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Aspeto de um dos momentos do encontro em Guimarães, com Joaquim Fidalgo em primeiro plano. Foto © 7MARGENS.

O jornalismo e os públicos

Nós e os média – Seis apontamentos à volta de um encontro com leitores do 7MARGENS

| 07/10/2023

No dia 15 de Setembro, o 7MARGENS promoveu em Guimarães um encontro de leitores, que teve a participação de meia centena de pessoas. Como introdução ao debate, o jornalista e professor universitário Joaquim Fidalgo falou sobre o estado do jornalismo e a relação dos públicos com ele. Aqui fica o texto redigido a partir da sua intervenção. 

 

Aspeto de um dos momentos do encontro em Guimarães, com Joaquim Fidalgo em primeiro plano. Foto © 7MARGENS.

Aspeto de um dos momentos do encontro em Guimarães, com Joaquim Fidalgo em primeiro plano. Foto © 7MARGENS.

 

1 – Há muito quem defenda que a informação sobre o que se passa à nossa volta, “no país e no mundo”, é um bem de primeira necessidade, tão indispensável à nossa sobrevivência em sociedade/em comunidade como o pão, a escola, os cuidados de saúde, a cultura. Mas, se assim é, por que motivo há tão pouca gente a ler jornais, a ouvir notícias, a consumir informação? Por que motivo há tanta gente que “passa fome” neste domínio e não se dispõe a gastar um euro que seja em meios de comunicação? Por que motivo há tanta gente que passa bem sem se informar?

2 – Os jornalistas – ou, mais propriamente, os títulos e as empresas onde os jornalistas desenvolvem o seu trabalho – têm as suas culpas nesta situação. O que fazem nem sempre é interessante, nem sempre parece relevante para as nossas vidas, nem sempre aborda os assuntos que as pessoas concretas, nas suas vidas concretas, gostariam de ver apresentados e discutidos. E falam muitas vezes dos mesmos e poucas ou nenhumas vezes de muitos outros. Além disso, caem com frequência no exagero do sensacionalismo, da trilogia crime-sangue-sexo, procurando mais o que é bombástico do que o que é significativo. Há ainda aquela velha suspeita de que o que verdadeiramente move os média é o mercado, é a vontade de vender a qualquer preço, é a procura do lucro – não a vontade de informar bem as pessoas e, assim, contribuir para uma cidadania mais exigente. E para ganhar fazem o que for preciso.

3 – Até nem é caro, hoje em dia, ter acesso a meios de comunicação social, seja nos suportes tradicionais, seja sobretudo online. Nos inquéritos que se fazem sobre esta matéria, é espantosamente baixa a percentagem de gente que diz pagar por notícias (e muitos dos que não pagam também não se importam de receber, diariamente, edições em PDF de variados jornais e revistas, pirateados e difundidos num esquema que é, para todos os efeitos, um roubo…). No fundo, parece não se dar valor à informação sobre a atualidade. Parece que esses assuntos não merecem um ou dois euros do nosso bolso. E as empresas de média afundam-se em défices, pois o produto que fazem custa dinheiro a fazer, mas a pouca gente que o consome só se for de graça… e mesmo assim… 

O fecho de jornais e revistas, o encerramento de rádios, tudo o que contribui para a diminuição do pluralismo na oferta informativa é algo que devia preocupar-nos mais, em nome da liberdade de expressão e da democracia. Porque também é culpa nossa quando acontece.

4 – Ainda assim, a informação televisiva continua a ser bastante consumida. Os chamados “telejornais” são, a par das telenovelas e de jogos de futebol, presença constante na lista dos 10 programas com maior audiência no nosso país. É mais fácil ver um jornal na televisão do que o ler – seja em papel, seja no computador ou no smartphone. A informação em televisão, dadas as características do meio, acaba por ser sempre um pouco mais ligeira, um pouco mais rápida.  É duvidoso, portanto, que os elevados níveis de consumo da informação televisiva signifiquem um grande apego das pessoas às notícias “do país e do mundo”. Não é por acaso que os nossos “telejornais” de maior audiência se prolongam por quase duas horas, misturando com óbvia intencionalidade a informação com o entretenimento e as notícias a sério com os fait-divers mais as promoções turístico-gastronómicas de lifestyle, de tal modo que por vezes parece estarmos a ver uma telenovela.

