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“Nome grande”, nome espiritual

| 11/08/2019

“Nome grande”, nome espiritual

by | 11 Ago 19 | Entre Margens, Newsletter diária - título, Últimas

O nome, como parte constitutiva, completa a pessoa, pois explica a natureza própria do ser individual […]. É um distintivo, segue a alma espiritual, como a sombra que segue a alma sensitiva. […] O nome situa o homem no grupo; é a denominação que permite reconhecê-lo, o sinal da sua situação, da sua origem, da sua actividade, das suas relações com os outros […]. (Altuna, 2006: 268)

 

É sobejamente sabido que, no tempo colonial, em Moçambique, as conservatórias de Registo Civil só registavam nomes de origem portuguesa. Uma vez que antes da chegada dos portugueses ao país, as pessoas tinham a tradição de nomear, não o deixaram de fazer. Apenas acabaram por utilizar dois nomes, um oficial, imposto pela governação, que é o de registo, e um outro utilizado em fórum doméstico, ao que chegou a chamar-se “nome de casa”, nome tradicional ou “nome grande”. Devo também frisar a existência de outros nomes, não necessariamente “grandes”, utilizados em situação familiar, que podem derivar de um acontecimento ligado à época de nascimento do indivíduo ou a algum ritual de passagem. Falarei sobre esses nomes, a partir do meu conhecimento sobre os gitongas e matswas, grupos étnicos oriundos da província de Inhambane.

O nome une o indivíduo às suas origens, aos seus ancestrais, à sua família. Vejam-se os tipos de categorias ou os critérios utilizados para nomear, dos quais falei no texto “Os rituais de nascimento rongas e portugueses”. Nas culturas desses grupos étnicos, um indivíduo não existe por si só; ou seja, a sua identidade se encontra ligada à sua família, aos seus ancestrais, à sua espiritualidade e/ou, por vezes a um acontecimento. Quero com isso dizer que, quando lhe perguntam o nome, do ponto de vista da filosofia dos gitonga, o indivíduo deverá dizer o seu, o do pai e o do avô.

Por exemplo: Mbate wa Kwamba wa Rungo, de onde Mbate é o seu nome, Kwamba é do seu pai e Rugo o pai do pai. Fica-se a saber quem é: de quem é filho e de quem é neto. Ou então deve dizer: Mbate wa Kwamba wana Nhamussua, o que significa, o seu nome, o do seu pai e o da sua família linhageira, do lado do pai. Só assim é que a sua identidade fica clara. Na verdade, só assim é que se pode perceber parte da sua identidade, a mais contemporânea possível; porque, casos há em que ele, para se identificar, deverá utilizar a saga da família, constituída por nomes e por alguns símbolos, apenas conhecidos entre os membros da sua família e que o permitem informar quem é, a quem lho pergunte; ou seja, o recurso à saga informa a que família alargada o indivíduo pertence e é através dela que outros membros da sua família o podem reconhecer como sendo da mesma linhagem.

Para explicar este último caso, utilizarei o exemplo da saga da minha família, para dizer quem sou. Sou originariamente matswa da parte do meu pai e bitonga da parte da minha mãe. A filosofia é a mesma nas duas culturas:  niwaka Nheve (sou da família Nheve), vbigagana vbvi bholileko vbi vhumala matsewule(?). A Kaya kayina inxlangueni ka Nheve(a nossa casa é a dos Nheve).A saga tem outras componentes, envolvendo mais parte da árvore de família. Apenas mencionei um segmento. O que vem entre parêntesis é uma tentativa de tradução.

Há nesta saga um nome e alguns símbolos. O nome é Nheve, que foi traduzido pelos portugueses para Neves e o símbolo é vbigagana vbvi bholileko vbi vhumala matsewule, reconhecível apenas por quem faça parte da minha família e cujo significado identifica uma determinada situação familiar de grande ausência de algo, que não sei o que seja. Mas devo dizer que sou de uma família pouco numerosa. Só para dar um exemplo, o meu avô, pai do meu pai, era filho único, algo raro entre as famílias africanas, algumas delas que, para além de manterem familiaridade através da consanguinidade, mantêm-na, por via simbólica, através de totens. Suspeito que a tal ausência esteja ligada à minha linhagem familiar, que é pequena.

