Nós (alguns apontamentos sobre o Relatório)

| 19 Mar 2023

“As conclusões do relatório trouxeram-me à memória muitas das questões que têm sido levantadas no percurso sinodal, desde logo a necessidade de se repensar a estrutura de poder na Igreja – tem mesmo de ser assim, se nem sempre foi assim?” Foto © Marta Saraiva

 

Passou um mês. A leitura do relatório da Comissão Independente [para o Estudo dos Abusos Sexuais sobre Crianças na Igreja em Portugal] prossegue lenta, com a calma, a atenção e o espírito crítico que merece, e o mais em diferido possível do quente das primeiras impressões.

Do que já li, das muitas e boas conversas que foram surgindo nestas semanas, e ainda dos ecos do relatório francês publicado em outubro de 2021, vão-se desenhando ou confirmando algumas intuições. Nenhuma é nova, nenhuma é original e a maioria será partilhada por muitos de nós.

A investigação sobre os abusos sexuais de crianças devia ser apenas o início de um trabalho profundo e exaustivo sobre o fenómeno na sua totalidade: é urgente uma cartografia dos abusos, por muito dura que ela seja. Sobre o abuso de menores sabemos agora bastante; sobre o abuso sexual, psicológico e emocional de adultos e, principalmente, sobre o abuso espiritual de religiosos e de leigos não sabemos nada. Podem não envolver crianças, mas os danos estão cá e, se quisermos ser sérios e adultos, temos de ter a coragem de nos confrontar com esta realidade. Espero que o queiramos e consigamos ser.

As conclusões do relatório trouxeram-me à memória muitas das questões que têm sido levantadas no percurso sinodal, desde logo a necessidade de se repensar a estrutura de poder na Igreja – tem mesmo de ser assim, se nem sempre foi assim? –, a de os leigos reivindicarem e assumirem em pleno o lugar que lhes foi confiado pelo Concílio Vaticano II, e a de recuperar e resgatar o papel das mulheres na Igreja. A pergunta não tem resposta, mas não perde a pertinência: as conclusões teriam sido as mesmas se a Igreja se estruturasse de outra forma, se os leigos tivessem um papel mais autónomo e ocupassem lugares de decisão e a voz das mulheres tivesse outro peso?

Não por acaso, algumas reacções revelaram muitas das fragilidades da estrutura institucional da Igreja portuguesa. Sem duvidar por um instante das boas intenções dos bispos (assumir a boa-fé de terceiros é uma posição de princípio) foi impossível assistir a algumas das entrevistas e comunicações sem me perguntar se os nossos bispos e muitos dos sacerdotes conhecem verdadeiramente, “por dentro”, o país e o tempo em que vivem, e se se conseguem comunicar a esse país, e a esse tempo. Não para que a Igreja se adapte e se funde acriticamente no morno do pós-moderno e no deserto da pós-verdade, mas porque “estar no Mundo sem ser do mundo” é uma condição essencial para anunciar verdadeiramente o Evangelho. É um desafio enorme, assusta, mas é a realidade, seja em que época for.

Para além destas impressões mais pragmáticas, foi surgindo uma intuição mais de fundo. Da leitura dos testemunhos, das caracterizações apresentadas no relatório, de variadíssimas reacções (insisto nesta palavra, as respostas só virão após o choque) no seio da Igreja e não só, vou tomando consciência de uma outra ferida. Não tão profunda, nem tão escandalosa como a dos abusos, mas talvez mais instalada: a pobreza das nossas relações. De todas elas, as comunitárias, sociais, familiares, interpessoais, eclesiais… e da relação connosco próprios também. É de uma desolação atroz.

O contexto eclesial não explica tudo; longe disso. A relação dos portugueses com a autoridade roça a disfuncionalidade de tão infantil que é, e muitos dos testemunhos ecoam contextos de uma pobreza material enorme. Ainda assim, é legítimo perguntar quão superficiais, quão transaccionais ou circunstanciais, quão racionalizados serão os laços que estabelecemos nas nossas paróquias e nas nossas comunidades para que não tenha havido a confiança (e a maturidade) para se ter falado deste tema mais cedo, e para terem sido denunciados mais casos, para ficarmos anos a negar o óbvio: se aconteceu em tantos outros países, aqui também terá acontecido. Podemos contrapor todas as racionalizações que encontrarmos, que a pergunta permanece.

Há todo um trabalho de reparação a fazer, necessário, mas não suficiente. A única resposta possível a tanto sofrimento causado é uma mudança de fundo. E qualquer mudança de fundo começa obrigatoriamente com olhar a realidade de frente. O que levanta uma última hipótese: talvez a Igreja instituição não consiga ler o seu mundo e o seu tempo, porque talvez não se conheça, nem a si nem aos seus, nem aceite o que de facto é, em todo o seu esplendor e em toda a sua miséria.

Não será já, mas chegará, assim o espero, o momento de nos olharmos ao espelho – Igreja instituição e Igreja Povo de Deus – e dizermos com toda a verdade: isto somos nós. Podemos não gostar, mas é isto que somos.

E, a partir daí, é levar connosco as palavras de Daniel Faria:

“Caminha para dentro
onde gira a nora e o burro é cego
E os círculos perfeitos.
Não te há de faltar
A distância.”

Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

Há menos países a aplicar a pena de morte, mas número de execuções foi o mais elevado em quase uma década

Relatório 2023

Há menos países a aplicar a pena de morte, mas número de execuções foi o mais elevado em quase uma década novidade

A Amnistia Internacional (AI) divulgou na madrugada desta quarta-feira, 29 de maio, o seu relatório anual sobre a aplicação da pena de morte a nível mundial, que mostra que em 2023 “ocorreram 1.153 execuções, o que representa um aumento de mais de 30 por cento em relação a 2022”, sendo que “este valor não tem em conta os milhares de execuções que se crê terem sido realizados na China”. Este “foi o valor mais alto registado” pela organização “desde 2015, ano em que houve 1.634 pessoas executadas”.

Há uma “nova vaga de terror contra os cristãos” no Paquistão

Ataques sucedem-se

Há uma “nova vaga de terror contra os cristãos” no Paquistão novidade

O recente ataque a um cristão falsamente acusado de ter queimado páginas do Corão, por uma multidão muçulmana enfurecida, no Paquistão, desencadeou “uma nova vaga de terror” contra a minoria religiosa no país. Depois deste incidente, que aconteceu no passado sábado, 25 de maio, já foram registados outros dois ataques devido a alegados atos de “blasfémia” por parte de cristãos.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

A memória presente em pequenas tábuas

Museu Abade de Baçal

A memória presente em pequenas tábuas novidade

“Segundo uma Promessa” é o título da exposição inaugurada a 18 de maio no Museu Abade de Baçal, em Bragança, e composta por uma centena de pequenos ex-votos, registados em tábuas, que descrevem o autor e o recetor de vários milagres, ao longo dos séculos XVIII e XIX. “O museu tem a obrigação de divulgar e de mostrar ao público algum do património que está disperso pela diocese de Bragança-Miranda”, disse ao 7MONTES Jorge Costa, diretor do museu.

A cor do racismo

A cor do racismo novidade

O que espero de todos é que nos tornemos cada vez mais gente de bem. O que espero dos que tolamente se afirmam como “portugueses de bem” é que se deem conta do ridículo e da pobreza de espírito que ostentam. E que não se armem em cristãos, porque o Cristianismo está nas antípodas das ideias perigosas que propõem.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This