Nossa Senhora da Boa Viagem em duas rodas, rogai por nós!

| 17 Ago 2022

Uma bicicleta parada em frente a azulejos. Foto © Ana Vasquez

Uma bicicleta para ajudar a limpar o planeta. Foto © Ana Vasquez

 

Gosto de trabalhar em Agosto. Também gosto de guardar uns dias das minhas férias para viver na cidade que habito. Agrada-me tecer rotina longe das rotinas, quando todes constroem a sua casa longe de casa. Sempre gostei, mas este ano tem um sabor especial: marca o mês em que a rotina se volta a fazer de cabelos ao vento, na minha bicicleta, depois de uns anos sem pedalar.

Tenho uma lesão que me impede de andar numa bicicleta normal. Quando a mobilidade elétrica ciclável se tornou um pouco mais acessível (infelizmente, ainda demasiado longe de estar democratizada) fiz o possível para aderir. São várias as razões, umas mais altruístas, outras mais hedonistas mas todas válidas, na minha opinião. A saber: a poupança em gasolina, a diminuição da pegada ecológica, deixar de fazer parte da banda desafinada e ensurdecedora de bólides que desfilam pela cidade, a sensação de liberdade, o tempo que ganho para pensar, ser parte ativa de uma cultura urbana mais saudável, em que as pessoas voltam a tomar conta do espaço público em todas as suas dimensões… Capacita-me sentir que todos os dias faço uma coisa que alivia a carga do planeta, que vivo alinhada com esta ideia de que ele é a nossa casa comum e todos merecem um quarto que receba sol.

Uma das coisas em que penso muito nos meus caminhos é: o que é que ainda faz do carro algo tão atraente (e/ou necessário) para tantas pessoas nas cidades? Que força é essa que faz com que quem manda, quem planeia, quem licencia, quem estrutura, continue a fazê-lo a caminho do passado e não do futuro? Com a cabeça em tudo menos naquele que devia ser o centro da vida na cidade: as pessoas que lá moram e/ou trabalham. A este respeito, é interessante a entrevista, recentemente republicada pelo Fumaça (é de 2018 mas mantém-se muitíssimo atual e relevante), em que David Vale, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e especialista em mobilidade e planeamento urbano, fala da dependência do automóvel, da distribuição do espaço público, da centralidade do transporte privado no planeamento e de como isto é uma perversão e mais um ponto de exclusão de tanta gente que não tem acesso a um meio de transporte que está longe de ser universal. Vale a pena ouvir!

A minha bicicleta chega com facilidade aos 30/35 km/h, uma velocidade perfeitamente aceitável para circular nas ruas onde passo, sempre no centro da cidade, maioritariamente em zonas habitacionais. Pois todos os dias recebo buzinadelas de malta de “cu tremido” (perdoem-me o calão, mas na minha terra já é uma expressão popular…) ao volante do seu veículo consumidor de combustíveis fósseis, que para me ultrapassar comete atrocidades que fariam qualquer máquina de exames de código entrar em curto-circuito. “Perdoa-lhes, Pai, pois não sabem o que perdem…” é o que penso sempre que param uns metros à frente no trânsito e os ultrapasso, formosa e segura, com um aceno piedoso. Já por duas vezes estive para ser atropelada por condutores que passaram o sinal vermelho a alta velocidade (numa delas ainda “apanhei” por cima – o dono do carro de trás ficou muito ofendido com a travagem brusca que tive que fazer para não ser vaporizada em plena Avenida da Boavista). E tive a oportunidade de ser abalroada por um carro a parar em segunda fila, em cima da anedótica ciclovia que fazemos de conta que atravessa o Porto.

Julgo que há, sobretudo em algumas camadas mais privilegiadas da nossa sociedade, uma espécie de subentendimento à volta da ideia de que somos hoje melhores exemplares de seres humanos do que as anteriores “fornadas”. Mais evoluídos, mais eficientes, mais ricos, mais rápidos, mais expeditos, mais capazes… Se pensarmos bem, a persistente e revoltante primazia do automóvel, que, se olharmos às políticas públicas atuais, parece continuar a ser premiada, é manifestação do contrário, precisamente.

Temos feito, enquanto comunidade, um caminho individualizante. A palavra coletivo parece estar a ser estrategicamente empurrada para o campo do ideológico, como se a coletivização não fosse uma questão básica de sobrevivência: no planeamento urbano, no combate às alterações climáticas, nas questões laborais, nas lutas de género…

Há uns tempos uns amigos dos meus Pais com quem gosto bastante de conversar diziam temer que eu estivesse a ser demasiado radical… Eu diria que radical é morrer de calor, sem água potável, a boiar no Mediterrâneo, numa prisão ou num campo de refugiados numa qualquer fronteira na Europa, viver entre escombros em Gaza, ser uma pessoa LGBTI+ e viver uma vida de discriminação e violência, ser mulher (ponto)…

Radical é, acreditem, sair de casa de bicicleta para fazer a vida de todos os dias. É por isto que cada chegada a casa com vida é capital de invencibilidade que acumulo; cada pedalada, um ato de resistência contra as gasolineiras, os mercados e o capitalismo que mata. Cada madeixa ao vento é oferenda a todes que ousam desafiar o duro asfalto do patriarcado. Muitos achar-me-ão tola… understanders, will understand. Pedalar é resistir. Pedalemos juntes!

 

P.S. – Este foi o primeiro texto que escrevi em linguagem inclusiva. É difícil? Sim. Pedi ajuda e demorei um pouco mais a entregar. Fica estranho em alguns casos? Fica – daqui a três textos já sai ao correr da pena. Qual a mudança que é fácil ou indolor? Nenhuma! Ainda que com alguma resistência inicial, no geral todos fomos aceitando o Novo Acordo Ortográfico, uma normalização desnecessária, absurda, redutora e prejudicial à riqueza da diversidade das línguas portuguesas por esse mundo fora. Porque parece ser tão difícil embarcar numa mudança que abre possibilidades, que inclui, que diversifica e aproxima todas, todos e todes?

 

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Dia 4 de outubro

Filme “A Carta” exibido em Campo de Ourique

O documentário “A Carta” que relata a história da Encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco vai ser exibido no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo na terça-feira, dia 4 de outubro, às 21h15.

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