Nobel da Paz para a reconciliação da Etiópia com a Eritreia

| 12 Out 19 | Destaques, Newsletter, Últimas

O anúncio foi feito em Oslo, às 10h da manhã desta sexta-feira, 11 de Outubro: “O primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali [da Etiópia] foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz deste ano pelos seus esforços em prol da paz e da cooperação internacional, em particular pela sua iniciativa decisiva de resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia” com o acordo de paz de 9 de Julho de 2018, afirmou a presidente do Comité Nobel, Berit Reiss-Andersen.

Imagem do Comité Nobel, para o anúncio do Prémio da Paz 2019 ao primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali, da Etiópia.

 

“Sinto-me humilde e emocionado. Muito obrigado. Este é um prémio para África, atribuído à Etiópia. Posso imaginar que os restantes líderes de África vão olhá-lo como algo positivo e trabalhar no processo de construir a paz em todo o continente. Estou muito feliz e emocionado com esta notícia. É um grande reconhecimento”, respondeu Abiy Ahmed Ali, quando recebeu o telefonema do comité a confirmar a atribuição do Nobel.

Na conta do gabinete do primeiro-ministro etíope na rede social Twitter, lia-se: “Expressamos o nosso orgulho na escolha do primeiro-ministro da Etiópia para Prémio Nobel da Paz de 2019. Este reconhecimento é um testemunho dos ideias da unidade, da cooperação e da coexistência mútua, que o primeiro-ministro tem vindo consistentemente a defender.”

Abiy Ahmed Ali é filho de mãe cristã e pai muçulmano, lê-se no DN. Tendo chegado ao poder em Fevereiro de 2018, na sequência de uma grave crise política do país, Abiy tornou-se, com 43 anos, no mais jovem líder político de África. As medidas que entretanto tomou abriram janelas de esperança para um dos países mais pobres do mundo e com conflitos latentes desde há anos – incluindo com os vizinhos da Eritreia. Essas medidas incluem a libertação de milhares de presos políticos, o convite ao regresso de exilados políticos, a organização e promessa de eleições livres para 2020, o fim das restrições à liberdade de imprensa e da lei marcial em vigor. Além disso, a equipa do Governo tem mais de metade dos cargos ocupados por mulheres, tendo também, pela primeira vez, uma mulher sido nomeada como presidente do Supremo Tribunal, recorda o Público.

Na carta de nomeação de Abiy Ahmed, divulgada pelos jornais locais e citada pelo DN, afirma-se que o primeiro-ministro “um símbolo de paz e justiça numa região onde os líderes políticos têm governado pela violência, tirania e violação dos direitos humanos” e que pretende transformar o seu país em ordem a que haja mais equidade e maior respeito pelos direitos humanos.

 

A paz não vem só de um lado

Ecrás num jardim de luz para anunciar o Nobel da Paz de 2019, o primeiro-mnistro etíope Abiy Ahmed Ali. Foto Sabine Rønsen (WMNO) /Wikimedia Commons

 

“A paz não surge das ações de uma das partes apenas. Quando o primeiro-ministro Abity estendeu a mão do presidente Afwerki [da Eritreia], este agarrou-a e ajudou a formalizar o processo de paz entre os dois países. O Comité Nobel Norueguês espera que este acordo de paz traga mudanças positivas para todas as populações da Etiópia e da Eritreia”, acrescentou ainda a presidente do Comité Nobel, ao anunciar a decisão. “Sem dúvida, algumas pessoas acharão que este prémio está a ser atribuído demasiado cedo. O Comité Nobel Norueguês acredita que os esforços de Ahmed Abiy merecem reconhecimento e precisam de ser encorajados”, disse, numa referencia a polémicas anteriores – nomeadamente em relação à atribuição do prémio ao Presidente Barack Obama, dos EUA.

“Reconhecemos as suas [do primeiro-ministro] intenções de levar a cabo eleições democráticas no próximo ano. (…) Há muito que já foi conseguido para fazer reformas democráticas na Etiópia, mas há ainda um longo caminho a percorrer. Roma não foi feita num dia e a paz e o desenvolvimento democrático também não são atingidos num curto espaço de tempo”, disse ainda Berit Reiss-Andersen.

A guerra entre Etiópia e Eritreia, entre 1998 e 2000, provocou mais de 80 mil mortos e, apesar do acordo de paz de 2000, a situação era ainda de conflito latente por causa da delimitação de fronteiras.

A Amnistia Internacional apelou a que o prémio leve o Governo etíope a redobrar o respeito pelos direitos humanos. “O primeiro-ministro da Etiópia recebeu o Prémio Nobel da Paz, este prémio deve servir para motivá-lo a fazer face aos grandes desafios de direitos humanos que possam reverter os ganhos feitos até agora”, reagiu a organização de defesa dos direitos humanos.

Além das felicitações da Comissão Europeia, também o secretário-geral da ONU, citado ainda no DN, saudou a decisão: “Os ventos de mudança sopram por toda a África. O primeiro-ministro Abiy Ahmed é uma das razões. A sua visão ajudou a Etiópia e a Eritreia a chegarem a um entendimento histórico e sinto-me honrado em testemunhar a assinatura do acordo de paz no ano passado. Isto abriu oportunidades para a região tirar partido da paz e da segurança e a liderança do primeiro-ministro Ahmed é um magnífico exemplo para os outros e para além de África, no sentido de se ultrapassar a resistência causada pelo passado e de pôr as pessoas em primeiro lugar.”

O Vatican News recorda ainda o encontro do agora laureado com o Papa Francisco, em 21 de Janeiro deste ano e fala do primeiro-ministro como “uma esperança para o futuro da democracia na Etiópia”. O professor de História Africana da Universidade de Nápoles, Alessandro Triulzi, considerou que o prémio “reconhece a importância da Etiópia como um país hegemónico na região do corno de África”, como afirmou, em declarações à Rádio Vaticana.

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O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

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