Nossa Senhora da Igreja Pobre, Notre-Dame de Paris

| 20 Abr 19

O interior de Notre-Dame de Paris, depois do incêndio. Foto reproduzida do Twitter da presidente de câmara de Paris, Anne Hidalgo

 

Senti-lhe a falta, quando me levantei no dia seguinte. Não era como quando a gente cai de repente na realidade de que o carro foi de facto roubado ou que a casa de férias desabou mesmo numa tempestade.

Lembrei as Torres Gémeas. Neste caso, o que de facto mais custou foi a extensão da maldade e do ódio, ao provocar a morte angustiante de milhares de pessoas. Fazia impressão ver ruir aqueles gigantes. Eram, porém, monumentos explicitamente dedicados ao Poder do Dinheiro e ao triunfalismo de um sistema económico.

Não assim com Notre-Dame. Senti a sua falta como a de alguém muito querido com quem convivemos, mesmo se apenas em rápidos encontros, e que vimos agonizar sem acreditar.

Era  muito mais do que um monumento de pedra: era a Grande Avó da actual civilização europeia. Ela própria descendia de uma antiquíssima fé em Deus (com os defeitos, injustiças e crimes que mancham a mais nobre genealogia). E a fé, humana como é, precisa de criar monumentos – servem, segundo a etimologia, para “avisar a mente”: enchem-nos de admiração e convidam-nos ao silêncio com Deus. Ao manifestarem a “grandeza de Deus”, fomos levados a decorá-los com a maior arte e riqueza possível.

A tentação do triunfalismo não poupou muitos dos responsáveis de monumentos. E não souberam resistir como Jesus no deserto.

Ao sair da minha longa formação de jesuíta, reflecti que o voto mais importante era o de pobreza. Foi muito bom ver isso no Papa Francisco.

“Devemos ter como se nada fosse nosso.” Porque tudo é passageiro e perecível. “Sábados” e riquezas são para investir no bem da Humanidade.

A “Igreja Pobre” (=todos os cristãos!) não pode ser triunfalista, arrogante, elitista, com a ajuda do poder subjugador do triunfalismo dogmático. E muito menos viver em “catedrais do Dinheiro”.

Muitos templos magníficos têm sido destruídos por forças naturais ou pelo poder “triunfante” de destruir e matar. Notre-Dame de Paris estava lá sempre, e talvez parecesse eterna. Não é verdade que os avós não envelhecem e estão lá sempre?

“Nossa Senhora da Igreja Pobre.” A Mãe humilde de Jesus. Na Anunciação, é apresentada como humilde, longe de qualquer tipo de arrogância por ser a mãe do Cristo de Deus.

Acompanhou a “destruição” física do seu filho. Acompanhou o grupo daqueles que sentiram nessa “destruição” o desafio para uma Fé mais adulta, mais interventiva, e que nunca pode ser “plenamente” esclarecida, porque sempre à procura de Deus, “cujo templo não se vê aqui ou acolá”.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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