Nossa Senhora da Boa-Morte

| 6 Fev 20

Pelos 13 anos, frequentava a Escola Apostólica da Província Portuguesa da Companhia de Jesus. E a minha avó materna, confiante no meu futuro sagrado, escreveu-me um dia: “Não te esqueças de pedir a Deus que me dê uma boa morte.” Levei o pedido a sério e logo respondi: “…e não me esquecerei de rezar para que tenha uma boa morte.” A reacção imediata da família quase dava cabo da minha incipiente vida sagrada. Aprendi que todos queremos “morrer bem”, mas que ninguém quer morrer. Mas como seria possível ter boa morte se não morrermos?

Muitos anos mais tarde, descobri que “boa-morte” é a tradução literal e exacta de “eu-tanásia”. E mais: existe uma Santa Atanásia (=imortal) mas não conheço nenhuma Santa Eutanásia e muito menos Santa Tanásia (ou Santa Morte, que pelos vistos já não será tão bom…). Reza a tradição, isso sim, que a “boa morte” de Nossa Senhora foi notável: rodeada pelos devotos, pelos Apóstolos e pelos Anjos, que a levam para o céu sob a autoridade do seu filho Jesus (lendas antigas e pinturas clássicas). É a célebre, linda e significativamente chamada Dormição de Nossa Senhora. Nada disto, aliás, está em questão: só pode haver registos do que se passa neste mundo. A eutanásia, portanto, só pode ser discutida como coisa que é deste mundo – com vasto leque de sentimentos positivos e negativos, implicações de ordem económico-política, religiosas… – e tudo isto formando um denso “nevoeiro ético”.

Em muitos trabalhos sobre este tema, reparo que até autores atentos ao nevoeiro acabam por lamentar a ausência de legislação: assim se poria termo a indecisões e disputas bem duras, além de promover um ambiente de pacificação interior e de genuíno apoio médico-social e familiar.

Porém, até a este nível cientificamente independente vem à tona a utopia da acção perfeita. Nada mais contra a característica essencial do ser humano: desejo permanente de segurança = condição permanente de insegurança. Não são apenas as crianças que fecham os olhos para se entregarem às mãos seguras da pessoa em quem mais confiam.

Então, por que não havemos de confiar nas mãos do médico? Ou no amor da família e amigos? Ou na sabedoria de sacerdotes e doutores acreditados?

Na verdade, todos estes são atacados se algo parece correr mal. A acusação é usada até para tirar proveito financeiro. Muito pior ainda: há razões muito graves para não confiar. Devido à triste e longa lista de médicos, sacerdotes, parentes chegados… incompetentes, falsos e potenciais homicidas.

Volto a repetir o que já escrevi várias vezes: um caso extremo é aquele que está para além da normalidade, isto é, fora da zona razoavelmente conhecida para se agir em segurança. Morte, aborto e o próprio divórcio são frequentemente casos extremos. É ridículo pacificar a nossa mente e justificar as acções porque seguimos uma lei. Como aqueles crentes que se abraçam à fé, a alguém ou a um objecto religioso, como se assim agarradinhos fossem de boleia para o céu.

Dá-se boa morte quando todos nós, a morrer ou mais atrás na fila, pomos em primeiro lugar as relações humanas fundamentadas no querer-bem; quando gerimos a morte com a mesma economia caseira de cada dia. Quem está a morrer deve sentir-se amado, vendo como a sua vida é valorizada até ao fim e muito para além desse fim: como elo insubstituível, com seus defeitos e qualidades, na incomensurável corrente da vida – fruto do passado e semente do futuro.

Se essa visão for normal na vida relacional, estaremos mais confortados e seguros na hora difícil. E exercitamos o pensamento em vez de preguiçosamente o substituir por regras que tratam o ser humano como uma coisa. “A vida é uma luta”, diziam os antigos (e hoje não?). Lutamos por dinheiro e poder – e não haveria mal nenhum se lutássemos para que o poder e riqueza estejam ao serviço de maior confiança e justiça. Assim criaremos condições para afinar o sentido ético e favorecer o progresso moral e científico. Precisamos de nos sentir amados e respeitados, em qualquer idade e situação. A eutanásia prepara-se ao longo da vida: aprendemos a “com-morrer” no nosso modo de viver e “com-viver”.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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