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exequias do Papa Bento XVI, foto vatican media

Cerimónia simples e discreta

No seu adeus, Bento XVI teve aquilo que pediu

| 05/01/2023

Dom Gänswein beija o caixão do Papa Bento XVI, foto vatican media

Sobre o caixão de madeira de cipreste, muito simples, foi colocado o Evangelho aberto. Como único adorno, o brasão de Bento XVI. Foto © Vatican Media.

 

Se não foi assim que Bento XVI imaginou o seu funeral, certamente esteve muito perto. Desde a neblina que envolvia a Praça de São Pedro quando trouxeram o seu féretro para a frente do altar até à postura serena das cerca de 50 mil pessoas que ali se encontravam (e que correspondiam a metade do número que chegou a ser previsto), passando pela curta (mas não desprovida de significado) homilia do Papa Francisco, tudo contribuiu para a discrição e simplicidade das exéquias do Papa emérito, que decorreram na manhã desta quinta-feira, 5 de janeiro, no Vaticano.

Sobre o caixão de madeira de cipreste, também ele simples, depositado no chão cerca de 40 minutos antes do início da cerimónia, foi colocado o Evangelho aberto. Como único adorno, o brasão de Bento XVI.

Entre a multidão, que não preenchia totalmente a praça, as manifestações de emoção foram contidas. Escutaram-se alguns “Benedetto” e “Santo subito” (em português, “Santo já”), a mesma mensagem que podia ler-se na faixa envergada por um dos grupos presentes. Outra faixa dizia, em alemão, “Obrigado, Papa Bento”, e eram poucas as bandeiras que se agitavam no ar.

Inevitavelmente, aplausos ecoaram de quando em vez, nomeadamente nos momentos em que a urna entrou e saiu da praça, e em particular quando Francisco, que passou a maior parte da cerimónia sentado devido à sua dificuldade de locomoção, se levantou, foi junto do caixão, colocou a mão sobre ele, e ali permaneceu em silêncio durante alguns instantes.

Antes disso, haviam ecoado as suas palavras. A homília, marcada pela citação de várias frases do próprio Bento XVI (retiradas da encíclica Deus caritas est, da homília da missa crismal de 13 de abril de 2006, e da homília da missa do início do pontificado, a 24 de abril de 2005) partiu das últimas palavras de Cristo na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Francisco quis mostrar que é esse “o convite e o programa de vida que inspira e pretende modelar, como um oleiro, o coração do pastor até que palpitem nele os mesmos sentimentos de Cristo Jesus: dedicação agradecida, dedicação orante e dedicação sustentada pela consolação do Espírito”.

Sentimentos esses que terão preenchido o coração do Papa Bento XVI ao longo do seu pontificado, depreende-se das palavras de Francisco, que apesar de só ter referido o nome do seu antecessor mesmo no final da homilia, desde logo lembrou o que ele escrevera sobre essa missão: “apascentar significa amar, e amar quer dizer também estar prontos para sofrer. Amar significa dar às ovelhas o verdadeiro bem, o alimento da verdade de Deus, da palavra de Deus, o alimento da sua presença”.

 

Uma homilia pouco consensual

exequias do Papa Bento XVI, foto vatican media

“Queremos dizer juntos: ‘Pai, nas tuas mãos entregamos o seu espírito'”, afirmou Francisco durante a homilia. Foto © Vatican Media.

 

E se por um lado Bento XVI tinha consciência de que o pastor “não pode carregar sozinho aquilo que, na realidade, nunca poderia sustentar sozinho e, por isso, sabe abandonar-se à oração e ao cuidado do povo que lhe está confiado”, por outro “é o povo fiel de Deus que, congregado, acompanha e confia a vida de quem foi seu pastor”, assinalou Francisco.

