A irmã Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, da Santa Sé, considera que o facto de pela primeira vez uma mulher desempenhar um tal cargo no Vaticano representa apenas um “passo” para ter mais mulheres em lugares de responsabilidade na Igreja Católica.
“Não me parece que seja um ponto de chegada, é um passo de um processo”, que tem “também uma expressão simbólica” no sentido de uma “cada vez maior diversidade” na estrutura de liderança católica. “A maioria dos consagrados e consagradas são mulheres. É normal, é compreensível, que também no Dicastério a liderança e os colaboradores tenham representação de mulheres e de homens”, indicou a prefeita, durante um encontro com jornalistas e outros profissionais de comunicação portugueses, que estão em Roma para participar no Jubileu do mundo da comunicação.
A nomeação de Simona Brambilla, missionária da Consolata que já trabalhou em Moçambique, traduz também, pelo facto de ser mulher, a sinodalidade como dimensão fundamental da vida da Igreja Católica, e facilita “o diálogo, o aprofundamento da integração da dimensão feminina e masculina da Igreja”. Ao mesmo tempo, manifestou o desejo de que essa integração “das duas dimensões, feminina e masculina, na vida da Igreja e na vida da humanidade” seja “cada vez mais verdadeira e profunda”. É uma nomeação com carácter simbólico, mas é também “um sinal para o mundo”, que “abre uma reflexão, um diálogo, abre pistas”.
A irmã Simona referiu-se aos “caminhos de sinodalidade” que esta nomeação também confirma, e que implicam a escuta e a valorização do “contributo de cada um, de cada uma e das diferenças” e “discordâncias”, que podem “desafiar o sistema de pensamento” até agora dominante. E relacionou-o com o Jubileu que a Igreja Católica está a viver, que é também um “processo” um “movimento”, uma “peregrinação” que se faz “caminhando em direcção a algo de novo”.
Sobre o Papa Francisco, a religiosa diz que ele tem uma forte dimensão “humana” que reúne ao mesmo tempo “fortaleza e ternura”. “Precisamos de conjugar este binómio: a ternura e proximidade”, de um lado, “com a firmeza, a coragem e a fortaleza”.
Como o 7MARGENS noticiou, a irmã Simona Brambilla foi enfermeira antes de se tornar freira, e tornou-se psicóloga já depois de ter ingressado nas Missionárias da Consolata, onde desempenhou o cargo de superiora geral por dois mandatos. Mas foram os anos passados entre o povo macua, em Moçambique, que ela destaca como aqueles que a transformaram “profundamente”.
“[O trabalho em Moçambique] foi algo que transformou profundamente a minha vida, o contacto com esta cultura tão diferente da minha de proveniência e com valores, uma espiritualidade, uma filosofia, diria, que nós chamamos de biossofia, filosofia da vida extraordinária e especial.”
Nascida em 1965, em Monza (Itália), a nova prefeita do Dicastério para a Vida Consagrada fez a primeira profissão religiosa em 1991 e a profissão perpétua, em 1999. Foi nesse ano que foi para Moçambique, onde integrou a equipa que traduziu a Bíblia para a língua local macua-xirima e preparou um catecismo para crianças. É apontada como sorridente e sensível, organizada e trabalhadora, humilde e discreta. Foi nomeada para o cargo no passado dia 6 deste mês, tornando-se assim a primeira mulher a exercer um cargo que, na Cúria Romana, corresponde ao de ministro num governo.
No encontro com os jornalistas e profissionais de comunicação, a irmã Simona referiu-se aos “valores culturais, espirituais e humanos significativos e originais” que existem em Moçambique. Por isso lamentou os episódios de violência que, nos últimos três meses, têm atingido o país e que já provocaram, de acordo com várias organizações da sociedade civil, mais de 300 mortos e 600 feridos (e, segundo as mesmas fontes, mais de quatro mil pessoas detidas). É preciso, ao invés, dinamizar “um processo de reconciliação e de paz, incluindo, obviamente, todas as partes”.
Simona Brambilla esteve no mesmo encontro, sexta-feira, em que participaram o cardeal José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, e o padre jesuíta Antonio Spadaro, subsecretário do mesmo. [ver 7MARGENS]
(Foto de destaque: Irmã Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica)










