No país da “teranga”: da escravatura ao Senegal fraterno de hoje

| 10 Jul 19 | Cooperação e Solidariedade, Destaques, Direitos Humanos, Lugares, Newsletter, Sociedade - homepage, Últimas

A Ilha de Goreia (Gorée), ao largo de Dacar, é Património da Humanidade pelas piores razões: a escravatura! A escultura colossal dedicada ao Renascimento da Pessoa Africana mostra a esperança de um povo. A catedral católica fala de um herói francês que João Paulo II beatificou. Almadie e Pikine são bairros que mostram a riqueza e a pobreza de uma capital estratégica. 94% de muçulmanos e 5% de católicos com uma história de sã e fraterna convivência são lição para o mundo inteiro. Pequena visita guiada à história e cultura de um povo que diz teranga

 

Dacar é hoje uma cidade com muitos carros a circular e uma cidade cheia de comércio informal. Foto © Tony Neves

 

O novo aeroporto de Dacar, a 50 quilómetros da cidade, é uma porta de África muito moderna e organizada. (Quase) tudo funciona bem. A auto-estrada que nos leva à capital tem três portagens, mas vale a pena pagar por um piso tão excelente. A cidade tem bairros muito ricos, limpos e ordenados (por exemplo, Almadie) e bairros pobres e periféricos muito deteriorados (Pikine, entre outros). Há sempre muitos carros a circular e, durante o dia, as pessoas enchem por completo uma cidade repleta de comércio, sobretudo o informal que se faz em bancas nas ruas. Há muito colorido, muita vida e, sobretudo, muita juventude. Ordean dos Santos, chegado do Brasil, citava o filme americano: ‘Este país não é para velhos!’, ao ver que quase não se veem pessoas idosas.

Por todo o lado se lê a palavra Teranga, da língua wolof que todos falam. Traduz “hospitalidade”, como me explicou Zacharie Ndione, um senegalês que vive agora na Guiné-Conacri. O povo, regra geral, acolhe muito bem quem chega e isso também dá coragem para que se possa andar nas ruas da cidade, de dia e de noite, sem qualquer receio. Uma experiência pouco comum em África, a de se sair à noite e deambular pelas ruas cheias de gente e mercadinhos.

 

Da Ilha de Goreia ao ‘Renascimento Africano’

Os participantes no encontro de formadores dos Espiritanos, na Casa dos Escravos, o “espaço mais doloroso” que se visita “em silêncio”. Foto © Tony Neves

 

A cidade de Dacar transpira história por todos os cantos, seja em terra firme, seja no mar imenso por onde chegaram e partiram milhões de pessoas ao longo dos séculos.

Os primeiros europeus a acostar foram os navegadores portugueses, claro. Dinis Dias chegou em 1444 e começou logo o tráfico de escravos, a partir da Ilha de Goreia, hoje Património da Humanidade, por más razões. Depois dos portugueses (141 anos de liderança do tráfico negreiro!), vieram holandeses, ingleses e franceses, mas a sorte do povo local não foi melhor. Só em 1848 a França aboliu a escravatura.

Ir ao Senegal obriga a fazer uma visita-peregrinação a esta emblemática Ilha da desgraça e do adeus definitivo a África para muitos escravos.

O espaço mais doloroso é a Casa dos Escravos que se visita em silêncio. Ali está ‘escrita’ uma das páginas mais dolorosas da história da humanidade: a escravatura. Dói ver os espaços onde ficavam três ou quatro meses os homens, as mulheres e as crianças, enquanto esperavam pelos barcos negreiros que os levariam à Europa, à América ou à morte, naquele triste adeus definitivo à África que os vira nascer. Os doentes não embarcavam, pois eram atirados ao mar.

Dói, sobretudo, olhar para aquela porta que dá para o mar, onde o Papa João Paulo II se deixou fotografar a olhar para o Atlântico. A Casa dos Escravos é um lugar de memória, um santuário aberto a todos os peregrinos do mundo. E são muitos, todos os dias, pois é impensável visitar o Senegal sem ir à Ilha de Goreia. Atravessar o mar era um pesadelo que durava de 6 a 12 semanas, como sardinhas em caixa. Alain Ataba, pároco católico da Ilha, fez-nos visita guiada e chamou a atenção para a importância simbólica da visita de João Paulo II a 22 de fevereiro de 1992.

Boubakar Ndiaye é o conservador da Casa dos Escravos que ele ajudou a transformar num centro de advocacia e direitos humanos. “Este é agora um lugar de reconciliação e de perdão!”, disse ele.

Na igreja paroquial, a mais antiga do Senegal, dedicada a S. Carlos Borromeu, o Papa rezou: “Deste santuário africano da dor dos negros, nós imploramos o perdão do céu.” Os bispos de toda a África também ali peregrinaram em 2013 e fizeram uma celebração de penitência e reconciliação. Os formadores dos Missionários Espiritanos, após visita guiada à Casa dos Escravos, celebraram a Missa na igreja, em português, porque a primeira escravatura foi realizada por portugueses.

