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Arte, Pintura, Simon Hantaï, Cores, Écriture Rose
Simon Hantaï, "Écriture Rose".

Ensaio

Notas à margem do silêncio

| 26/07/2025

Há um silêncio falante e meditante (como ars meditandi), que é eloquente, grávido de palavra significativa, que revela a verdade das coisas, da realidade e de nós mesmos. Um silêncio que não conseguimos ouvir, mas que se sente, que está lá discretamente, como uma atmosfera a envolver-nos, precisamente como oratio interior silenciosa.

Silenciar-se para que algo fale e nos fale; silenciar-se é despojar-se de si para se colocar à escuta atenta e cuidada da própria vida, dos outros, da realidade e de Deus. O silêncio não é mutismo ou estar calado. O silêncio é o que nos fala no mais íntimo do ser e do coração (o silêncio de uma paisagem, um rosto, um sorriso, um olhar enternecido, a prostração adorante, um lugar do passado, a casa, os brinquedos ou o quarto da nossa infância).

Há uma polifonia de silêncios, uma vasta gama ou paleta de silêncios, que diversos modos e tempos falam e nos falam. Habitar e praticar o silêncio, nos tempos e modos em que ele se dá, como exercício ou ascese quotidiana, torna-nos capazes de nos agarrarmos ao essencial, de viver “como se víssemos o invisível”. Qual foi a experiência mais intensa e forte que já fizemos do silêncio? Que lugares privilegiados de silêncio são os nossos? Onde e quando é que sentimos mais profundamente a força curativa do silêncio? Que imagens do silêncio nos constituem? Quem já ouviu a voz do silêncio, o silêncio do bater das asas de uma abelha, por exemplo?

Silêncio para meditar, para estudar. Silêncio para ver, ouvir e falar. Silêncio para jogar ou trabalhar… Silêncio, Silêncio, apenas a voz do silêncio a ser escutada… O silêncio é tão simples de fazer e tão difícil de encontrar! Como a alegria, a esperança, a amargura. Como o amor. Só conhece o silêncio quem o ama e faz silêncio, como só conhece o amor quem ama, ou o vive quotidianamente. O silêncio das coisas quotidianas. O silêncio da adoração ou da oração onde se ouve a antiga voz que chama, presença tão antiga e tão nova que nos espera, Deus, presença anterior a todo o nosso ser, pensar e sentir, o Deus Silente que nos surpreende. A oração de silêncio é a oração da presença de Deus, pois aí tudo se cala, apenas se ouve a voz que se revela e nos revela.

Há uma passagem do livro da Sabedoria que diz: “Quando um profundo silêncio envolvia todas as coisas… E no meio desse silêncio uma palavra me foi dita…” (Sabedoria 18, 14). Ao princípio…era o silêncio do Verbo, o silêncio da carne de Deus que deveio humano para nós… Muitos são os silêncios e variadas as suas passagens. Dos silêncios do amor criador ao silêncio do ódio destrutivo, do silêncio solar e alegre ao grande e terrível silêncio nocturno ou lunar. Há o elemento salutar e amável do silêncio, mas também há o elemento obscuro, terrível e trágico do silêncio, quase demoníaco ou enlouquecedor.

Simon Hantaï, Blancs, 1974.

É marcante a prática dos monges cistercienses quando trabalham o campo, cultivam a vinha ou o olival em silêncio. É como se trabalhassem rezando e rezassem trabalhando. Foi uma das mais belas experiências do silêncio que fiz na minha vida, quando habitei longamente uma comunidade cisterciense. O silêncio do trabalho, o silêncio do estudo, o silêncio da leitura, o silêncio da meditação, o silêncio na limpeza dos quartos dos hóspedes que vinham para repousar, o silêncio na refeição, o silêncio do lugar ermo, o silêncio da amizade que recebe e compreende o nosso silêncio, porque só um silêncio pode receber outro silêncio com amor. Eu deixei corporalmente esse lugar do silêncio habitado, mas esse lugar nunca me deixou, é esse silêncio que procuro guardar, cuidar e relançar em cada instante, por vezes regressando lá, em corpo ou em espírito, ou num corpo de espírito, “como se visse o invisível”, que me escapa a todo o tempo e ao tempo todo.

