Nobel para Olga Tokarczuk, uma “mística na busca perpétua da verdade”

| 12 Out 19

Quando passei o mês de Novembro de 2013 como professora visitante na Universidade de Varsóvia (na área da educação), li poemas e o livro Viagens de Olga Tokarczuk (na versão em língua inglesa). Olga Tokarczuk nasceu em Sulechów, uma pequena cidade no oeste da Polónia, em 1962, filha de um casal de professores. Formou-se em Psicologia (na perspectiva de Karl Jung) “na universidade de uma grande e soturna cidade comunista” (Varsóvia), afirma ela. Publicou o seu primeiro livro em 1989, uma coletânea de poesia intitulada Miasta w lustraché (Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, na edição portuguesa a lançar na segunda-feira, 14 de outubro), seguindo-se os romances E. E. e Prawiek i inne czasy. Este último tornou-a uma reconhecida escritora. (Nesta quinta-feira, 10 de outubro, Olga Tokarczuk foi anunciada como vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2018 – o prémio não tinha sido atribuído no ano passado –, a par de Peter Handke, vencedor do prémio de 2019.) 

Já no ano em que fui professora visitante na Universidade de Varsóvia (2013) Olga Tokarczuk era ativista e crítica do movimento polaco que veio a instalar a direita no poder, visceralmente contra qualquer fanatismo. Vegetariana e ecologista, o seu compromisso político levou-a a receber ameaças de morte, tendo a sua editora sentido necessidade de lhe garantir segurança pessoal.

A partir da publicação de Prawiek i inne czasy, a sua prosa afastou-se da narrativa mais convencional, incidindo mais na prosa breve e no ensaio. A obra de Olga Tokarczuk tem sido amplamente premiada. Recebeu por duas vezes o mais importante prémio literário da Polónia, o prémio Nike; em 2018, foi finalista do prémio Fémina Estrangeiro e foi vencedora do Prémio Internacional Man Booker. Os seus livros estão traduzidos em trinta línguas. Em Portugal foi apenas publicado, no passado mês de março pela editora Cavalo de Ferro, o livro Viagens já editado na Polónia em 2007, estado anunciada a publicação de Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos.

Olga é uma viajante. “Não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem no mesmo lugar” (As citações agora usadas são todas provenientes de Viagens). “A minha energia provém do movimento.” Muito cedo, pôs-se “a caminho pelo mundo fora”, fazendo trabalhos temporários para sobreviver. Viaja ombro a ombro com imigrantes “em busca do país ideal e justo, algures no Ocidente”. Gosta de aeroportos – “cada aeroporto possui a sua própria música” – e tem saudades do tempo em que fazia tricô no avião para se descontrair e focar o seu pensamento: “Agora não permitem agulhas no interior dos aviões.”

As suas obras têm referências sistemáticas à raiz cristã-católica da sua amada Polónia. Descreve assim uma formação muito tradicional em Psicologia – profissão que nunca exerceu – que foi a sua:

“Porém, uma coisa eu sei: todo aquele que procura a ordem deve evitar a Psicologia. Que se dedique antes à Fisiologia ou à Teologia, campos em que, pelo menos, terá fortes fundamentos, quer se trate da matéria quer da alma, e não correrá nos riscos do terreno escorregadio do psiquismo. A psique é um objeto de investigação muito instável (…) Não me arrependo de me ter deixado encantar por esta ocupação singular [a escrita], tanto mais que não tinha vocação para psicóloga (…).”

Noutro passo, Olga descreve o seu processo de escrita:

“Todo aquele que alguma vez tenha tentado escrever um romance sabe que é uma árdua tarefa e, sem dúvida uma das piores formas de auto-subsistência. Durante todo esse tempo, é preciso permanecer fechado em si mesmo, como numa cela individual, na mais completa solidão.

Olga Tokarczuk é considerada mundialmente uma escritora original, ousada, fascinante e intrigante, com um humor fino e irreverente:

“(…) nunca me tornei uma verdadeira escritora; ou talvez seja melhor dizer escritor porque, neste género, a palavra tem uma conotação mais séria.”

Uma das suas amigas, Kinga Dunin, também escritora e crítica literária, explica à AFP: “Olga é uma mística na busca perpétua da verdade, verdade que só pode ser alcançada em movimento, transgredindo as fronteiras. Todas as formas, instituições e idiomas concertados são a morte.”

Este breve aperitivo serve para começarmos verdadeiramente a saborear a obra de Olga Tokarczuk.

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior (aposentada), membro do movimento Graal; Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com)

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