Nós, os vencidos do catolicismo

| 18 Fev 2023

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»
Ruy Belo, Nós os vencidos do catolicismo 

 

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

Infância. Abusos. Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons.

 

Roubo o título para este texto ao poema de Ruy Belo e a um livro de memórias de João Bénard da Costa, que nos tumultuosos anos 1960, num país mergulhado numa guerra injusta e obscena e amarrado a uma ditadura podre e miserável, perderam a fé (Ruy Belo) ou apenas a esperança (Bénard da Costa), vencidos por uma Igreja velha, autoritária e que ia de mãos dadas com o mais obscuro e imoral regime, o Estado Novo. Deixaram de lutar, perderam-se na luta da fé. Talvez como eu, sim, nestes tempos mais recentes, que me sinto soçobrar nesta incredulidade que toma conta de todos, uma revolta que se instala.

Nas últimas décadas, íamos ouvindo com crescente apreensão os relatos, os números e as denúncias de casos de abusos sexuais na Igreja, vindas de outras partes do mundo, na Irlanda e nos Estados Unidos, na Austrália e no Chile, em França e Espanha, na Itália e na Alemanha. Era lá longe, acreditávamos que haveria uma qualquer exceção portuguesa. Não havia, nem nunca houve – e tivemos alguns alertas num passado recente, como o caso do padre Frederico na Madeira, no qual o bispo do Funchal de então não teve qualquer pudor em comparar a prisão do seu secretário pessoal à prisão e morte de Jesus Cristo. Outro tipo de ocultação, numa clara manifestação de um autoritarismo clerical.

Os casos lá fora destaparam uma realidade ignóbil, absolutamente oposta ao Evangelho. A defesa da vida que tantos bispos, padres e leigos gostam de bater no peito, batia de frente com a maior afronta à vida. A comunicação social avançou com investigações que forçaram aquilo que muitos bispos não queriam assumir, mantendo um discurso (por vezes patético, como algumas das declarações do bispo do Porto, Manuel Linda, por exemplo) de excecionalidade.

A necessidade de varrer a história, as sacristias, os confessionários, perscrutar abusos, romper com um ciclo imoral, encontrou eco na corajosa decisão (e honra seja feita ao homem que a impôs, o bispo José Ornelas) de constituir a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, que produziu agora um relatório demolidor: 4815 crianças foram identificadas como vítimas de abusos na Igreja entre 1950 e 2022, e este é o número mínimo. Terão sido muitas mais.

O que sobra desta montanha de escombros é a necessidade profunda de rever esta Igreja (ia a escrever que somos, mas sinto-me vencido, como aqueles católicos dos anos 60). A Comissão Independente deixa importantes propostas para o futuro, para a Igreja e para a justiça. Eu prefiro insistir no óbvio, na necessidade de recuperar uma pequena centelha na credibilidade de uma comunidade que me acompanha desde sempre. Para não me sentir um vencido para toda a vida.

A revisão da formação nos seminários é um dos caminhos apontados, mas esta é, por si só, curta e inconsequente. Nunca será suficiente retirá-los da redoma em que vivem e na qual crescem. A sexualidade tem, de uma vez por todas, de ser vivida de forma totalmente diferente, aberta, sem condicionantes nem celibatos, sem pecado e sem estigma. Pecado e estigma é tudo isto que agora nos foi apresentado. E a moral sexual que o Magistério nos tenta impingir há décadas está não só ultrapassada pela prática da grande maioria dos católicos (graças a Deus), como permanece fechada num armário de perversão, omissão e pecado, sem qualquer ligação à vida concreta das pessoas, à responsabilidade individual de cada um dos indivíduos, homens, mulheres, jovens, crianças, em que a igualdade de género e a forma como se vive a sexualidade é motivo de acolhimento e partilha, nunca de exclusão.

