a Oxfam, num relatório divulgado esta quinta-feira, 4 de abril. A organização humanitária britânica alerta ainda para o facto de menos de metade do número necessário de camiões com comida estarem atualmente a entrar na região.

De acordo com o relatório da ONG, “quase toda a população enfrenta agora fome extrema, com 1,1 milhões de pessoas a enfrentar uma insegurança alimentar catastrófica”, sendo que 245 calorias não chegam a 12% das 2.100 que correspondem à média diária de energia necessária por pessoa.

Quanto ao total de alimentos autorizados desde outubro a entrar em Gaza para toda a população do enclave (cerca de 2,2 milhões de pessoas) representa em média apenas 41% das calorias diárias que uma pessoa necessita, concluiu a ONG.

A fome e os seus impactos “são exacerbados pela destruição quase completa de infra-estruturas civis, incluindo hospitais, serviços de água e saneamento e apoio comunitário à saúde por parte de Israel, deixando as pessoas ainda mais vulneráveis ​​às doenças”, acrescenta o documento.

 

“Israel não pode mais usar a fome como arma”

Para Amitabh Behar, diretor executivo da Oxfam International, não restam dúvidas: “Israel está a fazer escolhas deliberadas para matar civis de fome. Imaginem como é não apenas tentar sobreviver com 245 calorias todos os dias, mas também ter que observar os seus filhos ou parentes idosos fazerem o mesmo. Tudo isto enquanto estão deslocados, com pouco ou nenhum acesso a água potável ou a uma casa de banho, sabendo que a maior parte do apoio médico desapareceu e sob a ameaça constante de drones e bombas”.

O responsável acrescenta: “Israel está a ignorar tanto a ordem do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) para prevenir o genocídio como as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Ainda na semana passada o TIJ ordenou novas medidas provisórias, afirmando que a fome já não está iminente, mas sim ‘a instalar-se’ em Gaza”.

Amitabh Behar deixa, por isso, um apelo a todos os países: “precisam de parar imediatamente de fornecer armas a Israel e fazer tudo o que puderem para garantir um cessar-fogo imediato e permanente; só então poderemos pôr fim a esta terrível carnificina para os 2,2 milhões de pessoas que suportaram seis meses de sofrimento. Israel não pode mais usar a fome como arma”.

Já na passada segunda-feira, 1 de abril, a ONU havia alertado que os “impedimentos de acesso continuaram a comprometer a capacidade dos profissionais humanitários de alcançar as pessoas na Faixa de Gaza”, ao longo do mês de março. De acordo com o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), 30% das missões de ajuda ao norte de Gaza foram negadas pelas autoridades israelitas nesse período.

Segundo a ONU, o Programa Mundial de Alimentos está a fornecer comida para 1,45 milhões de pessoas em Gaza, um volume que “não é suficiente”. A conclusão é, pois, a mesma que a da Oxfam: “Sem um cessar-fogo e acesso total, muitas vidas estão em risco”.

© Unrwa Funcionários da ONU entregam suprimentos no norte da Faixa de Gaza

Funcionários da ONU entregam suprimentos no norte da Faixa de Gaza, mas a maioria da ajuda tem sido impedida por Israel. Foto © UNRWA

 

27 crianças já morreram de fome, e o número está prestes a aumentar

Também a Save the Children divulgou um novo balanço esta terça-feira, 2 de abril, que dá conta de que pelo menos 27 crianças já morreram em Gaza devido à fome e que todas as 346 mil crianças da região correm um cada vez maior risco de desnutrição. “No Norte, estima-se que uma em cada três crianças com menos de dois anos de idade sofre atualmente de desnutrição aguda, a forma mais grave de subnutrição, em comparação com uma em cada seis crianças em janeiro”, detalha a organização.

“As crianças desnutridas necessitam urgentemente de alimentos nutricionalmente ricos e fáceis de consumir, como alimentos terapêuticos prontos para uso (RUTF) e leite terapêutico para crianças pequenas. Eles também precisam de medicamentos essenciais, como antibióticos, de instalações de saúde e de profissionais de saúde treinados que possam detectar e tratar a desnutrição”, sublinha a Save the Children.

A organização de defesa dos direitos das crianças explica que “quando a desnutrição aguda grave se instala, as crianças muitas vezes desenvolvem outras condições. O sistema imunitário de uma criança gravemente desnutrida começa a falhar, tornando potencialmente letais condições que de outra forma não seriam fatais, como a diarreia”, a qual “é atualmente galopante em Gaza”.

Mas “o fornecimentos vitais que poderiam ser utilizados para tratar crianças subnutridas estão a ser adiados e a sua entrada é recusada pelo Governo de Israel”, lamenta a organização, que tem recebido “relatos de cilindros de oxigénio, ventiladores e purificadores de água recusados ​​na fronteira”.

Xavier Joubert, diretor da Save the Children no território palestiniano ocupado, reitera: “É injusto que alimentos, produtos nutricionais e suprimentos médicos que salvam vidas estejam parados na fronteira, a poucos quilômetros de distância de onde crianças morrem desnecessariamente e dolorosamente por desnutrição. A fome nunca deve ser usada como arma de guerra. 27 crianças já foram mortas pela fome e por doenças – se o mundo não agir agora, inúmeras mais crianças serão acrescentadas a esse número”,

 

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