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O padre Joaquim Alves Correia, forçado ao exílio na comunidade dos Missionários Espiritanos da Universidade Duquesne (Pittsburg, EUA), foi retratado (à esqª) no refeitório da comunidade, na pintura alusiva à Última Ceia. Foto © Tony Neves

A propósito do livro de Carlos Balsa

Notas sobre memórias do movimento Metanoia no Marão

 

Foi com muito gosto que li a versão final da obra do colega e amigo Carlos Balsa e com satisfação aceitei escrever algumas notas para o apresentar em Vila Real, no auditório da Câmara Municipal, que se encheu para o conhecer.

É um livro tão significativo, quanto necessário, nos dias que correm: significativo porque revela uma experiência audaz, na sua utopia de caminhar para uma sociedade mais justa, mais igual, mais solidária, numa sociedade política, económica e socialmente hostil e repressiva; necessário porque esta experiência permanecia apagada, desconhecida do público, encerrada num círculo fechado de amigos que foram desaparecendo.

Mas mais necessário ainda, nos dias que correm, em que se procura apagar o que foi a Ditadura e reescrever a História com base em falsidades e/ou meias-verdades. Como dizia o poeta António Aleixo:

«P’ra a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.»

Inesperado para quem não conhecer Carlos Balsa, professor coordenador do Instituto Politécnico de Bragança, da área da engenharia e da matemática, que arranja tempo para dedicar-se à investigação histórica e à divulgação da herança cultural da serra do Marão, este livro evidencia também a missão social que deve ter o Ensino Superior, a dimensão cívica da intervenção social do autor e o papel do conhecimento das múltiplas facetas da herança cultural como instrumento de desenvolvimento humano das comunidades.

Memórias do Movimento Metanoia no Marão dá a conhecer esse movimento de resistência católica, ativa e precoce, promovido por jovens leigos, ávidos de participar na construção de uma sociedade mais justa a partir na sua experiência interior, alicerçada no regresso a um cristianismo autêntico, originário. Ao fazê-lo, promove uma compreensão mais complexa dos pequenos e múltiplos focos de resistência, que como pequenas luzes foram mostrando caminhos, passando a Esperança às novas gerações, de que sou, como muitos outros e outras, herdeira indireta.

António Sérgio

António Sérgio. Foto Arquivos da RTP.

O movimento Metanoia tem dois mentores fundamentais: António Sérgio, o seu ideal cooperativista e uma resistência incansável à ditadura; o padre Joaquim Alves Correia, de um cristianismo que pretendia renovado e conforme à mensagem cristã, que de algum modo antecipa a renovação que o Concílio Vaticano II trará à Igreja, vinte anos depois.

Insere-se, também, nas múltiplas experiências que a partir de meados dos anos 30 foram suscitadas por elementos progressistas do clero e por leigos, de carácter muito diferente, onde se incluem alguns setores da Ação Católica; do Movimento Graal, com Maria de Lurdes Pintassilgo e Teresa Santa Clara Gomes, em 1957, Lisboa, e depois em Coimbra e Portalegre.

Este grupo de homens e mulheres é contemporâneo de outros, como os padres Abel Varzim e Manuel Rocha, formados em Lovaina e conhecedores do movimento da Juventude Operária Católica do padre Joseph Cardijn ou o padre Boaventura Alves de Almeida, que criou os primeiros sindicatos operários católicos na Guarda em 1932 (Sindicato dos Empregados e Operários Indústria de Lanifícios e o dos Empregados e Operários da Indústria da Construção Civil), numa tentativa de dar corpo ao pensamento social da Igreja, da época.

Nesse ano de 1932 foi criada oficialmente a Ação Católica Portuguesa [ACP], que ficou sob a direção do cardeal Cerejeira. O padre Boaventura Alves de Almeida foi o responsável pelo Boletim nº 1 da “Acção Católica Portuguesa”, em 1934. Contudo, foi afastado logo em 1935, pois, sob pressão do Governo, foi determinado o abandono da atividade sindical do movimento operário católico.