O silêncio é um acto humano, muito humano, o nosso primeiro gesto de espanto diante do mundo, diante de si, diante do outro, diante da ultimidade do mistério do mundo. Só um silêncio pode escutar outro silêncio. Mas o silêncio também uma experiência espiritual. Deus fala no silêncio, no acto da criação, na visão da sarça ardente, no escondimento da nuvem, na passagem do fogo, da água, do ar… Deus fala no teu silêncio, no nosso silêncio de cada dia, como fala no silêncio do agricultor que passa na sua ceara e contempla o fruto do seu trabalho, vigiando e esperando em silêncio o dia da colheita.

É esta dádiva ou generosidade incomensurável do movimento vigilante que se entrega ao “silêncio aberto de Deus” (Fernando Echevarría), ao ímpeto oculto da luminosidade. Mas, como comenta João Barrento, “não conhecendo Deus, não sei o que é o seu silêncio. Mas sei e sinto […] o que é o chamamento mudo das coisas, o apelo do pensamento, a escuta pedida pelo estudo”[1], a inteligência do silêncio que apreende o inteligível no sensível, o espírito na fenda da nossa corporeidade.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou muito recentemente em livro o estudo sobre a dependência digital dos portugueses, da autoria de Pedro Prostes da Fonseca, verificando que os portugueses passam em média 10 horas por dia ligados à internet. Mergulhado nos computadores, tablets, iPads ou smartphones, o mundo de hoje vive colado aos ecrãs, exposição que começa nos primeiros anos de vida e está a produzir dependentes digitais e patologias mórbidas de saúde mental. Passam mais horas apegados ao ecrã do que a dormir!

Simon Hantaï, Tabula, 1980

Depois disto, desta «catástrofe iminente»[2] anunciada e em acto da digitalização da vida, que tempo resta para conversar, para ler, para pensar, para repousar ou para andar de bicicleta? É já quase um problema de saúde pública… Basta ver ao nosso redor, em toda a parte e lugar, vemos pessoas zombies coladas ao telemóvel e o telemóvel a elas colado, na rua, no café, em casa, nos restaurantes… Ninguém fala, ninguém pensa, ninguém imagina, ninguém deseja…, tal é a submissão e a dependência (como uma droga). Não se trata de banir ou de querer voltar atrás, mas de aprender a lidar com a internet e o digital de um modo saudável e equilibrado. Essa aprendizagem, esse equilíbrio faz-se também pelo silêncio, dar mais lugar ao silêncio no nosso quotidiano e na pedagogia educativa (caminhar sem phones, correr, andar de bicicleta, ler um bom livro, escutar uma boa peça musical, contemplar as ondas do mar, dormir uma siesta junto ao rio, entrar dentro de uma igreja vazia, parar, rezar e meditar).

É este silêncio violento dos ecrãs e do “sempre online”, com impactos perniciosos sobre a personalidade e as identidades em formação, como crianças e adolescentes, mas também nos adultos, que é preciso combater, prevenir e sanar. Talvez a leitura do livro História do Silêncio (Quetzal, 2025), de Alain Corbin, nos possa ajudar a redescobrir esse outro silêncio mais primordial e original. Assim, afirma o historiador das sensibilidades:

O silêncio não é apenas ausência de ruído. Nós quase o esquecemos. Intensificou-se hoje o medo ou mesmo o terror suscitados pelo silêncio. No passado, os ocidentais disfrutavam a profundidade e o sabor do silêncio. O silêncio era a condição do recolhimento, da escuta de si mesmo, da meditação, da oração, do devaneio, da criação; sobretudo era o lugar íntimo do qual a palavra emerge. A pintura era para eles palavra de silêncio, apreciavam os mil silêncios do deserto e sabiam ouvir os da montanha, do mar, do campo. A intimidade dos lugares, a do quarto e dos seus objectos, como a da casa, era atravessada pelo silêncio. O silêncio testemunhava a intensidade do encontro amoroso. A vida do doente, a proximidade da morte, as presenças do túmulo suscitavam uma gama de silêncio que hoje em dia são residuais. Actualmente é difícil ficar em silêncio, o que nos impede de ouvir a palavra interior que acalma e alivia. A sociedade do hiperconsumo insta a submissão ao ruído a fim de se tornar parte do todo, em vez de manter à escuta de si mesmo. Desta forma, altera-se a própria estrutura do indivíduo. O que nos leva a recear o silêncio? A hipermediatização, a permanente conexão e, por conseguinte, o incessante fluxo de palavras (palavreado) que se impõe ao indivíduo. Sem dúvida, alguns caminhantes solitários, artistas e escritores, adeptos da meditação, mulheres e homem retirados num mosteiro, alguns visitadores de túmulos e, sobretudo, apaixonados que se olham e se calam, buscam o silêncio e permanecem sensíveis às suas texturas[3].