Há já 30 anos, em setembro de 1993, um grupo de mais de uma centena de jovens católicos estudantes criticou substantivamente a doutrina da Igreja no campo da moral sexual. Ali não se falava desta dimensão tenebrosa que nos atinge por estes dias, mas antecipava-se o óbvio em matéria de sexualidade, do corpo e do desejo. “A inoperacionalidade [do] discurso oficial da Igreja [sobre moral sexual] advém da sua desarticulação com o real e, portanto, da sua inaplicabilidade. Resulta daqui a sua ausência de credibilidade tanto junto da comunidade cristã como perante a sociedade em geral. Mais ainda, entendemos que a utilização deste tipo de discurso, que tira partido das inseguranças e fragilidades das pessoas na sua vivência da sexualidade ao insistir em prescrições particulares, é uma manifestação de vontade de poder profundamente imoral.” Confrontámo-nos sempre “com um discurso sabre aspetos particulares e questões pontuais, com pretensões de universalidade, perenidade e de quase infalibilidade, dificultando o acesso aos valores e princípios que diz pretender afirmar”. 

Hoje, confrontados que somos com esta “ponta do icebergue” (quase cinco mil crianças, em 70 anos, o número mínimo), gostávamos de ouvir mais do que um mero pedido de perdão. Lembrando que a formação de padres e religiosos se faz numa idade crucial para o crescimento pessoal, para a formação individual de cada um, impor a castração de uma vida sexual, plena e adulta, com um celibato forçado e artificial é perigoso. Já sei que há quem diga que não é o celibato que leva ao abuso de menores, mas viver um celibato imposto em idades centrais do desenvolvimento social e pessoal é distorcer essa vida, é introduzir uma anomalia e uma não-experiência que também ajuda à disfunção. Acabar com o celibato obrigatório é apenas um caminho, mas é necessário.

Ressalva importante: há muitos que experimentam e vivem um celibato consciente e sério, sendo assumido de forma muito válida para quem o deseja de coração.

As disfuncionalidades que encontramos na forma como se vive a sexualidade também se podem esconder por detrás do celibato, não sendo devidamente escrutinadas no tempo de formação. Uma vida celibatária – cujas implicações nem sempre são conscientes para o próprio – não pode ser validada, simplesmente, porque a pessoa está disponível para não ter relações sexuais e há uma superficialidade com que muitas vezes estes temas são tratados na formação. E, neste campo, o facto de tanto ser pecado e proibido, não ajuda a afrontar com claridade estas questões.

Outras estruturas de poder, como as das igrejas protestantes e evangélicas, não são minadas por tamanhos sismos. Dizem os números (e a ele se agarram muitos que protegem o celibato) que 80% dos casos de pedofilia e abuso de menores acontecem na família ou por próximos da família. Aqui podemos associar uma ideia que é muito cara à própria Igreja – a de comunidade, uma família ampla – onde as coisas se vivem em partilha, onde a autoridade clerical e eclesial (para incluir também professores de religião e moral, catequistas, chefes de escuteiros, etc.) se mantém muitas vezes intocável, apesar do Vaticano II, onde nos disseram que o bispo era tanto como o leigo.

A dimensão desta tragédia explica-se ainda por uma cultura instalada de poder autoritário, em que a impunidade se instalou de forma obscena, uma expressão abjeta em que o padre é visto como a voz de deus – de um Deus que não é o dos cristãos. Esta autoridade insana é também terreno fértil para semear uma sexualidade pervertida.

Ouvir os testemunhos das vítimas não pode significar apenas uma comoção passageira, uma raiva servida em hora de telejornal. As pessoas que foram atormentadas por este pecado tremendo merecem mais. Merecem que a Igreja reformule a sua teoria e prática da sexualidade e do corpo, em que um certo discurso de defesa da vida se restringe apenas a uma motivação ideológica e partidária, sem cuidar que estas vidas destruídas o foram em nome de uma autoridade que desfez a comunidade que nos ensinaram que éramos.
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»


Miguel Marujo foi jornalista e é assessor de comunicação. Este texto contou com a leitura atenta e crítica de
fr. Carlos Maria Antunes, José Manuel Pureza e Nuno Alves. 

 

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