Assim aconteceu nesta quinta-feira: “Também nós, firmemente unidos às últimas palavras do Senhor e ao testemunho que marcou a sua vida, queremos, como comunidade eclesial, seguir as suas pegadas e confiar o nosso irmão às mãos do Pai: que estas mãos misericordiosas encontrem a sua lâmpada acesa com o azeite do Evangelho, que ele difundiu e testemunhou durante a sua vida”, pediu o Papa. “Como as mulheres do Evangelho no sepulcro – continuou – estamos aqui com o perfume da gratidão e o unguento da esperança para lhe provar, uma vez mais, o amor que não se perde”.

Depois, referindo-se então claramente a Bento XVI, acrescentou: “queremos fazê-lo com a mesma unção, sabedoria, delicadeza e dedicação que ele soube dispensar ao longo dos anos. Queremos dizer juntos: ‘Pai, nas tuas mãos entregamos o seu espírito’. E concluiu, com uma oração que podia bem servir como prova desse amor que não se perde: “Bento, fiel amigo do Esposo, que a tua alegria seja perfeita escutando definitivamente e para sempre a sua voz!”.

Mas nem todas as pessoas que escutaram a homilia de Francisco apreciaram positivamente as palavras do Papa acerca do seu antecessor. Os repórteres do jornal Washington Post na praça de São Pedro alertaram, logo após a cerimónia, para a insatisfação que alguns setores conservadores poderiam ter sentido, por acharem que “o Papa não captou adequadamente o legado de Bento XVI”.

Referiam-se, nomeadamente, a Rod Dreher, um influente autor e editor de The American Conservative, católico de formação, que se converteu à ortodoxia. Ele deslocou-se de Budapeste, onde reside, até Roma, para estar no funeral de Bento XVI. E escreveu no Twitter ser “simplesmente doloroso que este grande e santo homem, Joseph Ratzinger, tenha sido dado à eternidade com tal desrespeito repulsivo pelo seu sucessor”. “De certa forma, acrescentou, o último ato de Bento XVI foi expor a pequenez da alma de Francisco”.

A contenção do Papa foi, no entanto, lida de outro modo pelo cardeal Wim Eijk (um dos quase 130 cardeais presentes na celebração, juntamente com 400 bispos e quase quatro mil padres), que é tido por conservador, e era admirado pelo Papa emérito. Também citado pelo Washington Post, o purpurado fez notar que “Bento não gostava de atenção para si mesmo”. “Acredito que o Papa Francisco levou isso em consideração. Está totalmente no espírito de Bento, e é justo que os seus desejos sejam respeitados.”

 

Texto colocado na urna lembra luta firme contra os abusos

Bento XVI “lutou com firmeza contra os crimes cometidos por representantes do clero contra menores e pessoas vulneráveis”, pode ler-se no texto que foi colocado no interior da urna. Foto © Vatican Media.

 

Mais consensual parece ter sido o texto colocado dentro da urna, esse sim a exaltar claramente os feitos de Bento XVI. Trata-se do rogito, um documento no qual se resume a história de cada pontificado e que tradicionalmente é colocado num cilindro metálico, junto ao corpo do falecido Papa. Nesse texto, divulgado esta quinta-feira pelo Vaticano, ficou escrito que “Bento XVI colocou no centro do seu pontificado o tema de Deus e da fé, na procura contínua da face do Senhor Jesus Cristo e ajudando todos a conhecê-lo, em particular mediante a publicação da obra ‘Jesus de Nazaré’, em três volumes”.

“Dotado de uma vasta e profunda consciência bíblica e teológica, teve a extraordinária capacidade de elaborar uma síntese iluminadora dos principais temas doutrinais e espirituais, assim como sobre as questões cruciais da vida da Igreja e da cultura contemporânea”, lê-se no documento.

Ao contrário do que poderia esperar-se, o tema dos abusos no seio da Igreja não foi excluído no rogito, onde se sublinha que o Papa emérito “lutou com firmeza contra os crimes cometidos por representantes do clero contra menores e pessoas vulneráveis”, e reclamou continuamente à Igreja “conversão”, “oração”, “penitência” e “purificação”.

