Processo em dicastério vaticano

Nova denúncia de abusos do padre Rupnik sobre uma religiosa

| 28 Jan 2024

Marko Ivan Rupnik, padre jesuíta, arte

Marko Ivan Rupnik, padre jesuíta, artista e teólogo, sob suspeita de ter abusado de mulheres. Foto © Centroaletti, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

 

Uma nova denúncia de abusos de poder e psicológicos por parte do padre e artista de mosaicos Marko Rupnik surgiu nos últimos dias, de uma ex-religiosa da Comunidade Loyola, de que ele foi co-fundador. A denúncia surge escassos três meses depois de o Papa Francisco ter determinado a reabertura do processo sobre as denúncias contra o presbítero no Dicastério para a Doutrina da Fé, ultrapassando o argumento da prescrição dos abusos sexuais e de poder.

A irmã Pia (nome fictício) entrou como noviça na Comunidade Loyola em 1990, na casa-mãe da instituição, na Eslovénia, de onde Rupnik é também originário. Hoje conta que a presença de Rupnik como mentor espiritual e como confessor se tornou, desde o início, uma fonte de tormentos para ela. 

Logo no início do noviciado, estando os dois sentados à mesa frente a frente, Rupnik teria feito um exercício de pressão com as palmas da mão dele sobre as dela, numa prova de alegada resistência, que terminou com ela a ficar com o dedo indicador partido. Segundo conta a religiosa, o padre não só ignorou os apelos para que parasse como nem sequer apresentou um pedido de desculpas. Calmamente explicou-lhe o sentido do ato: “’Agora tens o selo permanente da Companhia de Jesus. Fi-lo por amor.” Mais ainda: impediu-a de receber tratamento médico e de contar o que se tinha passado.

“O padre Rupnik – recorda a irmã Pia de uma viagem a Roma – tinha sido nomeado único diretor espiritual e confessor de todas as noviças. Eu não queria que ele fosse o meu confessor, mas não tínhamos liberdade de escolha. Uma vez, durante a confissão, ele trancou a sala do Centro Aletti onde estávamos e meteu a chave no bolso. Eu fiquei zangada e assustada e disse-lhe que não tinha nada para lhe dizer: estive tanto tempo em silêncio que ele acabou por me deixar sair”.

A sua resistência às investidas do diretor espiritual e à obrigatoriedade de se confessar a ele custaram-lhe insistentes pressões e menosprezo por parte quer de Rupnik quer da irmã Ivanka Hosta, co-fundadora e superiora geral, segundo confessou. Apesar disso, acabou por fazer os votos (de obediência, castidade e pobreza).

Depois da cisão que se registou em 1993-1994, entre os dois co-fundadores, alegadamente pelos repetidos abusos de uma outra religiosa, que chegaram ao conhecimento da irmã Ivanka,  a vida da irmã Pia não se viu facilitada. No dizer do jornal Domani, que revela mais este caso, experimentou “todo o tipo de violências, incluindo um incitamento ao suicídio”, já sob a liderança exclusiva da fundadora. Finalmente, em 1998, abandonou a Comunidade.

Recorde-se que esta denúncia é apenas mais um caso de algumas dezenas que estão identificados e que tornaram o dossiê Rupnik num dos mais escandalosos dos muitos que a Igreja Católica tem conhecido, sobretudo pelo poder de que gozava nos mais altos níveis da Cúria, incluindo junto dos últimos três papas e, em particular, de Francisco. 

O padre Rupnik foi excomungado na primeira vez que denúncias dos abusos sexuais e de poder chegaram à então Congregação para a Doutrina da Fé, mas escassas semanas depois, a pena foi levantada, com o argumento, conhecido bastante mais tarde, de que ele tinha mostrado arrependimento. Dois anos depois, outros casos foram de novo apreciados, mas a Congregação, sem pôr em causa a consistência da matéria factual, entendeu arquivar o processo, por prescrição. 

Até hoje, ele recebeu apenas algumas limitações de confessar, celebrar em público ou orientar retiros, mas ostensivamente continuou a fazer o que antes fazia. Depois de os Jesuítas terem aberto um período para receber eventuais queixas contra ele, na primavera de 2023, e de terem sido recebidos dezena e meia de casos validados e credíveis, ainda aí o clérigo recusou-se a reunir com o seu superior da Companhia. Na sequência desse comportamento, os Jesuítas deixaram de o considerar um dos seus membros.

Entretanto, recebeu a incardinação numa diocese eslovena que faz fronteira com Itália, contra a opinião da Conferência Episcopal desse país. Não há notícia de que tenha desenvolvido atividades pastorais nestes últimos tempos, sendo voz corrente que continua ligado ao Centro Aletti (laboratório artístico e teológico) e que tem sido visto a mostrar algumas das suas obras a visitantes em Roma, especialmente os imponentes mosaicos do Seminário Maior da diocese romana.

Em finais de setembro último, perante o crescer do escândalo que o seu caso registava, o Papa Francisco tomou a decisão de mandar reabrir este dossiê no Dicastério para a Doutrina da Fé. É para este departamento da Cúria que as atenções estão agora focadas. O silêncio é, por ora, total.

 

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