Sucessão em Lisboa com quatro nomes

Nomeação de Américo Aguiar como cardeal pode levá-lo para Roma depois da JMJ

| 9 Jul 2023

bispo Américo Aguiar, fotografado na sede da Fundação JMJ, 1.6.2023.. Foto © António Marujo

bispo Américo Aguiar, fotografado na sede da Fundação JMJ, 1.6.2023.. Foto © António Marujo

 

O Papa anunciou neste domingo um consistório para a criação de 21 novos cardeais, entre os quais incluiu a nomeação do até agora bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, que é também o presidente da Fundação Jornada Mundial da Juventude e do conselho de gerência da Rádio Renascença. A nomeação de Américo Aguiar como cardeal deverá significar que o ainda bispo auxiliar de Lisboa deverá rumar para Roma depois da realização da JMJ, já que, em princípio, não deve haver dois cardeais eleitores na mesma diocese – asseguraram ao 7MARGENS várias fontes eclesiásticas em Lisboa e Roma.

Entre os novos cardeais, estão também o patriarca de Jerusalém, os arcebispos de Hong Kong, Bogotá (Colômbia), Madrid (que acabou de tomar posse), Juba (Sudão), Cidade do Cabo (África do Sul) e de Penang (Malásia). A lista de nomeados inclui 18 novos cardeais que poderão votar num futuro conclave (ou seja, com menos de 80 anos), entre os quais ainda três responsáveis de dicastérios da Cúria Romana: Robert Francis Prevost, dos Bispos; Claudio Gugerotti, das Igrejas Orientais; e o argentino Victor Fernandéz, que uma semana antes tinha sido anunciado como novo prefeito da Doutrina da Fé. Serão também novos cardeais os actuais núncios nos Estados Unidos (o francês Christophe Louis Pierre) e em Itália (o suíço Emil Paul Tscherrig). Os bispos de Córdoba (Argentina) e de Łódź (Polónia), de Tabora (Tanzânia) e de Ajaccio (Córsega – França) e ainda o reitor dos Salesianos, o espanhol Ángel Fernández completam a lista dos novos cardeais com direito a voto no futuro conclave.

Os nomes foram escolhidos de modo a exprimir “a universalidade da Igreja, que continua a anunciar o amor misericordioso de Deus a todos os homens da terra”, afirmou Francisco, no final da recitação do Ângelus. Ao mesmo tempo, o Papa comunicou que o consistório, durante o qual os novos cardeais receberão o barrete símbolo do cardinalato, decorre no dia 30 de Setembro.

Nessa data, decorre em Roma um encontro de jovens preparatório do Sínodo sobre a sinodalidade, organizado pela comunidade monástica ecuménica de Taizé. Sábado à noite, Francisco estará com os jovens numa vigília ecuménica, mas essa iniciativa corre agora o risco de ficar mediaticamente ofuscada pela cerimónia de nomeação dos novos cardeais.

 

Sucessão em Lisboa: o ponto de situação

 

patriarca, Manuel Clemente

 

Com 49 anos, Américo Aguiar passa a ser o segundo membro mais jovem do Colégio Cardinalício e o quarto cardeal português criado no atual pontificado, depois do patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, e José Tolentino Mendonça, do Dicastério da Santa Sé para a Cultura e Educação.

Com a nomeação de Américo Aguiar e a sua provável ida para Roma depois da JMJ – o bispo tem sido um dos nomes falados como candidato para suceder a Manuel Clemente –, o quadro dos candidatos à sucessão do actual patriarca fica reduzido ao arcebispo de Évora (Francisco Senra Coelho) e os bispos do Funchal (Nuno Brás), Coimbra (Virgílio Antunes) e Ordinariato Castrense (Rui Valério). Ou seja, a solução sairá, aparentemente, de actuais membros do episcopado. O facto de ter havido católicos a escrever ao Papa e ao núncio da Santa Sé em Lisboa afirmando que não havia neste momento “candidatos adequados” não teve, portanto, qualquer interferência no processo de escolha.

Várias fontes eclesiásticas garantem ao 7MARGENS que o nome do futuro patriarca de Lisboa estará escolhido e que o seu anúncio pode estar para breve – ainda este mês ou, na pior das hipóteses, até Setembro.

O Colégio Cardinalício passa a contar com 243 membros, 139 dos quais podem votar num futuro conclave de eleição de um novo Papa. Mas 13 entre eles completa os 80 até daqui a um ano, o que lhes retira o direito de voto. Entre os eleitores, a maioria – 81 cardeais – foram já escolhidos por Francisco.

Américo Aguiar, nascido em 1973, foi ordenado padre em 2001 e nomeado bispo auxiliar de Lisboa em Março de 2019, depois de ter trabalhado com Manuel Clemente quando este foi bispo do Porto.

Dos seus pares, vieram as felicitações pela nomeação: a Conferência Episcopal Portuguesa manifestou o “grande regozijo” pela nomeação, e o seu presidente, o bispo José Ornelas, falou de uma “notícia feliz” e um “reconhecimento grato” pelo trabalho à frente da JMJ, como disse numa nota enviada ao 7MARGENS.

O patriarca Manuel Clemente manifestou igualmente a sua “alegria e gratidão” e enalteceu as capacidades do novo cardeal, recusando-se, em declarações à Renascença, a dizer se pode ele ser o seu sucessor.

E também o bispo do Porto, Manuel Linda, deu “nota 20” à escolha do Papa.

 

Viagem à Ucrânia

 

Um tanque destruído numa das ruas de Bucha, na Ucrânia. Foto © Presidência da Ucrânia

Um tanque destruído numa das ruas de Bucha, na Ucrânia. Foto © Presidência da Ucrânia

 

Já o Presidente da República manifestou igualmente o seu “profundo júbilo” pela nomeação, enquanto o primeiro-ministro António Costa escreveu na sua página no Twitter que Américo Aguiar é uma “figura ímpar da Igreja Católica”. À Renascença, o presidente da Assembleia da República deixou o “voto de muita confiança no sucesso” da JMJ que a escolha também traduz.

Reagindo à notícia, o próprio manifestou-se “totalmente surpreendido”, mas convencido que o Papa teve no seu coração os jovens e a “preparação da Jornada Mundial da Juventude”. De facto, reunindo com frequência com Francisco – quase todos os meses -, o novo cardeal terá tido uma ocasião soberana de proximidade com o Papa. Mas “as conversas eram de outros contextos e outros cenários”.

Américo Aguiar estava no lugar onde estão a ser preparados os conjuntos das mochilas para os peregrinos e confessou-se num “misto de alegria e de aflição”, mas também considerou a decisão como “uma homenagem a Portugal, uma homenagem aos portugueses, uma homenagem à juventude portuguesa”.

Já durante a noite, a Fundação JMJ anunciou, numa nota enviada às redacções, que o seu presidente se irá deslocar à Ucrânia, para um encontro com jovens. A viagem responde ao convite da Conferência Episcopal Ucraniana, cujos representantes estiveram há duas semanas em Lisboa. As datas e locais da deslocação “não serão revelados, por motivos de segurança”.

 

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