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Nos passos de Francisco e António: até às profundidades inexploradas de si mesmo

| 07/07/2021

Nos passos de São Francisco de Assis (e, por vezes, também de Santo António), um grupo de 20 pessoas oriundas de Pádua saíram do santuário do Monte Alverne, onde Francisco, segundo a tradição, teria recebido os estigmas. Após dez dias de caminho e um percurso de cerca de 210 quilómetros, subindo montanhas e descendo a vales, o grupo alcançou a cidade de Assis. A jornalista italiana Laura Pisanello faz aqui, para o 7MARGENS, o relato dessa experiência. Para ver as legendas das fotografias, basta clicar sobre as mesmas. 

Saindo da província de Pádua, partimos de La Verna (Monte Alverne) com destino a Assis. Dois lugares significativos para São Francisco que deve ter percorrido várias vezes estes caminhos entre a Toscânia e a Úmbria. Certamente depois de receber os estigmas em La Verna, onde hoje existe um mosteiro franciscano no bosque amarelado por giestas em flor. Na igreja há belos azulejos majólica, de Andrea Della Robbia, mas o verdadeiro centro da nossa história está mais abaixo, entre as rochas. Foi por aqui que Francisco passou.

E assim, seguindo um pouco nas suas pegadas, equipados com mochilas com roupa e os alimentos essenciais, fizemos dez dias de caminhada. Passos leves sob o calor ensolarado do Verão. Dez etapas: La Verna, Pieve Santo Stefano, Passo di Viamaggio, San Sepolcro, Citerna, Città di Castello, Pietralunga, Gubbio, San Pietro em Vigneto, Valfrabbrica, Assis. Algumas das etapas tinham mais de 30 quilómetros de comprimento, outras eram mais curtas, mas com subidas e descidas contínuas nas colinas.

Porque é que cada vez mais pessoas seguem os passos de S. Francisco, Santo António, S. Tiago, S. Bento? Também este ano, com cautela, os peregrinos voltaram a percorrer os caminhos. A estrada ensina-nos a libertar-nos do supérfluo, a superar os medos, a estar em contacto com a natureza, quilómetros e quilómetros apenas com o som das cigarras, com as borboletas, com as árvores. O caminho leva às profundidades inexploradas de si mesmo.

O peregrino não é um desportista em busca de registos, é antes um solitário em busca de si mesmo ou em busca da partilha de uma viagem com amigos. No caminho, pode acontecer ouvir a voz de Deus no vento ou nos sinos que soam ao meio-dia à chegada a Assis, vindos de baixo, do bosque de São Francisco, um património do FAI (Fondo Ambiente Italiano).

De La Verna a Assis, a rota é toda feita de cansativas subidas e suaves descidas, entre bosques e colinas, encontrando cidades importantes como Sansepolcro, de Piero Della Francesca, extraordinário pintor; Città di Castello; Gubbio, uma jóia da arquitectura medieval famosa pela corrida das velas em meados de Maio; Assis, a bela, que tem em cada pedra o traço do Poverello mais famoso do mundo.

Mas o verdadeiro sabor da viagem é dado pelos eremitérios: Cerbaiolo, por onde Santo António também passou, quando desembarcou em Itália, vindo de Lisboa, subindo toda a península para se encontrar com São Francisco em Maio de 1221, há exactamente 800 anos, no Capítulo das Esteiras; a ermida de Montecasale, onde Santo António parou; a ermida de Buon Riposo, por onde Francisco passou e que também acolheu refugiados durante a Segunda Guerra Mundial. A ermida de San Pietro em Vigneto onde os Hospitaleiros lavam os pés dos peregrinos.

Pés frequentemente destruídos pela fadiga porque já não estão habituados a andar centenas de quilómetros como São Francisco e Santo António; este último tanto caminhou que mudou a estrutura óssea dos seus pés.

Para nós, peregrinos do ano 2000, a viagem termina numa ou poucas dezenas de dias. Voltamos depois para casa com muitas inspirações e talvez com um desejo de começar de novo. Por outro caminho.

 

Laura Pisanello é jornalista e trabalha na redacção da revista Messagero di Sant’Antonio.

 

Para saber mais:
Bettin. Giulietti, Ceccarelli, Checcarelli, La via di Francesco da La Verna e da Roma verso Assisi –  450 Km tra Umbria e Lazio, Terre di Mezzo editore

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