Notícias boas também são boas notícias

| 10 Mar 21

Abrir a televisão para ouvir um serviço noticioso é hoje quase um exercício de masoquismo, não só pela exagerada extensão destes, em regra, mas sobretudo pela ênfase e quase exclusividade concedida às notícias más.

“Em termos de material noticioso, os jornalistas e editores de informação converteram-se ao primado do quanto pior melhor.” Foto: @murai/Unsplash

 

Em termos de material noticioso, os jornalistas e editores de informação converteram-se ao primado do quanto pior melhor. Já nem falo do jornalismo de faca e alguidar pelo qual é conhecido um dos canais portugueses, mas pela tendência geral predominante no meio.

O argumentário utilizado para justificar esta opção baseia-se sobretudo em três ou quatro pontos. O primeiro deles é o argumento do gosto dos consumidores de informação. Alguns terão mesmo a franqueza de dizer que é disto que as pessoas gostam. Da mesma forma como muitos reduzem a marcha e quase param numa autoestrada quando se deparam com um acidente, mesmo que as vítimas já estejam a ser socorridas, apenas porque têm a curiosidade mórbida de verem os pormenores, também apreciam imenso conhecer os pormenores e a dissecação de todo o tipo de crimes relatados no pequeno ecrã.

O mesmo acontece com os directos à porta dos tribunais, sempre que não existe qualquer notícia a dar e se veem os repórteres a fazer um discurso circular apenas para encher chouriços, até a régie dizer pelo auricular que já chega.

Associado a este vem o argumento do valor-notícia, isto é a relevância da notícia. Mas o que se vê muitas vezes é que os critérios jornalísticos que o definem, como ineditismo, probabilidade, interesse, apelo, empatia e proximidade não estão presentes. Além disso estes mesmos critérios aplicam-se de igual modo às notícias positivas, pelo que é falacioso dizer que as boas notícias não são apelativas para o público.

Segue-se o argumento económico, que remete para a necessidade de garantir audiências. Como as empresas de comunicação social vivem de publicidade e a publicidade está ligada ao nível das audiências, há que inventar tudo para as fazer crescer e atrair o público.

Finalmente vem o argumento talvez mais cínico de todos que é a invocação da concorrência, ou seja, se nós não dermos vão dar os outros. Percebe-se que hoje também entram nesta equação as redes sociais, e assim se baixa ao nível mais rasteiro a informação mediada, que devia distinguir-se claramente da cloaca em que se transformaram tais redes.

Recentemente soube-se que Portugal está na cauda da Europa em matéria de violência física (com 4% de casos quando noutros países europeus chega aos 18%), segundo um relatório da Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia, e que se assume como a primeira pesquisa abrangente sobre a experiência de criminalidade entre a população da União Europeia.

Quanto ao assédio, os portugueses também registam uma média abaixo da europeia, com 24% a dizerem ter sido vítimas nos últimos cinco anos (contra 41% dos europeus), e no caso do assédio online essa percentagem reduz-se para 4% (contra 14% na UE).

Segundo um estudo da Pordata, Portugal melhorou de forma consistente nos indicadores de pobreza e exclusão social, abandono escolar e desemprego de longa duração, entre outros, apesar de ainda manter um PIB per capita mais baixo do que a média europeia e mais desigualdade.

Então, temos pelo menos um país seguro e que tem vindo a crescer em matéria de desenvolvimento. Mas claro que nada disso conta para os profetas da desgraça, que todos os dias veem o copo meio vazio e não encontram outro modo de descarregar as suas frustrações pessoais a não ser dizer mal de tudo quanto está em posição de liderança. É mais fácil permanecer em conversa de café, maldizer este mundo e o outro, do que meter o ombro debaixo da carga e fazer alguma coisa em prol da sociedade e do próximo. A experiência diz que, quase sempre, quem mais critica é quem menos faz.

Acresce que a paulatina segmentação política da sociedade tende a levar os que estão acantonados dum lado a desvalorizar os erros dos seus companheiros de percurso e a amplificar os de quem se situa do outro lado da barricada. É por isso que nunca fui, não sou nem serei homem de partidos ou grupos, embora procure exercer intervenção cívica.

A mim interessa-me o todo porque ninguém tem a verdade toda e ninguém está completamente enganado. Sem partidos não existe sistema democrático, mas os partidos também não podem ser entidades monolíticas, tribos políticas fechadas à sociedade. E quando escolhem esse caminho são ultrapassados por outros, tanto à esquerda como à direita, como se está a ver hoje em Portugal.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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