Além da Ilha de Goreia, visitámos a maior estátua de África, o monumento ao Renascimento da Pessoa Africana, um conjunto escultural de enorme dimensão.

O monumento ao Renascimento da Pessoa Africana. Foto © Tony Neves

Respeito mútuo e troca de nomes

Dança tradicional senegalesa no encontro de formadores dos Missionários Espiritanos: a diversidade religiosa do país tem mantido uma sã convivência. Foto © Tony Neves

 

O Senegal é um país muçulmano, que respeita muito os cristãos. É, por isso, um dos raros bons exemplos de coabitação entre essas comunidades religiosas, fraternidade que é importante manter, pois nos países vizinhos e no resto do mundo têm surgido muitos grupos fundamentalistas que deitam tudo a perder. Vítor Sereno, embaixador de Portugal no Senegal, realça o bom entendimento entre muçulmanos e cristãos: “É fenómeno raro em países vizinhos, há que manter!” Também a irmã Monique Lamouroux, francesa com décadas de África, elogiava a situação, mas chamava a atenção para a fragilidade deste respeito mútuo que custa muito a segurar.

Marie Diouf é a Superiora Geral das Filhas do Sagrado Coração de Maria, fundada por D. Kobès, missionário espiritano, em 1858. É a congregação africana mais antiga. Formada em Filosofia, Teologia e Direito Canónico, preside à Anima Una, a união de todas as congregações fundadas em África. Feliz com a sã convivência entre cristãos e muçulmanos, recordou o facto quase único de, ali, as famílias se cruzarem e darem aos filhos cristãos nomes que são islâmicos e vice-versa. Ela dava como exemplo o seu próprio nome: uma católica chamada Diouf! E tem havido casamentos mistos – recordou Florentine Mallya, tanzaniano que viveu 15 anos entre o Senegal e a Guiné-Conacri. Considera este facto relevante pois quase todas as famílias têm, no seu seio, cristãos e muçulmanos. E esta situação derruba preconceitos e gera coesão social.

A segurar esta sã convivência estão razões históricas (sempre foi assim!), mas também argumentos económicos: quando os fundamentalistas chegam, a economia de mercado morre. Daí que os sucessivos governos esmagam qualquer onda integrista que se levante. Por razões económicas, o domingo continua a ser o dia de descanso (não a sexta feira islâmica) e o Governo paga reconstruções de edifícios católicos, como o fez recentemente à Catedral de Zinguinchor.

 

Do Ramadão ao Tabaski, de Taizé a Pikine

O Ramadão já passou, mas os sinais permanecem visíveis, sobretudo nos placards de publicidade nas estradas. É sabido que, para o islão, este mês é o mais sagrado do ano e os muçulmanos não comem nem bebem nada enquanto houver luz do dia. Em países quentes ou quando os dias são compridos (por exemplo, durante o verão, já que o calendário islâmico é lunar), viver este jejum torna-se complicado.

À noite, há que recuperar o perdido do dia e os cartazes publicitários incentivam ao consumo de alguns produtos neste tempo sagrado. Um mês após o Ramadão vem a festa do Tabaski. Gilberte Manga, senegalesa formada no Porto (e com cartão de cidadão português) explicou: “Cada família deve preparar e comer um carneiro e, por isso, a cidade de Dacar parece um montado, tal a quantidade de carneiros vivos que se encontram em ruas e jardins, à espera da hora fatídica da sua imolação.”

Szcepan Frankowsky é um padre polaco a trabalhar na grande paróquia de Notre Dame du Cap Vert, no bairro histórico de Pikine, nas periferias da cidade capital. Da Polónia natal foi para Taizé, onde professou como monge. Seria enviado para o Senegal, para uma das pequenas fraternidades que a comunidade de Taizé tem pelo mundo além. Ali sentiria o coração a pedir-lhe que fizesse parte de uma congregação missionária e para ele foi óbvia a aproximação aos Espiritanos. Regressaria a França para completar a formação.

Ordenado em 2014, voltou ao Senegal onde está a desenvolver uma missão muito apreciada. T.T. Fons, um jornalista especializado em banda desenhada, contou-me em Pikine que o P. Szcepan é uma lufada de ar fresco: ‘simples, simpático, dedicado, criativo, próximo de todos, disponível’… Não houve poupança de adjetivos. Mas este manjaco descendente de guineenses tem percorrido o mundo por causa do reconhecimento do seu trabalho. Criou a personagem ‘Googoorlu’ que, em wolof, se pode traduzir por ‘sê um homem, desenrasca-te, vai lá, não desistas!’. Contou-me: “A partir da vida quotidiana, tento explicar com humor, a forma como o povo se desenrasca e assegura o dia a dia das suas famílias.” Esta banda desenhada fala de lógicas de sobrevivência.

