AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Brasília, aborto, religião e política,
Manifestação em Brasília, em 2012, frente ao Supremo Tribunal Federal, pedindo a rejeição da descriminalização do aborto em caso de feto anencéfalo. Agora, é a questão da padroeira que provoca tensão religiosa na política brasileira. Foto © António Cruz/Br - https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AProtesto_contra_aborto_de_anencefalos_2012_Brasilia.JPG

[Brasil, Religião e Poder]

Nossa Senhora e as trincheiras da campanha eleitoral brasileira

Na reta final das campanhas eleitorais no Brasil, a religião – que nunca sai de cena – ganhou força na disputa presidencial. Como mostra o texto de Clara Raimundo no 7MARGENS, à beira do primeiro turno, o humorista Antonio Tabet publicou na rede social X uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, escrevendo que “‘a família miliciana’ odiava tanto ‘mulher preta’ que tinha decidido atacar’ a santa”. A publicação espalhou-se rapidamente e alimentou o boato de que Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro e atual candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), teria o objetivo de retirar a Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

Embora tenha existido um projeto nesse sentido, este foi elaborado pelo pastor evangélico Victório Galli em 2007 e arquivado em 2008, sem qualquer relação com Flávio Bolsonaro. Apesar, no entanto, de a alegação contra o candidato ser falsa, esta impulsionou controvérsias em torno da laicidade, da liberdade de expressão e da liberdade religiosa no país, coroando a crise, sem precedentes, que o Supremo Tribunal Federal vem enfrentando em meio aos desdobramentos do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master e figuras dos poderes político e Judiciário.

O que parecia uma conversa de padaria chegou ao Supremo, com André Mendonça, ministro do STF [Supremo Tribunal Federal] e vice-presidente do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], determinando a retirada da publicação de Tabet e de outras publicações das redes sociais. O ministro do Supremo Flávio Dino suspendeu, no entanto, as decisões de Mendonça por entender que a medida poderia levar a uma “censura em massa”, uma vez que, àquela altura, já circulavam mais de um milhão de publicações sobre a padroeira. Flávio Bolsonaro acionou seus advogados, demandando, por sua vez, que a decisão de Dino fosse suspensa. Rapidamente, o boato tornou-se também uma disputa sobre as competências do STF e do TSE no controle da desinformação eleitoral.

Num texto publicado neste jornal, em 2022, alertei para a colonização do Judiciário brasileiro, tendo em vista que o então presidente Jair Bolsonaro prometera que indicaria para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”. A promessa se cumpriu com a posse do pastor presbiteriano André Mendonça no cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 2021, ocasião em que sinalizou que seu maior compromisso seria representar os evangélicos no Supremo.

Ao longo desses anos, entretanto, a atuação de Mendonça acabou por se tornar um exemplo concreto de como a religião no Brasil se tornou uma verdadeira trincheira de identidade político-cultural: a direita brasileira, o movimento bolsonarista e determinados setores evangélicos passaram a se sobrepor e a ampliar sua presença nas instituições públicas brasileiras. Mais recentemente, as decisões de Mendonça no âmbito das investigações do Banco Master voltaram a suscitar questionamentos sobre sua atuação e sua imparcialidade, como no caso do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), aliado de Jair Bolsonaro, em que o ministro negou pedido de busca e apreensão da Polícia Federal, embora a Procuradoria-Geral da República tivesse se manifestado a favor da medida.

Obviamente, Mendonça não é, sozinho, responsável pela crise que o Supremo enfrenta, mas sua atuação certamente a tem agravado. Quando decisões públicas passam a ser percebidas como prevalência de uma ordem normativa ou de um campo político sobre outro, sua legitimidade passa a ser questionada..A controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida mostra a dificuldade, cada vez maior, do Estado brasileiro de separar a mediação jurídica das identidades políticas e religiosas que cercam seus protagonistas

 

Maria Angélica Martins é socióloga e doutoranda em Estudos de Religião.  O seu trabalho articula investigação e escrita ensaística para pensar religião e espaço público, subjetividade, trabalho e organizações, em perspectiva atenta às relações de género e de raça.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

O meu tio Fred

[Arquipélago Jerusalém]

O meu tio Fred novidade

Contra a vaga da direita radical e de antisemitismo que assalta a França e a Alemanha e que tem expressão em vitórias eleitorais, gostaria de evocar o legado do meu tio-bisavô Fréderic Kohn-Abrest (1850-1893). Foi um ilustre jornalista, dramaturgo e ensaísta que viveu entre Paris e Viena e lutou nesses tempos longínquos para criar pontes entre os europeus. [Texto de Mendo Castro Henriques].

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias

Bíblia da CEP

Disponibilizada tradução provisória do Livro de Baruc e Carta de Jeremias novidade

A Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disponibilizou a tradução provisória do Livro de Baruc e da Carta de Jeremias, dando continuidade ao processo de revisão e tradução dos textos bíblicos. Como nas restantes publicações, a comissão convida os leitores a enviar sugestões e comentários para contribuir para a revisão do texto.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This