 

Jornais à venda: já é claro que milhões e milhões de pessoas, sobretudo nas gerações mais jovens, não pegam hoje num jornal nem o leem online, nem ouvem rádio para além da música, nem veem televisão para além das séries da Netflix ou da HBO Foto © 69joehawkins, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

5 – Com a disseminação da Internet e a banalização do acesso às chamadas ‘redes sociais’ (que nos meios anglófonos são mais adequadamente designadas como ‘média sociais’), alterou-se radicalmente o modelo de circulação de informação no espaço público. E é curioso que continuemos a concentrar o melhor da nossa atenção nos média tradicionais, quando já é claro que milhões e milhões de pessoas, sobretudo nas gerações mais jovens, não pegam hoje num jornal nem o leem online, nem ouvem rádio para além da música, nem veem televisão para além das séries da Netflix ou da HBO. E a tendência vai intensificar-se com certeza. Olha-se para as redes sociais como a origem de todos os males, o “cano de esgoto”, o território do insulto anónimo e da obscenidade soez, o espaço por excelência da desinformação e dos trolls, e pronto, fica o assunto arrumado. Mas não. As redes sociais têm de tudo isto (que reclama com urgência algum esforço de regulação), mas não têm só disto. É por lá que hoje em dia circula também muita da melhor informação, da melhor opinião, do melhor comentário, da melhor análise. É por lá que muita gente tem, hoje, a voz que nunca teve nos média tradicionais. É por lá que, hoje, comunicamos uns com os outros a uma escala nunca imaginada. É inclusive por lá que cada vez mais os próprios média tradicionais procuram novos caminhos de difusão daquilo que produzem. Através do Facebook, do Instagram, do Twitter, do Youtube, do TikTok, chegamos, se quisermos e soubermos escolher, a uma infinidade de coisas boas de informação. E a uma infinidade de gente boa com quem comunicar.

6 – Se a informação é um bem público de primeira necessidade, não deveria ser defendida e apoiada materialmente por quem gere os bens públicos? Ou seja, o Estado? O Estado procura suprir, e muito bem, as nossas necessidades básicas: em saúde, em educação, em transportes, em cultura. E em jornalismo? Deixamos que sejam as empresas privadas a tratar disso, mesmo sabendo que a lógica delas é outra? E, sobretudo, sabendo que, dada a natureza do produto, um meio de comunicação social de qualidade não consegue sobreviver economicamente, como mostram os exemplos de acumulação de défices que temos à nossa volta? Diz-se que o Estado não deve apoiar financeiramente os média, porque assim eles perdem a independência. Não é necessariamente verdade, como se vê em muitos países europeus, cujos Estados gastam milhões e milhões para garantir que dispõem de bons meios de comunicação. Tudo depende dos critérios com que se dão os apoios e dos modos de os fiscalizar. Mas o que está a acontecer é que, para não ficarem dependentes do Estado (do poder político), os jornais estão a ficar cada vez mais dependentes do poder económico: dada a baixa de receitas em publicidade (quase toda ‘roubada’ pelas plataformas tecnológicas) e em vendas (porque pouca gente os compra), aceitam cada vez mais compromissos comerciais que pervertem a informação produzida, transformando em “notícias” aquilo que, em boa verdade, são anúncios pagos por quem se quer promover. O que vemos, ouvimos e lemos nos média é muitas vezes resultado de arranjos comerciais de compra-e-venda, e não resultado da aplicação de critérios jornalísticos para decidir o que noticiar ou não noticiar.

 

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