Hoje o P. Szcepan continua muito ligado a Taizé, visitando a comunidade sempre que vai à Europa.

Leopold Senghor (1906-2001), a lenda

Foi o primeiro Presidente do Senegal, de 1960 a 1980, assegurando reeleições sucessivas. Nascido no Senegal foi o primeiro africano a licenciar-se na Sorbonne, em Paris. Deputado em França e membro da Academia Francesa, notabilizou-se pela sua vasta cultura, pela poesia, pelos escritos políticos e sobretudo pela defesa intelectual da Negritude. Foi um Presidente democrata, combateu a corrupção e sempre se afirmou um católico convicto.

Jean Claude Angoula, filósofo, reitor do Instituto de Santo Agostinho, considera Senghor uma referência mundial, para além de pai do Senegal. Mas lamenta: “Deram o nome dele a um aeroporto e a um estádio de futebol; fizeram da sua casa um museu, mas ele merecia que uma Universidade tivesse o seu nome. Ele é um humanista, um cientista político e um intelectual de elite.” Referiu ainda a alta qualidade do sistema universitário senegalês, o que explica a quantidade enorme de alunos estrangeiros a estudar nas universidades de Dacar.

A relação de Senghor com os Missionários Espiritanos é longa e profunda. Ele foi aluno do Seminário Espiritano de Sebikhotane e dali rumou a Paris. Afirmou muitas vezes que ele e o Senegal muito devem aos Missionários do Espírito Santo. Escreveu, em 1988, o prefácio do livro Libermann, biografia do segundo fundador dos Espiritanos, onde diz: “O pensamento e a mística do P. Libermann ajudaram-me muito, não só na minha vida de cristão, mas também na minha vida de intelectual e escritor negro-africano.” O padre Libermann escreveu numa carta aos Espiritanos em Dacar e no Gabão: “Fazei-vos negros com os negros.” Esta é uma das páginas mais célebres da inculturação do Evangelho.

 

Os Espiritanos e o Senegal

Os Espiritanos fazem parte desta história desde 1778, data da chegada dos primeiros missionários, os padres Delicourt e Bertout – como me contou Moise Camara, atual responsável pelos Missionários do Espírito Santo. E foram chegando em vagas sucessivas, sendo os mais importantes evangelizadores do Senegal. A primeira missão oficial em Dacar teve início com missa a 15 de fevereiro de 1846, celebrada no local onde está agora a câmara municipal. Aliás, todo o Plateau (o actual centro de Dacar) pertenceu aos Missionários. Mas monsenhor Kobes, chegado em 1849, é considerado o fundador da Igreja Católica no país, como explica Michel Gerlier, um francês a viver há 50 anos entre o Senegal e a Guiné, autor de diversas obras de história. A Igreja local foi crescendo, as dioceses foram nascendo e o primeiro cardeal, Hyacinthe Thiandoum (feito cardeal em 1976) é filho dos Espiritanos.

O historiador francês Paul Coullon diz que a ida dos Espiritanos para o Senegal quis combater as consequências da escravatura e evangelizar o povo.

O padre Daniel Brottier (beatificado pelo Papa João Paulo II) foi missionário em Saint Louis e é o responsável pela construção da catedral de Dacar, monumento de visita obrigatória.

Hoje, os Espiritanos têm uma Província transnacional (integra Senegal, Mauritânia, Guiné-Conacri e Guiné-Bissau), a Província da África Noroeste (Pano), com 20 comunidades nestes quatro países. Trabalham ali 48 (22 da Pano, os restantes de 18 países diferentes). Há 13 espiritanos originários da Pano a trabalhar noutros países.

Entre 25 de junho e 4 de julho, Dacar abriu as portas para um Encontro Internacional de Formadores Espiritanos. Ali se juntaram 32 Reitores de Seminários Maiores, vindos de 21 países. Além dos trabalhos em auditório, as visitas guiadas a locais cheios de história ajudaram a perceber melhor esta terra e este povo tão simpático e acolhedor.

Com um passado marcado pela escravatura e colonialismo, o Senegal vive uma época feliz de paz e progresso que só tem a ganhar com a boa relação entre religiões e culturas. Para Maturin Sadio, senegalês, os cristãos estão a crescer, o que é confirmado pela quantidade de batismos que se celebram todos os anos. Mas – o mais importante – é que o país está calmo, a progredir e continua a honrar a teranga como imagem de marca de um povo que luta contra qualquer extremismo que ponha em causa a estabilidade política, social e religiosa do Senegal.

 

Monumento à libertação de Goreia: depois de um passado marcado pela escravatura e colonialismo, o Senegal vive hoje uma época de paz e progresso  Foto © Tony Neves

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