Uma publicação irónica de um humorista, um antigo projeto de lei arquivado há quase duas décadas e uma campanha presidencial à beira do primeiro turno levaram Nossa Senhora Aparecida ao centro da disputa eleitoral brasileira. O episódio, que inicialmente poderia parecer caricato, já provocou decisões judiciais contraditórias, envolveu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e fez emergir uma nova tensão entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A origem da polémica está numa publicação do humorista Antonio Tabet na rede social X. Acompanhando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, Tabet escreveu que a “família miliciana” odiava tanto “mulher preta” que tinha decidido “atacar” a santa. A publicação, de evidente tom satírico, foi rapidamente retirada de contexto e começou a ser utilizada para alimentar a alegação de que Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-Presidente Jair Bolsonaro e atual candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência, pretendia retirar o título de padroeira do Brasil a Nossa Senhora Aparecida.
A alegação era falsa e Flávio Bolsonaro, que negou desde o início qualquer intenção nesse sentido, levou o caso à Justiça Eleitoral. Segundo a Agência Pública, citada pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), a narrativa acabou por ser associada a um projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, pastor evangélico, que propunha alterar a designação relacionada com o feriado de 12 de outubro. O projeto, que pretendia substituir “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, foi arquivado em 2008 e não tem qualquer relação com Flávio Bolsonaro.
O episódio, porém, rapidamente deixou de ser apenas uma discussão sobre a origem de uma informação falsa. A monitorização do Instituto Democracia em Xeque, igualmente citado pelo IHU, contabilizou 1,3 milhões de publicações e 12,4 milhões de interações sobre Nossa Senhora Aparecida entre 23 e 27 de setembro. E, segundo o mesmo levantamento, 83% das conversas analisadas diziam respeito a temas como liberdade religiosa, judicialização, defesa da padroeira e disputa cultural, enquanto apenas 17% mencionavam diretamente a acusação que estivera na origem da controvérsia.
Uma disputa que chegou ao Supremo

A publicação de Flávio Bolsonaro na sua conta de Instagram sobre a polémica.
A dimensão judicial do caso agravou-se quando André Mendonça, ministro do STF e vice-presidente do TSE, determinou a retirada da publicação de Tabet e de outras publicações semelhantes das redes sociais. A decisão abrangia plataformas como X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube e previa sanções em caso de incumprimento.
Dias depois, o ministro Flávio Dino, do STF, suspendeu as decisões de Mendonça e autorizou novamente a publicação do post. Dino considerou que a medida anterior poderia conduzir a uma “censura em massa”, sobretudo porque atingia milhares de publicações e também pessoas que defendiam Nossa Senhora Aparecida. O ministro sustentou ainda que a liberdade religiosa e a liberdade de expressão estavam diretamente envolvidas no caso e pediu que a questão fosse apreciada pelo plenário do Supremo.
A disputa não ficou confinada aos tribunais. A defesa de Flávio Bolsonaro pediu entretanto ao ministro Luiz Fux que suspendesse a decisão de Dino, argumentando que o combate à desinformação eleitoral compete ao TSE. O episódio tornou-se, assim, também uma disputa sobre os limites das competências dos dois tribunais superiores.
É neste contexto que a questão religiosa se cruza com uma crise institucional mais ampla. Porque se tanto Nunes Marques como Mendonça foram indicados para o STF por Jair Bolsonaro, já Flávio Dino foi indicado por Lula. E as decisões divergentes sobre o caso de Nossa Senhora Aparecida contribuíram para tornar visíveis as tensões entre ministros das duas cortes.
Bispos rejeitam acusações
A polémica acabou também por envolver diretamente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com Flávio Bolsonaro a acusar pessoas “de dentro” da entidade de estarem por trás da circulação do boato e de colaborarem com o Partido dos Trabalhadores (PT). A Conferência rejeitou a acusação.
Numa nota divulgada a 27 de setembro, a CNBB afirmou que “não produziu, autorizou ou participou” na elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas com o processo eleitoral e acrescentou que não integra qualquer estrutura político-partidária ou candidatura. “A mentira não se combate com outra mentira”, concluiu a entidade.
A própria CNBB tinha, poucas semanas antes, confiado o Brasil à proteção de Nossa Senhora Aparecida numa mensagem para o 7 de setembro, apelando simultaneamente ao exercício consciente do voto e ao respeito pela liberdade de consciência.
Do outro lado da disputa, Lula aproveitou a controvérsia para reafirmar a liberdade religiosa. Num comício em Belém, recebeu uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré e afirmou que “as pessoas precisam de aprender a respeitar todas as religiões”. Depois, numa publicação nas redes sociais, declarou respeitar a fé católica, evangélica, de matriz africana e outras religiões, sublinhando que cada pessoa tem direito a professar a sua fé.
O episódio não é inteiramente novo. Segundo o IHU, uma alegação semelhante — a de que Jair Bolsonaro poderia retirar Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira do Brasil — já tinha circulado durante as eleições de 2022. O instituto cita ainda um levantamento segundo o qual os ataques à imagem da santa têm sido acompanhados pela Igreja Católica há vários anos, num contexto mais amplo de aumento da intolerância religiosa, que atinge também comunidades afro-brasileiras e judaicas.
E, na própria Basílica, a polémica foi outra

A Basílica de Aparecida acaba de inaugurar a quarta e última fachada de um conjunto de quatro grandes mosaicos realizados pelo Centro Aletti, fundado pelo padre Marko Rupnik. Foto © Santuário Nacional de Aparecida
A centralidade de Nossa Senhora Aparecida na campanha eleitoral acontece poucas semanas depois de outro episódio envolvendo o principal santuário mariano do Brasil, embora sem a mesma repercussão pública.
A 12 de setembro, a Basílica de Aparecida inaugurou a quarta e última fachada de um conjunto de quatro grandes mosaicos realizados pelo Centro Aletti, fundado pelo padre Marko Rupnik, ex-jesuíta esloveno acusado por várias mulheres de abusos sexuais, psicológicos e espirituais ao longo de décadas. A inauguração, segundo o jornalista Eduardo Campos Lima, do jornal Crux, aconteceu com relativamente pouca controvérsia, apesar da dimensão internacional das acusações contra Rupnik, e de ainda muito recentemente o bispo de Lourdes ter decidido cobrir na totalidade os mosaicos do mesmo autor que decoram o santuário mariano em França [ver 7MARGENS].
O trabalho na última das quatro fachadas do santuário brasileiro começou em 2025. São quase 4 mil m² de mosaicos concebidos e executados por 39 artistas ligados ao Centro Aletti, em cujo site Rupnik continua a ser apresentado como diretor do Atelier de Arte Espiritual desde 1995 e responsável pelo Ateliê de Teologia desde 2008.
A coincidência é significativa enquanto retrato de dois modos muito diferentes de mobilização em torno do mesmo santuário: enquanto a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tornou, nas últimas semanas, um poderoso símbolo da disputa política e religiosa nas redes sociais, a controvérsia internacional em torno da autoria dos mosaicos da própria Basílica teve uma presença pública bastante mais discreta no Brasil.
A campanha eleitoral brasileira, entretanto, entra na reta final com Nossa Senhora Aparecida transformada num dos símbolos mais disputados do debate sobre religião, liberdade de expressão e identidade nacional.










