Assinada por 74 bispos

Nova carta aberta contra recomendações da via sinodal alemã

| 18 Abr 2022

Terceiro dia de reunião da Assembleia do Caminho Sinodal Alemão. Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner

 

O Caminho Sinodal alemão expressa a “tentativa da Igreja neste país enfrentar as causas sistémicas dos abusos sexuais e do seu encobrimento que causaram sofrimento incalculável a tantas pessoas dentro e através da Igreja”, escreveu a 13 de abril o presidente da Conferência Episcopal Alemã, o bispo Georg Bätzing, em resposta às críticas da carta aberta de 74 prelados divulgada no dia anterior.

“Infelizmente, tal abuso de poder – também por parte de autoridades episcopais – não é apenas coisa do passado, mas continua a acontecer no presente, produzindo violações massivas dos direitos e da integridade pessoal dos fiéis e religiosos”, pelo que Bätzing se diz espantado por “estes factos e o seu contexto – que são particularmente importantes para nós – não serem, infelizmente, mencionados na vossa carta”, na qual o poder e o abuso de poder na Igreja são referidos com “eufemismos que em nada ajudam a enfrentar a realidade”, conforme refere a Catholic News Agency de hoje, 18 de abril.

Esta é, desde o finais de fevereiro, a terceira carta aberta endereçada aos bispos alemães por prelados de outros países preocupados com o facto do sínodo alemão ter dado um voto favorável à revisão da doutrina sobre a sexualidade e a homossexualidade, ao celibato opcional dos presbíteros, à abertura do diaconato às mulheres e à possibilidade de todos participarem na escolha do seu bispo [ver 7MARGENS]. A pressão externa sob a forma de carta aberta teve o seu primeiro momento com a missiva do presidente da Conferência Episcopal Polaca, arcebispo Stanislaw Gadeck, [ver 7MARGENS], a que se seguiu, a 11 de março, carta de igual sentido subscrita pelos oito bispos dos países escandinavos (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia).

O mais recente texto, conhecido a 12 de abril, vê no Caminho Sinodal alemão um grande “potencial de cisma”, sublinha que ele mina “a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco” e que “pelo seu exemplo destrutivo” pode levar “alguns bispos, e levará muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de ‘sinodalidade’.”

Trabalhada inicialmente nos EUA (país em que 48 bispos a assinaram) esta última carta aberta circulou durante um mês por várias dioceses, tendo terminado com 74 assinaturas, entre as quais as de quatro cardeais – o nigeriano Francis Arinze (emérito), o sul-africano Wilfred Napier (emérito), o americano Raymond Burke (emérito) e o australiano George Pell. Entre os signatários há também quatro bispos do Canadá, 17 africanos e um italiano. A disparidade de posições públicas assumidas pelos diversos signatários permite perceber que a carta não foi apoiada apenas por personalidades ultraconservadoras (como, por exemplo, o cardeal Burke ou o arcebispo de São Francisco), ou agastadas com atitudes do papa Francisco (cardeal Pell), mas foi também acolhida com simpatia por outros sectores eclesiais.

Duas acusações centrais
Caminho Sinodal-abertura catedral de Frankfurt

Cruz do Sínodo na sessão de abertura do Caminho Sinodal alemão, na catedral de Frankfurt, em 30 Janeiro 2020. O medo de que a Igreja esteja a ceder ao mundo e a afastar-se de Jesus Cristo tem estado presente nas posições públicas de alguns bispos e sacerdotes. Foto © Synodaler Weg

 

Até agora, as críticas das cartas abertas dirigidas à Conferência Episcopal Alemã centram-se sobretudo na acusação de que a necessidade de alterar a doutrina estabelecida surge não da escuta do Espírito Santo, mas antes da cedência “ao espírito do tempo” [o que se pode traduzir de forma aproximada, como a moda cultural vigente] e de que a democracia eclesial desejada é um excesso desafiador da autoridade eclesiástica. Com base nestas duas acusações todas as três cartas sublinham o “perigo de um cisma” e o desrespeito pelo papel do Papa Francisco.

De resto, o Papa é várias vezes citado neste último texto. Alguns dos argumentos esgrimidos baseiam-se na carta de Francisco “Ao Povo de Deus que Caminha na Alemanha”, de junho de 2019. Nela existem vários alertas contra uma perceção da evangelização como “uma tática de reposicionamento eclesial no mundo de hoje” ou como a introdução de “retoques que adaptem [a evangelização e a Igreja] ao espírito do tempo, fazendo-a perder a sua originalidade e sentido profético”.

É para responder às críticas veladamente sustentadas na carta do Papa Francisco que o bispo Bätzing escreve que o Caminho Sinodal alemão “de forma alguma mina a autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco”, para concluir: “A participação dos fiéis na tomada de decisões em todos os níveis da ação eclesiástica em nada prejudicará a autoridade do cargo hierárquico. Pelo contrário, dar-lhe-á uma renovada aceitação entre o povo de Deus”.

Contudo, é provável que a sucessão de tomadas de posição públicas contra as recomendações votadas no processo sinodal alemão, vise classificá-las como “cismáticas” (fraturantes) e assim pressionar Francisco para que tome sobre elas uma posição definitiva. De preferência ainda antes da redação final das contribuições das conferências episcopais de cada país para o Sínodo 2023, que têm de estar concluídas até ao final do mês de agosto deste ano.

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This