Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

| 23 Out 2021

A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

Saúde. Lares

Saúde e Lares. Cartoon de Tiago Albuquerque na exposição Memória e Esperança.

 

O momento mais triste num funeral, para mim, é quando se atiram uns punhados de terra para cima do caixão, já no fundo da cova onde repousará “para sempre”. Depois desse momento todos se vão embora “para sempre”. É ali que começa a perder-se a memória daquela vida que, na maioria dos casos, acabará por se evaporar “para sempre”. Para a maioria das pessoas que vão a um funeral aquele momento conclui aquele trajecto de vida e, provavelmente, apenas uma ou outra memória fugaz e rara, cada vez mais fugaz e rara, virá a emergir de forma mais ou menos inesperada e distante. Aquele momento final de um funeral representa, para mim, a despedida final de uma vida inteira, riquíssima, de um património incalculável, e a consciência de que todos, incluindo eu próprio, iniciaremos ali um percurso mais ou menos abrupto para o esquecimento da nossa existência.

De facto, um familiar fez recentemente uma pesquisa genealógica sobre a nossa família, tendo-se verificado que há casos onde pouco ou nada sabemos sobre os avós, e noutros consegue-se chegar a um ou outro nome entre os bisavós ou trisavós, mas pouco mais do que o nome. Ninguém no círculo familiar se lembra de quem eram, como foram as suas vidas, e de como as concluíram. Afinal, somos nós o que “resta” dessas pessoas. E no meio das nossas múltiplas ocupações, preocupações e distracções, se não formos nós a procurar recuperar e valorizar esse património mais ou menos perdido, quem o fará? E, porque o faríamos, porque nos daríamos a essa pena? Quem ganharia com isso? Certamente não quem já teve os tais punhados de terra atirados ao seu caixão…

Há culturas onde estas perguntas parecem ser menos necessárias, pois a recordação dos antepassados não só é prática comum, como até chega a ser prática central nas vidas das pessoas, das famílias, das sociedades. Por aí poderemos obter parte das respostas e da motivação para tornarmos a memória uma prática e um valor na nossa própria existência breve, caduca, finita. Sabemos que temos prazo de validade mas, porque não o conhecemos, acabamos por não pensar nele. Vivemos como se não houvesse esse amanhã. A memória dos nossos antepassados pode, pois, em primeiro lugar, ajudar-nos a valorizar a nossa própria existência, os nossos dias finitos, relembrando-nos dessa finitude; mas também dessa ponte que fazemos/ somos entre os que nos precederam e os que nos sucederão. Somos parte de um rio longo e contínuo, seja geneticamente, seja culturalmente, e esse rio tem um valor inestimável…

No final do dia, no final da vida, a memória é o que acrescenta significado e futuro à nossa existência humana. Nós somos porque eles foram, e nós seremos nos que vierem a ser. Está nas nossas mãos não nos deixarmos perder na voracidade da sucessão dos minutos, horas, dias e anos, antes aprendendo a ver o tempo como algo infinitamente mais rico e valioso, mais fértil e mais grávido, mais merecedor de uma mudança de olhar, de ritmos, de propósitos, de intenções, de…

Sou leitor assíduo da Bíblia há mais de 40 anos. Entre muitas outras coisas aqueles textos milenares relembram-me do Ontem, dão-me perspectiva ao Hoje, abrem-me possibilidades no Amanhã. Ali encontramos uma profusão de referências à identidade de um indivíduo no contexto dos seus antepassados: “fulano, filho de, filho de, filho de…”. É uma forma de apontar para um valor acrescentado à existência de cada um de nós, um valor que urge calcular, reter, multiplicar – ou “dividir”, assim multiplicando. Além disso, revisitar as vidas – o património – de muitas das pessoas que povoam as histórias bíblicas, vividas em locais e circunstâncias tão diferentes, há séculos e séculos, tem-me ajudado a perceber que não foram em vão, como as nossas não serão, e que as lições que tiramos da nossa existência têm um valor que não se esgota nela.

Imagino-nos a todos, os que nos precederam, os que partilham do mesmo turno que nós e aqueles a quem daremos origem vistos não numa linha horizontal, contínua, longa, impossível de perceber o seu início e final, onde não passamos de meros e diluídos pontos nessa linha; imagino-nos a todos numa linha vertical, todos juntos, como estando nos ombros uns dos outros, num mesmo instantâneo, com uma única pegada… e gosto do que vejo, gosto de me ver ali, gosto de ver ali aqueles a quem já dei o meu punhado de terra e aqueles que me trarão o seu punhado. Afinal, está nas nossas mãos que nada – ninguém – se perca, e cada um nos transforme.

 

Alfredo Abreu é presidente do Serve the City International e Serve the City Portugal, rede de voluntariado que se disponibiliza para ir ao encontro de pessoas e territórios em situações de carência e vulnerabilidade (sem-abrigo, idosos isolados, refugiados e imigrantes, crianças e jovens em risco, bairros “prioritários”, etc.) com uma proposta de encontro e disponibilidade para acompanhar a mudança.

 

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