Nos 101 anos de Mário Castrim

| 31 Jul 2021

Alice, Mario e Albino Reis

Mário Castrim com Alice Vieira e o padre Albino Reis. Foto: Direitos reservados.

 

O Mário Castrim faleceu em Outubro de 2002. Se fosse vivo, faria hoje 101 anos. Foi jornalista, escritor e crítico de televisão. Foram as suas crónicas sobre o que se passava no “pequeno ecrã” de então que lhe valeram a fama – entre protagonistas e leitores – de crítico acerbo e impiedoso.

Era, na verdade, extremamente exigente com quem fazia televisão, porque receava o poder nefasto que ela podia ter sobre as pessoas. Parecia que não poupava ninguém, mas devo dizer que ouvi comunicadores televisivos habituais afirmarem que nunca os tinha criticado.

A imagem pública de pessoa amarga e implacável contrasta grandemente com a maneira tão afável, generosa e doce que transmitia no relacionamento pessoal. Digamos que essa é a outra face do Mário, ou se quisermos a sua face menos conhecida, que eu experimentei durante os cerca de seis anos que convivi com ele.

Tive o privilégio de conhecer o Mário Castrim em 1996, quando me pediram para interromper o meu trabalho missionário na África do Sul e vir trabalhar para Lisboa nas revistas mensais Além-Mar e Audácia. O Mário era colaborador da Audácia, onde assinava, havia anos, a rubrica O lugar do Televisor. Herdei a sua amizade do padre Arlindo Pinto, meu predecessor na direcção das revistas.

A maior parte das crónicas publicadas na Audácia já tinham sido reunidas em dois volumes. Foram as minhas primeiras leituras ao chegar. Depois de anos fora do país a usar outras línguas, precisava de refrescar o meu português e nada melhor do que começar com essas histórias bonitas e arrebatadoras.

O Mário escrevia-as ao correr da pena ou na máquina de escrever e fazia apenas esporádicas correcções de palavras. Dizia que lhe saíam como tinham que ficar! Colaborou com a revista enquanto viveu e nunca falhou um prazo de entrega. Fê-lo sempre pro bono – com alegria e espírito de missão. Pelo que me contou, um dia o padre Arlindo Pinto, com algum pudor, tentou perguntar-lhe sobre os pagamentos devidos. O Mário recorreu a um adocicado sarcasmo para lhe dizer que a ideia de fazer contas era boa, porque permitiria ver “quem devia a quem”. Foi a primeira e a última conversa sobre o assunto.

Curiosamente, o Mário sempre resistiu a colaborar com a revista Além-Mar. Lembro-me apenas de ele ter aceitado escrever um pequeno testemunho quando a revista completou 45 anos. Preferia escrever para os jovens, para os inspirar e fazer sonhar.

Nesses anos, a Audácia chegou a tirar mais de 60 mil cópias mensais, das quais três mil iam para Moçambique, graças a um apoio concedido pelo tio de um colega nosso italiano e ao incentivo do Governo à leitura na forma de um generoso porte pago concedido às cópias destinadas aos países lusófonos africanos. Os adolescentes devoravam a revista. Uma vez vi um completamente absorvido na sua leitura, em Maputo, na Varanda sobre o Índico. O Mário tinha a noção do alcance da revista e do bem que suscitava entre os mais novos.

À medida que o à vontade cresceu entre nós, o Mário passou a ser cada vez mais de nossa casa. Ia buscá-lo para almoçar quase semanalmente. Era uma presença enriquecedora e sempre agradável. Interessava-se pelos nossos colegas missionários e pelo seu trabalho, sobretudo em Moçambique. Perguntava sempre por eles, com muita ternura, como quem se sentia parte da nossa missão. Por vezes, usou a sua influência para que fôssemos entrevistados e falássemos da nossa missão na televisão.

O seu interesse pelas nossas experiências de vida e pela sua difusão, por vezes, fazia-me sorrir. Quando lhe contava histórias que ele considerava interessantes dizia: “Tem que escrever um livro sobre isso.” Durante as nossas conversas, quando não se lembrava de alguma coisa, sacava logo do telemóvel e chamava a mulher, a “mãezinha” Alice Vieira, a enciclopédia da casa, que tinha a resposta na ponta da língua.

Sendo um homem de esquerda, o Mário tinha amigos de todos os quadrantes políticos, como ficou claro no dia do seu enterro em 15 de Outubro de 2002. Despedimo-nos dele nesse dia, mas o Mário continua bem vivo na minha memória e gratidão – e, espero, no seio de Deus.

“Foram as suas crónicas sobre o que se passava no “pequeno ecrã” de então que lhe valeram a fama”. Foto: Mário Castrim a ver televisão. Direitos Reservados.

 

José Rebelo é padre católico na congregação dos Missionários Combonianos

 

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