O texto alude ainda ao tempo da juventude de Joseph Ratzinger, afirmando que “não foi fácil”, e destacando que “a fé e a educação da sua família prepararam-no para a dura experiência dos problemas associados ao regime nazi, conhecendo o clima de forte hostilidade para com a Igreja Católica na Alemanha. Nessa situação complexa, ele descobriu a beleza e a verdade da fé em Cristo”.

“Face ao relativismo e ao ateísmo prático”, Bento XVI instituiu em 2010 o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, recorda ainda o texto, destacando também a forma como “promoveu com sucesso o diálogo com os anglicanos, os judeus e representantes de outras religiões”.

 

“Firme na fé e nas convicções, mas disposto a escutar respeitosamente”

Papa Bento XVI visitando a Mesquita Azul em Istambul, 2006 , foto vatican media

O Papa Bento XVI na Mesquita Azul, em Istambul (2006). Vários representantes religiosos o descrevem como um “interlocutor do mais alto nível”. Foto © Vatican Media.

 

A forma como Noemi di Segni, presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas, descreve Bento XVI confirma o que ficou escrito no rogito: foi “um interlocutor que escolheu agir num tipo de escuta muito elevada, alta em conteúdo e reflexão religiosa, procurando compreender os pontos comuns teológicos, e também considerando as fontes judaicas como fontes de inspiração para o caminho da Igreja”, afirma, citada esta quinta-feira pelo Vatican News.

Também  o rabino chefe de Roma, Riccardo Di Segni que estava ao lado de Ratzinger na visita histórica que este fez à sinagoga da cidade, em 2010, se referiu a ele como um interlocutor “do mais alto nível, firme na fé e nas convicções, mas disposto a escutar respeitosamente”.

Na opinião do rabino, ouvido igualmente pelo Vatican News, Bento “deixou uma marca importante para a Igreja e para o mundo inteiro, apesar do temor no mundo judeu de que a sua eleição pudesse levar a um abrandamento do diálogo fortemente desejado pelo seu predecessor João Paulo II”. Em vez disso, o diálogo continuou e foi reafirmado por três momentos importantes do pontificado de Bento, correspondendo a três lugares de peregrinação: “Auschwitz, Jerusalém, o Muro das Lamentações, a Sinagoga”.

O vice-Presidente da Comunidade Religiosa Islâmica Italiana, o imã Yahya Pallavicini, recordou por seu lado a importância de Joseph Ratzinger no diálogo entre cristãos e muçulmanos. “Eu estive com ele várias vezes, mas o meu primeiro encontro foi quando ele nos recebeu em Castel Gandolfo como uma delegação do Islão italiano. Foi um momento simbólico porque havia algumas polémicas após a sua Lectio Magistralis em Regensburg. Recordo que o Papa Bento XVI nos recebeu com grande humildade e dignidade. Assim começou uma relação que se articulou ao longo dos anos, com grandes eventos encontrando outros sábios muçulmanos internacionais”.

Em Portugal, uma nota de pesar enviada ao 7MARGENS pela Igreja Lusitana é mais um sinal de que Bento XVI soube construir pontes entre as diferentes religiões e Igrejas. “No desenvolvimento do seu pontificado, e em tempos de aceleradas mudanças culturais, Bento XVI contribuiu, enquanto grande teólogo, para o aprofundamento da abertura entre a fé e o mundo da cultura e da arte, apelando ao diálogo e à cooperação, como via de comunicação ao mundo moderno da Verdade única presente na pessoa de Jesus Cristo”, pode ler-se na nota assinada pelo bispo diocesano Jorge Pina Cabral.

“No mês em que iremos celebrar a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, e assumindo a nossa reconhecida união batismal na pessoa de Jesus Cristo, expressamos a todos os irmãos e irmãs, da Igreja Católica Romana, sentidas condolências sustentadas na esperança firme na ressurreição para a vida eterna”, conclui o comunicado.

 

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