No meio de guerras, polarizações sociais e políticas, efeitos da crise climática, ou do uso descontrolado e nocivo de algumas novas tecnologias, chegou a hora de fazer escolhas corajosas, e os cristãos da Europa fizeram-no esta semana através da assinatura de uma Carta Ecuménica revista e adaptada aos tempos que correm, na qual se destaca um maior compromisso com o diálogo, o acolhimento e a reconciliação.
Quem o diz é Gintaras Grušas, arcebispo de Vilnius e presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE), que assinou o documento em Roma, na passada quarta-feira, 5 de novembro, juntamente com o presidente da Conferência das Igrejas Europeias (CEC), arcebispo Nikitas de Thyateira e Grã-Bretanha (greco-ortodoxo).
A primeira versão da Carta Ecuménica havia sido promulgada em 2001 e estava em processo de revisão desde 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, altura em que os dois organismos sentiram essa necessidade como premente.
Além de enfatizar o papel dos cristãos europeus como arquitetos e promotores da paz, apoiando ativamente iniciativas de mediação e desarmamento, o documento destaca também a “necessidade de promover a justiça económica e social com políticas que sirvam o bem comum e não os interesses de poucos”, refere o arcebispo Grušas. “O mundo mudou, a Europa mudou, não podemos ignorar isso. Há desafios impostos pela migração e pelas novas tecnologias. Também queríamos dar maior atenção aos trabalhadores e aos jovens; a participação deles é essencial para o continente. Queremos ajudá-los a abraçar esses desafios e a serem missionários.”
O presidente da CCEE detém-se em particular sobre a situação na Ucrânia, onde “ainda existem milhares de deslocados internos, além daqueles que deixaram o seu país para chegar a outras nações”, e lembrou que “a mensagem cristã permanece a mesma, é a mensagem de Jesus, que é acolher o estrangeiro”.
E reconhecendo que continua a existir na Europa uma divisão entre Norte e Sul, entre Ocidente e Oriente, apresenta a Carta Ecuménica como “um sinal dessa necessidade de curar as fraturas, porque une não apenas pessoas de diferentes igrejas e denominações, mas também do Leste e do Oeste, do Norte e do Sul, e busca a unidade”. E acrescenta: “quando falamos de unidade ecuménica, não nos referimos apenas a doutrinas, mas ao trabalho comum, à missão e ao testemunho: este é o caminho para evangelizar a Europa hoje”.
Até porque “os católicos representam metade dos cristãos na Europa, e todos os outros representam os restantes 50%. É por isso que este diálogo entre o CCEE e a CEC é muito útil. Cada país tem claramente proporções diferentes. Por exemplo, na minha Lituânia natal, 80% são católicos, os restantes 20% são ortodoxos, luteranos e outros”. Mas também há fiéis que “não estão envolvidos neste diálogo”, destaca ainda o arcebispo. “Refiro-me aos novos movimentos cristãos, mas o documento estende-lhes especialmente os braços. Devemos encontrar um diálogo com eles, uma forma comum de evangelizar e difundir o batismo que nos une como um só povo de Deus”, explica.
Na nova versão da Carta, há também o foco na necessidade de proteção da Criação e do cuidado com a Casa Comum, algo que já se encontrava contemplado na versão de 2001, mas que hoje se tornou ainda mais urgente devido às mudanças climáticas, à perda de biodiversidade e à exploração descontrolada dos recursos.
Quanto à questão das novas tecnologias, e em particular da inteligência artificial. só agora foi incluída no documento. “Reconhecemos o seu enorme potencial como ferramenta de comunhão e solidariedade, mas também os seus riscos e o facto de que podem ser usadas não apenas para o bem da humanidade, mas também para o mal”, frisa Gintaras Grušas, explicando que neste nova Carta os cristãos se comprometem também a trabalhar por “uma ética digital fundamentada na dignidade humana e no bem comum”.










