[Os dias da semana]

Nos 100 anos de Edgar Morin

| 12 Jul 21

Edgar Morin encontra o Papa Francisco. Foto © Direitos Reservados

 

“Não baixem os braços”. O apelo de Edgar Morin ocupava grande parte da primeira página do diário francês Libération de quinta-feira. Nesse dia, outros jornais, não apenas franceses, deram voz a outras recomendações daquele que o jornal brasileiro O Estado de S. Paulo, no mesmo dia, classificou como “o último representante dessa espécie rara, o intelectual engajado e humanista” [1]. A celebração do centésimo aniversário do sociólogo e filósofo justificou abundante espaço – incluindo chamadas de primeira página – na imprensa que documentou uma biografia obviamente fascinante e amplificou a lúcida visão do que importa fazer.

Edgar Morin, nascido Edgar David Nahoum, traça um diagnóstico sombrio do presente: “Vivemos hoje uma formidável dinâmica científico-técnico-económico-política determinada pelo desenvolvimento descontrolado das ciências, pelo desenvolvimento descontrolado das técnicas, sob o impulso desenfreado das forças económicas e da não menos desenfreada vontade de poder dos Estados”. No extenso texto que assina no jornal Le Monde datado de quinta-feira (o diário é distribuído à hora do almoço com a data do dia seguinte) [2], o sociólogo e filósofo explica que “esta dinâmica contribui para uma enorme regressão político-social, que faz surgir um pouco por todo o planeta os chamados chefes de Estado ‘populistas’, porque demagogos, regimes neo-autoritários de fachada parlamentar, enquanto se multiplicam os meios que permitem uma sociedade de domesticação e vigilância por reconhecimento facial, controle de telecomunicações, satélites ou drones espiões – esta já é a realidade chinesa. A ‘bigbrotherização’ está em andamento”.

A pandemia de Covid-19, observa Edgar Morin, surge num momento pontuado por revoltas em todo o mundo, “todas reprimidas e algumas com extrema ferocidade”, numa “fase de perigos e transformações”. Para ele, “a doença não surge apenas da fragilidade humana (a infelicidade, a morte, o inesperado), mas também dos efeitos destruidores da ‘omnipotência científica-técnica-económica’, animada pela desmesura crescente da vontade de poder e da ânsia de lucro”. Um singular paradoxo coloca, pois, lado-a-lado a omnipotência e a omnifraqueza.

A “omnipotência científica-técnica-económica” é uma velha inimiga de Edgar Morin, que pretende que sejamos capazes de “compreender que tudo o que emancipa técnica e materialmente pode ao mesmo tempo escravizar, desde a primeira ferramenta que se tornou ao mesmo tempo uma arma, até à inteligência artificial, incluindo a máquina industrial”. O sociólogo e filósofo aconselha que “não esqueçamos que a enorme crise que vivemos é também uma crise de conhecimento (em que a informação substitui a compreensão e em que os conhecimentos isolados mutilam o conhecimento), uma crise de racionalidade fechada ou reduzida ao cálculo, uma crise de pensamento”.

Numa entrevista concedida ao Libération, que dedicou ao sociólogo e filósofo grande parte da primeira página e as quatro páginas seguintes [3], Edgar Morin sublinhou que “estamos a viver uma crise das democracias e não sabemos como ela vai terminar”. Notando que, agora, os Estados têm meios de controlo muito sofisticados, faz um aviso: “Tudo está preparado para uma sociedade de vigilância neototalitária. Tudo está também pronto para desenvolver o transumanismo. Temos, por um lado, poderes gigantescos para voar para fora da Terra e, por outro lado, miséria generalizada no mundo. Estamos a viver contradições inconcebíveis. Infelizmente, nenhuma força de pensamento e de acção se organizou para enfrentar todos estes desafios. Existe um vazio terrível de pensamento político”.

Essa vacuidade é assaz perniciosa. “A democracia sempre se fundou no confronto de ideias e não numa única ideia dominante, como é hoje a do neoliberalismo. Já não existem ideias suficientes, mesmo contraditórias, que se pudessem fecundar no conflito”.

As conversas com Edgar Morin temperam a justificada apreensão com uma experiência empolgante e um constante estímulo à acção. Nas duas páginas que o diário espanhol El Mundo de quinta-feira lhe dedicou (com chamada no topo da primeira página) [4], há uma conversa que serve para uma observação empolgante: “Se há alguma verdade na minha vida, é a verdade da poesia. Não apenas a dos poetas, mas também a da vida que se expande e nos encanta. E a poesia suprema é o amor”. A acrescentar, há “a poesia da História”, a que se revela “em momentos de liberdade, de fraternidade, de criatividade. Ah! o 26 de Agosto de 1944, a libertação de Paris, todos os sinos das igrejas a começarem a tocar… E esse violoncelo de Rostropovich que tocou Bach a 9 de Novembro de 1989, ao pé do Muro [de Berlim] caído”.

Os 100 anos de Edgar Morin tornam particularmente autorizada – e bem-vinda – a exortação para envelhecer bem, partilhada através do jornal El Mundo: “Manter a curiosidade da infância, as aspirações da adolescência, as responsabilidades da vida adulta”. Além disso, “surpreender-se e questionar o que parece óbvio, para desintoxicar a nossa mente e desenvolver um pensamento crítico”.

Não baixar os braços, portanto. Nem deixar adormecer a mente.

 

 

[1] “O centenário do pensador Edgar Morin

[2] “Dans le torrent du siècle”.

[3] “Lancez-vous dans l’aventure de la vie !”, entrevista concedida a Quentin Girard.

[4] “El primer siglo de Edgar Morina: ‘Vivimos en la incertidumbre absoluta. El futuro es totalmente oscuro”, entrevista concedida a Mauro Ceruti.

 

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