Retomando a frase simbólica na minha saga familiar, afirmo, com toda a sinceridade, que isso é uma espécie de código ou senha familiar. Ninguém, no seio da minha família, ainda se dignou a traduzi-la. E fazem-no de propósito. Não tem a ver com o se ser ou não letrado. É, de facto, uma senha reconhecível entre os da mesma pertença e que os distingue dos outros membros de outras linhagens. E isto ajuda a explicar que um indivíduo só existe na medida em que é parte de uma família.

 

Nome grande, identidade e protecção

O nome grande é-o, não na medida do seu comprimento, mas na medida do seu significado espiritual. Ainda que o indivíduo tenha um nome oficial e outro doméstico, é apenas o nome grande que é utilizado quando se quer lembrar um familiar homónimo ou quando a pessoa adoece (e isso, em termos de performance, é feito carinhosamente e com muito respeito), ou ainda utilizado para os pedidos de bênçãos aos antepassados ou nas grandes mhambas. (cf. o texto que antes publiquei no 7MARGENS “Celebração da fraternidade: o ágape e a mhamba, da graça à salvação”).

O nome grande identifica um indivíduo, mas é também um nome para a sua protecção. É escolhido pela família, numa decisão colegial; o que explica a razão pela qual, na maior parte das vezes, se espere a criança nascer para o atribuir; num ritual no qual ele é chamado pelo nome escolhido, enquanto a mãe o amamenta. E o nome é repetido várias vezes. Acredita-se que enquanto este decorrer e a criança sugar devidamente do peito da mãe, aceitou o nome, caso não, o nome escolhido deve ser trocado, porque rejeitado pela criança.

Casos há em que a criança mama (aceita o nome), mas, por alguma razão, mais tarde, não lhe cai bem, ou seja, não o protege, não o abençoa. Nestes casos, faz-se um ritual para o renunciar, para o tirar; ou melhor, faz-se um ritual de “lavagem” ao indivíduo, para o libertar desse nome e após esse evento, ele não o poderá voltar a utilizar, nem deverá ser referido. E o indivíduo receberá um outro. A retirada do nome é feita com recurso a mesinhas mergulhadas em água e o indivíduo deve lavar-se ou é lavado enquanto fala, dizendo que não voltará a utilizar aquele nome, pedindo que os seus antepassados o abençoem e iluminem a sua família na escolha de um novo que se adeqúe aos seus espíritos, que seja um nome protector, um nome de facto grande.

Sobre os outros nomes ou os nomes pequenos de alguém: voltando a utilizar o caso de Mbate wa Kwamba wa Rungo, este poderia ainda ter o nome de “Mughoyi”, que não sendo utilizado a nível da família alargada, é-o a nível da família restrita. “Mughoyi” significa aquele que estraga e, do que sei sobre os gitongas ou os indivíduos aos quais se deu esse nome, tem a ver com o facto de nascerem de uma união não consentida. Então, mughoyi, nestes casos, significa aquele que criou problemas (estragou) determinada união matrimonial. Sendo este um exemplo, o mughoyi pode ainda receber um outro nome que derive de um ritual de passagem ou de algo nele surgido. Mas o que se deve reter quanto aos nomes é que o nome grande é o que o indivíduo utiliza para se identificar e os pequenos são utilizados pelos familiares referindo-se ao denominado de tal forma. Mas acaba sendo pouco ou quase nunca conhecido pela família alargada.

Nos dias que correm, algumas famílias voltaram a registar oficialmente os seus filhos com recurso aos nomes grandes e isso tem sido permitido oficialmente, a nível das conservatórias de Registo Civil.

 

Sara Jona Laísse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica de Maputo e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) – Moçambique; contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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