O padre Manuel Rocha foi afastado da JOC em 1941, por ação do bispo auxiliar de Lisboa, Manuel Trindade Salgueiro, presidente da Junta Central da Ação Católica. O padre Abel Varzim manteve-se, apesar de ter manifestado publicamente o seu desacordo e continuou a exercer a sua influência: em 1942 o Conselho Geral da LOC dirigiu uma carta a Oliveira Salazar a pedir o estabelecimento do salário familiar. E o padre Abel Varzim escreveu, no jornal O Trabalhador,

Jornal.

O Trabalhador : jornal operário. – A. 1, nº 1 (15 nov. 1896). – Porto : [s.n.], 1896. Biblioteca Nacional Digital

«Não podemos continuar a permitir que o trabalho, meio de aperfeiçoamento físico e espiritual do operário, constitua a antecâmara dos sanatórios, dos hospitais, dos cemitérios ou do Inferno. Queremos o trabalho respeitado; dignificado, santificado, queremos salvar o mundo do trabalho! Operário ergue a tua fronte! A tua fronte cristã!»

Em 1948 o jornal foi suspenso pela Censura e o padre Abel Varzim afastado da LOC. Em 1957, já na sua terra natal, em Cristelo, o padre Abel Varzim organiza também uma cooperativa – SAMI (Sociedade Avícola do Minho) – para que os interesses dos avicultores fossem defendidos. Em 1958, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, escreve a célebre carta a Salazar que lhe vale o exílio.

Apesar de todas as diferenças de atuação, de maior ou menor sujeição à hierarquia, de fidelidade à mensagem cristã, há todo um mundo de pequenas ações que visavam criar consciência cristã esclarecida e levar a atuar na sociedade civil, em prol da democracia, do combate à pobreza e do bem comum. É justo lembrar aqui Maria de Lurdes Pintassilgo, que nunca tendo sido, tanto quanto se conhece, alguém que tenha sofrido a repressão, conhecia e trabalhava no sentido da criação de uma consciência cristã e cívica entre as mulheres.

Ora, em 1948, estão na Campeã [Vila Real] Fernando e Luísa Dacosta, a publicar as edições Metanoia, com a ajuda de outras companheiras e a iniciar Cooperativa Agrícola. Conhecem o momento político, já lhe tinham sofrido as consequências, com a objeção de consciência ao serviço militar de Fernando da Costa. Conhecem a ACP, mas ela não inspirava a confiança de muitos, dada a sua subordinação ao cardeal Cerejeira e ao seu bispo auxiliar. O afastamento dos padres organizadores do movimento em Portugal mostrava a mão longa da repressão e a conivência da hierarquia e tinha originado o abandono de muitos dos seus membros. A opinião do padre Joaquim Alves Correia também não lhe era favorável, como se pode ler na carta que dirige a João Sá da Costa, em maio de 1947:

«Ao João felicito agora pela dita que teve de sofrer afronta e contusão por Cristo, pois as sofreu por defender direitos de irmãos. Que Nosso Grande Pai vos abençoe a todos. O Lugar que escolheram na seara do Pai não foi um posto oficial nos quadros da Ação Católica; foi o de levedadores da massa, para que o espírito do Evangelho, da sua fé, do seu ideal, a fecundem e dinamizem». (Memórias…, p. 33)

A experiência cooperativista tinha tudo contra ela. O fantástico é ter acontecido e deixado marcas, ainda reconhecíveis.

O que mais me encanta no livro, é a recolha e apresentação dos livrinhos de Lurdes Morais. Aí está a capacidade de Luísa Dacosta em transmitir de forma simples os ideais que partilhavam, de ligar a educação à realidade vivida e que se desejava construir – uma vida comunitária e uma escola ativa, criativa, de liberdade.