Simon Hantaï, Tabula, 1980

Reaprender a estar em silêncio, ou seja, a sermos nós mesmos numa relação ressonante com o que nos rodeia, é o caminho para uma vivência profunda do humano crente, nos passos do próprio Cristo, o homem do silêncio eloquente por excelência, que ensinava os seus, de ontem e de hoje, “a guardar todas estas coisas” até à consumação do mundo. O silêncio é a oitava nota da escala musical, o que está fora das notas, que ninguém se apercebe, ou melhor, é a nota secreta no intervalo das notas musicais. Deus é essa nota silenciosa escondida no meio do atafulhado da nossa vida, essa nota discreta que nos habita e que por vezes desprezamos pensando ser a menos relevante. Mas como dizia alguém, “Deus está nos detalhes”, na microescala, e não nas grandes coisas, e só o silêncio pode sondar e vislumbrar as lucernas da sua luz que nos chega.

Simon Hantaï (1922-2008) é um santo da pintura contemporânea, que morreu em 2008, cuja obra imensa tive o prazer de contemplar em Paris, em 2022, quando lhe dedicaram uma grande homenagem por ocasião do seu centenário. Lembro que passei a tarde toda na Fundação-Museu Louis Vitton. Diante de Écriture Rose demorei-me uma hora a contemplar, a rezar, com lágrimas de alegria. A sua obra questiona o nosso olhar e o modo como olhamos para as coisas e a vida sobretudo através das cores sóbrias do silêncio. Em 1982, Hantaï, no auge do seu reconhecimento e da sua produção artística, retirou-se da cena artística durante muitos anos, contra a mercantilização da arte. Um gesto corajoso, um silêncio que interrogou muita gente, pois como é que um pintor desta dimensão, que poderia ganhar muito dinheiro em exposições e vendas de quadros, faz do seu silêncio absoluto, recusando todos os convites de presença pública, vivendo na sua casa-ateliê como um monge, um acto de protesto e de revolta assim tão grande e tão sonante?

As obras Écriture Rose e A Galla Placidia (mosaicos de Ravena que ele visitou muito jovem), são duas obras de grande força espiritual. Durante 365 dias, correspondendo ao calendário litúrgico, Simon Hantaï, depois da missa matinal, pintou estas duas obras, uma de manhã e outra de tarde. A eucaristia era para ele uma inspiração e nutrimento pictórico. O pintor incorporou na obra Écriture Rose passagens da Escritura, do missal, palavras de místicos e filósofos, pintando de acordo com as cores do tempo litúrgico (verde, vermelho, branco ou roxo), surgindo no final um fundo de cor rosa, como se fosse uma epifania, de algo para além do quadro, pois o pintor nunca tinha usado essa cor ao longo do ano litúrgico. É o puro silêncio do recolhimento, da sua comunhão ao corpo de Cristo, que inspirou a realização desta obra. Foi no silêncio e do silêncio eucarístico que algo de profundo e duradoiro nasceu e que nós podemos hoje ainda contemplar. Muitos são os modos e os tempos do sublime divino se manifestar. Não nos cabe a nós decidir o seu dar-se, mas somente deixar ser e estar aí nos lugares onde o humano se realiza e se faz.

