Era uma turma pequena, com crianças agitadas e, no geral, já exaustas às primeiras horas da manhã. Na verdade, só algumas conseguiam seguir e participar no trabalho quotidiano com uma disciplina e um sentido crítico e analítico suficientemente despertos para se entenderem com o mundo em que vivem.
A nossa tarefa, como sempre nestes casos, era conduzi-las com a firmeza indispensável perante gente de 17-18 anos, enfrentando os atalhos mais populares: a autoficção (que vive da vitimização e do acidente permanentes), a desconfiança em relação ao trabalho bem feito (que faz da fraude um recurso aceitável) e o sentido de urgência (que inverte em permanência a relação entre trabalho e outra qualquer ocupação, essa sim a exigir atenção).
A certa altura, já a Primavera seguia o seu curso, e confrontado com uma discussão mais viva entre alguns alunos acerca da 2ª Guerra Mundial, na qual tendia a prevalecer uma concepção ‘mundo de aventuras’, heróica e guerreira de alguns eventos, sem menção da catástrofe moral que representou, propus-lhes uma experiência: vamos ver um filme.
Num grupo assim, ‘ver um filme’ tende a ser interpretado como ‘temos feriado’. Podia ser, mas quem sabe? Em todo o caso, acolheram a proposta com entusiasmo.
Na altura, elaborava, por razão nenhuma, guiões de trabalho sobre filmes de ficção e documentários que me pareciam adequados ao propósito de educar os sentidos, o gosto e a razão. E o que lhes queria mostrar tinha uma tripla vantagem: cabia na hora lectiva (32 min. vs. 50), combinava admiravelmente imagens, banda sonora e narração, permitia lembrar (neste caso, dar a conhecer) um enorme realizador francês.

Alain Resnais (1922-2014). Fonte: Guidedoc.tv
E então, numa sexta-feira cheia de luz, quente e bonançosa, fiz entrar pela janela da pantalha a meia-hora notável de Noite e Nevoeiro[1], nome dado pelos nazis aos deportados cujo destino era o extermínio. O documentário realizado por Alain Resnais, com texto de Jean Cayrol e música de Hanns Eisler, conta o percurso dos judeus e outros prisioneiros enviados para os campos de concentração, com recurso a imagens de arquivo e outras, a cores, filmadas pela equipa de Resnais nos campos de Orianenbourg, Auschwitz, Dachau, Ravensbrück e Bergen-Belsen. Concluído em 1955 e estreado no ano seguinte, no Festival de Cannes, mereceu ao crítico Serge Daney o seguinte testemunho:
“Nuit et Brouillard era este pequeno filme que pessoas como eu receberam como um tremendo choque aos doze ou treze anos, e que nos disse que o cinema existia, que os campos existiam, que o homem existia, que o mal existia – e elas nunca mais o esqueceram.”

Distribuição em Portugal: alambique, 2018. (Foto do DVD: JS)
Ora, quando, num movimento espontâneo de revolta, as vozes geralmente mais exaltadas e impacientes reclamaram silêncio e quase todos se inclinaram em direcção ao écran, poder-se-ia dizer que, por momentos, nessa interminável luta da memória contra o esquecimento, de que a escola é um dos palcos, a memória vencera a indiferença. A comoção e a surpresa tomaram os mais rebeldes; a indignação, a dor e a incredulidade, tudo misturado numa amálgama que iríamos desembaraçar, lentamente, nas horas seguintes, transfiguraram o grupinho indiferente em algo mais interessante, talvez capaz de compreender, hoje e no futuro, as derradeiras palavras do extraordinário texto de Jean Cayrol, resistente francês deportado para Mathausen:
«Enquanto vos falo, a água fria dos pântanos e das ruínas enche os buracos das valas comuns, uma água fria e opaca como a nossa má memória.
A guerra adormeceu, com um olho ainda aberto. A relva fiel voltou a crescer na Appel-platz [área de chamada dos prisioneiros] à volta dos blocos.
Uma aldeia abandonada, ainda cheia de ameaças.
O crematório não funciona. Os estratagemas nazis estão fora de moda.
Nove milhões de mortos assombram esta paisagem.
Quem de nós vigia a partir deste estranho observatório para nos avisar da chegada dos novos carrascos? Terão eles, de facto, outro rosto que não o nosso?
Algures, entre nós, ainda há kapos [prisioneiro designado pelos nazis para vigiar o trabalho forçado ou para tarefas administrativas] com sorte, dirigentes recuperados, delatores desconhecidos.
E nós, que olhamos sinceramente para estas ruínas como se o velho monstro concentracionário tivesse morrido sob os escombros, que fingimos retomar a esperança perante esta imagem que se desvanece, como se nos curássemos da peste concentracionária, nós que fingimos acreditar que tudo isto é de um só tempo e de um só país, e que não pensamos em olhar à nossa volta e que não ouvimos que se grita sem fim.”
Têm 70 anos estas palavras. Memória, esquecimento: «Quem de nós vigia?»
[1] Distribuição em Portugal: alambique, 2018.
João Santos é professor.