“Temos ainda muito que trabalhar na nossa quinta para termos pão que chegue. Já temos trabalhado muito a saibrar terras de novo. Começamos a trabalhar juntos em Setembro de 1948 e já muito temos feito. Somos amigos, confiamos uns nos outros. Resolvemos os casos como amigos e tudo se faz bem e sem zangar.”(Memórias…, p.36)

Ou ainda :
«Foi projetada a construção de um armazém, para guardar os produtos comprados ao junto, e de outras infraestruturas necessárias ao coletivo:

“A névoa é brava e são precisos trabalhos para nos abrigar da chuva e da neve. Por isso arranjamos a primeira casa, fizemos de novo a segunda e vamos começar neste mês de Março de 1950, a terceira. A pouco e pouco vamos crescendo. Precisamos de uma eira, de um canastro, de um armazém, de uma escola. Assim como os Apóstolos e nos conventos, seremos bons irmãos e viveremos juntos.” (Memórias…, p.37)

E:
 “Na nossa quinta havemos de ter uma escola, que seja a casa de todos, dos que vêm aprender e dos que já aprenderam. A escola terá uma sala de trabalho para as aulas e uma biblioteca para leitura. Assim todos os que trabalham na quinta podem aprender e ensinar os mais novos. Não devemos ser orgulhosos por saber, mas gostar de saber para sermos melhores e ajudar os outros”.» (Memórias…, p. 40)

Esta última frase comunica todo um programa e ideal educativo: o conhecimento ao serviço dos outros e do enriquecimento humano de cada um.

O movimento Metanoia foi uma pequena luz bruxuleante, que se traduziu anos mais tarde em novas experiências, como salientou Nuno Teotónio Pereira, embora dela, os mais novos e em geral, não se tivesse conhecimento direto. Destaco a experiência de alfabetização na Baixa da Banheira, por Antónia Celeste Vieira, os Cadernos Gedoc (Grupo de Estudos e Documentação), em 1970, que levou à prisão os seus principais autores – padres José Felicidade Alves, Abílio Cardoso e arquiteto Nuno Teotónio Pereira; em 1970, ainda, a prisão do padre Mário de Oliveira e o movimento de solidariedade que gerou, e em 1972 a vigília na Capela do Rato, em Lisboa. Seguramente existiram outras experiências significativas, que permanecem obscurecidas no tempo.

Capa do livro de Carlos Balsa

Capa do livro de Carlos Balsa

O movimento Metanoia do Marão significou, sobretudo, um corte com um certo “farisaísmo” hipócrita de um cristianismo de rituais, de “caridadezinha”, que mantinha tudo na mesma, mas dava tranquilidade de consciência, na busca da salvação da alma. O que o movimento pretendia era uma organização diferente da sociedade, que alterasse as relações socioeconómicas entre as pessoas, criando uma estrutura social alicerçada no bem comum. Era, na tradição cristã, transformar a sociedade como antecipação do paraíso na terra. Daí ter sido designado pelo qualificativo de “comunismo cristão”.

A concluir, saliento que Memórias do Movimento Metanoia no Marão é fruto de um trabalho cuidadoso e sistemático de procura de fontes, rigoroso como uma pesquisa histórica deve ser. A sua leitura é fácil e agradável e  lê-lo leva-nos a recordar/conhecer a nossa sociedade mas também, se não sobretudo, continuar na senda da utopia, na busca de soluções coletivas, solidárias, inclusivas para os nossos problemas atuais. Por tudo isto, é um chamamento à coragem, ao incómodo, à urgência do agir coletivo pela dignidade de todas as pessoas.

Quero ainda felicitar o autor e a editora pelo lançamento no dia de hoje [4 de Abril de 2025] como homenagem à resistência pacífica e cristã, de homens e mulheres de boa vontade que tentaram uma experiência cooperativa em que a educação era um pilar fundamental, num país dominado pela exploração desenfreada, pela miséria, pela ignorância, pelo medo, pelo ódio, pela ganância. Presto, enfim, sentida homenagem ao Padre Max[imino de Sousa], que, em 1975, aderiu ao Movimento Cristãos pelo Socialismo, a que também pertencemos, e foi barbaramente assassinado, no dia 2 de Abril de 1976, nestas terras de Trás-os-Montes, onde acreditava ser possível empenhar os mais jovens em movimentos transformadores das suas vidas, individuais e coletivas.

Vila Real, 4 de Abril 2025

 

Margarida Louro Felgueiras é professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto e foi uma das apresentadoras do livro de Carlos Balsa, Memórias do movimento Metanoia no Marão: Utopia cristã em tempos de ditadura.

 

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