Simon Hantaï, A Galla Placidia, 1958-1959

Há uma arquitectura do silêncio, como há uma pintura, literatura, poesia ou filosofia do silêncio. Há igrejas excessivamente ornamentadas ou demasiado folclóricas sem silêncio. A simbólica sacro-litúrgica que não incita o silêncio divide, pois é incapaz de reunificar a dispersão diária do nosso ser, que está plena de apelações, notificações e agenciamentos. O grande engenho da arquitectura religiosa contemporânea, presente e a vir, será precisamente levantar espaços de silêncio habitados, uma ambiência ou atmosfera do silêncio falante. A igreja é o espaço do silêncio por excelência, a casa do silêncio de Deus e do silêncio humano. Uma igreja ou catedral românica engendra, só por existir, paredes de silêncio, cidades de silêncio, homens de silêncio. A catedral é uma como um silêncio incrustado na pedra, que se levanta como um enorme reservatório de silêncio. É um útero do silêncio de onde nasce a nossa relação íntima, como uma suave e longa conversação íntima, no silêncio e na sombra, com a transcendência. Deus entra na nossa existência sem rumor, sem barulho, no silêncio, ao qual só pode responder um acolhimento silencioso da nossa parte, o acolhimento de um coração atento e vigilante.

A palavra do Deus bíblico é silenciosa: “Não nos deixes esquecer, Senhor, que tu falas mesmo quando te silencias” (Søren Kierkegaard). Deus fala, mesmo e sobretudo, quando se silencia! “No princípio quando Deus…”, era o silêncio, no fim o repouso sabático, o silêncio último depois do trabalho realizado. Todo o acto criador, todo o gesto criador, toda a palavra criadora nasce deste silêncio originário, deste silêncio profundo de recolhimento e de intimidade com a realidade, tal como no-lo mostra Simon Hantaï.

Há um dito de Mestre Eckhart, padre dominicano do século XIV, um dos grandes místicos que inspirou o filósofo Heidegger, que num dos seus sermões públicos dizia: “Foi-me dita no meio do silêncio uma palavra escondida; e o que há de melhor e de mais nobre nesta vida é ficarmos em silêncio e deixar que Deus aja e fale” (Sermão 57). O silêncio de Deus, o silêncio humano, o silêncio da natureza, o silêncio dos lugares e do tempo, o silêncio eucarístico, o silêncio da adoração é uma nota musical que busca refúgio na partitura interior da alma, que ouvimos sem que seja tocada. É como o silêncio rumorejante do mar, que, enquanto as ondas batem, deixa atras de si um lastro imenso de silêncio, e por vezes também, um incomensurável desarranjo nas estruturas humanas.

Simon Hantaï, Écriture rose e A Galla Placida, 1958-59. Foto © João Paulo Costa.

Toda a acção ou activismo (religioso, político ou social) que não nasce do silêncio é supérflua, altiva e inconsistente. Só as grandes obras, os grandes projectos, realizações ou decisões da nossa vida que nasceram e nascem da palavra nua do silêncio perduram e resistem à passagem do tempo. O silêncio é o cultivo da nossa cidadela interior num tempo em que o barulho invade todos os nossos espaços privados e públicos. O silêncio tem um valor educativo e espiritual profundos, é no silêncio que a palavra nasce, se torna rara e preciosa. Colocar-se na escola do silêncio, como as grandes figuras da humanidade, da cultura, das letras ou da Escritura, é um convite a voltar para o interior, para o ser profundo das coisas, para apreciação do que nos rodeia, para o cuidado com o humano e a criação.

O silêncio não é simplesmente a ausência de barulho ou de vocalidade, mas é essencialmente a condição para o recolhimento, para o devaneio, para a imaginação de um outro modo de sermos humanos, é o lugar íntimo de onde a palavra certa emerge, o gesto de amor verdadeiro nasce. O filósofo italiano Giorgio Agamben, no seu livro Ideia da Prosa, faz do rosto humano a expressão do silêncio, as marcas de palavras não proferidas ou de intenções ainda não realizadas ou por realizar. Assim, “um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio […]. Mas o silêncio – aquele que advém daqui – não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem”.[4]

 

Notas
[1] João Barrento, Breviário do Silêncio, Alambique, Lisboa, 2021, p. 76.
[2] Cf. Pedro Prostes da Fonseca, Dependência digital, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2024.
[3] Alain Corbin, História do Silêncio. Do Renascimento aos nossos dias, Quetzal, Lisboa, 2025, pp. 12-13.
[4] Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, Cotovia, Lisboa, 1999, p. 112.

João Paulo Costa é presbítero católico e investigador em filosofia no CECH da Universidade de Coimbra. Autor de Indícios – à escuta dos traços de Deus (UCP editora, 2016) e de À Sombra do Invisível – fragmentos de um crer sapiencial (Documenta/Sistema Solar, 2020).

 

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