Noruega, metáfora do futuro

| 17 Jan 19

Foto © Marta Parada

 

Este país do norte da Europa que, pelos mitos do frio e do escuro, pensava só se poder escolher por necessidade ou por loucura, é agora a minha casa desde há cinco anos.

Recordo ainda assim que já o via de longe e o admirava pela sua verdadeira social-democracia e pelos baixos níveis de corrupção, que o colocavam na lista dos países mais bem governados do mundo. Era por isso referência e argumento frequente nas acesas discussões estudantis sobre a resistência à mudança das políticas sociais em Portugal.

E quis o destino que o longe se tornasse perto e, de mãos dadas e três filhos às costas, escolhemos cá viver. A Noruega, metáfora do futuro nas discussões apaixonadas sobre a utopia, é agora a minha casa.

E os mitos caem por terra, porque o frio e o escuro são, em vez de impedimento, oportunidade de adaptação e aprendizagem. E o que é fascinante é verificar como estes valores atravessam todas as esferas da vida dos noruegueses.

Há cerca de 40 anos esta terra dos vikings era muito pobre, para além de estar no fim do mundo. Montanhas e bosques sem fim, difíceis acessos e poucos recursos, a não ser os naturais. Adaptação, cooperação e partilha eram as bases da sobrevivência. Acredito profundamente que esses foram pilares que fizeram com que a descoberta do petróleo não tivesse sido uma catástrofe social. Veio, sim, mostrar como é possível que uma genuína consciência social e um profundo respeito pelo ser humano não se compadecem com actos de egocentrismo ou de corrupção.

Na Noruega que descubro a cada dia, promove-se a igualdade e procura-se eliminar o conceito de estrato social. A cooperação ensina-se desde cedo nos infantários com crianças de várias idades na mesma sala. Nas escolas não existem quadros de honra. No infantário abordam-se temas como a sexualidade e o respeito pelas diferentes orientações sexuais. Há campanhas nacionais nas escolas contra o bullying, com medidas concretas de abordagem e prevenção. As turmas são multiculturais e desde o segundo ano que as crianças têm uma disciplina que se chama “religião, filosofia e ética”, onde visitas a sinagogas e mesquitas estão incluídas no programa. O serviço social está desenvolvido no sentido de facilitar a vida aos cidadãos, e uma família com um filho portador de deficiência é suportada pelo Estado através de uma rede de serviços bem organizada. As políticas de acolhimento e integração de refugiados estão bem definidas. O sistema de saúde está muito bem organizado, com uma exemplar articulação entre os vários níveis de cuidados de saúde, é super-humanizado e, ainda que muito burocratizado e cheio de protocolos, dá respostas efectivas e em tempo útil.

Na esfera da religião, o panorama é bem diferente do de Portugal. Apesar da liberdade religiosa já estar consagrada desde 1964, só em 2017 a Igreja da Noruega (evangélica luterana) passou a ser uma entidade jurídica independente do Estado. Sendo um dos países menos religiosos da Europa, com o protestantismo como confissão predominante, o espaço de outros credos é respeitado e emergem com frequência novos movimentos religiosos cristãos com novas propostas de Igreja. Para mim, tem sido um tempo de busca e interrogação.

Já sobre a espiritualidade, começo a esboçar uma opinião bem pessoal à medida que integro a língua, essa enorme barreira cultural tão assustadora como surpreendentemente reveladora.

Nunca me esquecerei do dia em que uma boa amiga me ofereceu o livro Jer er livet (Eu sou a vida), da autora norueguesa Elisabeth Helland Larsen e da ilustradora belga Marine Schneider. Foi das experiências mais comoventes nos últimos tempos. Os miúdos brincavam no parque. Sentada num banco de jardim, folheava-o curiosa. As ilustrações eram lindas e as frases eram curtas e liam-se sem dificuldade. Sem aviso, as lágrimas começaram a cair e, naquele preciso instante, senti que, pela primeira vez, o cérebro e o coração sintonizavam nesta outra língua. Algo de novo se operava em mim. Uma nova chave para conhecer melhor este povo.

Tenho em mim que a Natureza neste país é, pela sua imponência e grandiosidade, de tão arrebatadoramente silenciosa e poderosamente comovente, o grande interlocutor na comunicação com o que alguns chamarão Deus, outros o Universo ou ainda a razão da própria existência.

Subir montanhas e deixar-se maravilhar com essa majestosa criação é uma das grandes experiências de inculturação. Subir ao cume de uma montanha pode durar poucas horas a vários dias e pernoitar em cabanas sem água e luz faz parte desse processo. Como se houvesse um desejo de comunhão com o passado para perceber o presente e o futuro. Subir montanhas e passear pelos bosques é uma experiência de grande espiritualidade. Para a maioria dos noruegueses, uma experiência de liberdade e de libertação, de limpeza do corpo e do espírito, de consciência e superação de medos e limites pessoais, de revelação. Um tempo de qualidade em família longe das tecnologias, para outros de retiro individual. Para muitos de inspiração, para outros de catarse. Para mim, tem sido sempre descoberta, deslumbramento, partilha, acção de graças, conversa com esse Deus de todos.

E quando atinges o cume sentes-te vivo.

Saboreias uma pequena refeição e matas a sede com água fresca.

Depositas o olhar noutras montanhas, metáforas de mais futuros.

E renovas-te em mais uma meta alcançada.

Porque tu és do tamanho daquilo que vês, e não do tamanho da tua altura.

Foto © Marta Parada

Marta Parada Carvalho é médica pediatra e vive em Skien, Noruega

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