Nova lei em Hong Kong: as duras críticas dos cardeais e o estranho silêncio do Papa

| 8 Jul 20

Cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong

Cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong (aqui, numa manifestação em 2014): a nova lei é “ridícula”, diz. Foto Wai Wan Tong/Wikimedia Commons

 

O cardeal Charles Maung Bo, presidente da Federação de Conferências Episcopais Asiáticas (FABC), e o cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, teceram duras críticas à nova lei de segurança nacional aprovada por Pequim para aquela região, considerando que constitui uma enorme ameaça à liberdade de expressão e religião. O Papa Francisco terá também planeado abordar este tema na sua alocução após a oração do Angelus no passado domingo, 5 de julho, mas por algum motivo desistiu de o fazer.

Como é habitual, o discurso que o Papa iria proferir foi enviado com cerca de uma hora de antecedência aos jornalistas que costumam fazer a cobertura mediática da Santa Sé, para que os mesmos pudessem preparar antecipadamente os artigos a publicar após as declarações de Francisco. Mas, ao contrário do que é habitual, poucos minutos antes de o Papa falar, os jornalistas foram avisados de que a referência à situação em Hong Kong prevista no texto seria omitida, sem que para tal fosse apresentada uma justificação.

O texto a que os jornalistas têm acesso antecipadamente está sempre sujeito a embargo até ao momento em que o Papa efetivamente o profere (o que significa que os jornalistas não podem divulgar o seu conteúdo antes desse momento e que, caso o discurso do Papa seja diferente do previsto, a declaração válida é a que ele profere). Nesse sentido, seria como se o parágrafo do texto relativamente a Hong Kong nunca tivesse existido.

Mas, de acordo com o vaticanista italiano Marco Tosatti, existiu mesmo. O jornalista, conhecido pela hostilidade em relação a Francisco, publicou o texto na íntegra no seu blogue. “Nos últimos tempos, tenho seguido com particular atenção e não sem preocupação os desenvolvimentos da complexa situação em Hong Kong, e desejo manifestar, acima de tudo, a minha proximidade para com todos os habitantes daquele território.” Era assim que se esperava que o papa tivesse começado, para logo a seguir sublinhar que, “no contexto atual, os assuntos em causa são indubitavelmente delicados e afetam a vida de todos”. Francisco deixaria depois os desejos de que “todas as pessoas envolvidas saibam como enfrentar os vários problemas com um espírito de previdente sabedoria e diálogo autêntico” e de que “a vida social, e especialmente a religiosa, se exprimam em plena e verdadeira liberdade, tal como exigem vários documentos internacionais”. “Acompanho com a minha constante oração todas as comunidades católicas e as pessoas de boa vontade de Hong Kong, a fim de que possam construir juntas uma sociedade próspera e harmoniosa”, concluiria Francisco.

O facto de estas palavras não terem passado do papel e de não ter sido apresentada qualquer justificação por parte do gabinete de imprensa do Vaticano para a decisão de última hora de omiti-las gerou uma onda de discussão e suposições nos meios de comunicação internacionais.

Diversos jornalistas consideram que a omissão do Papa foi motivada por pressões políticas da parte do governo chinês. Tosatti atribui a culpa ao “famoso acordo secreto assinado entre Beijing e a Santa Sé, cujas consequências estão a ser fortemente sentidas nas vidas de muitos católicos chineses”. Na opinião do jornalista, este acordo “arrisca constituir-se como um dos maiores erros da diplomacia do Vaticano, e uma das piores decisões do Papa”.

 

Proibido apoiar independência, permitidas buscas sem mandado

Hong Kong 1 Jul 2020. Jornalistas

Manifestação em Hong Kong, a 1 de Julho, contra a entrada em vigor, nesse mesmo dia, da nova lei de segurança. Foto da página da Associação de Jornalistas de Hong Kong na rede Twitter.

 

A nova lei da segurança nacional entrou em vigor no passado dia 30 de junho, após repetidas advertências do poder comunista chinês contra a dissidência em Hong Kong, marcada em 2019 por sete meses de manifestações em defesa de reformas democráticas, que levaram à detenção de mais de nove mil pessoas.

Algumas opiniões políticas, como o apoio à independência ou reivindicações de maior autonomia para o território, são agora proibidas, e foram atribuídos novos poderes de vigilância às forças policiais, que incluem a possibilidade de fazer buscas sem mandado, no caso de suspeitas de ameaça “iminente” à segurança nacional.

O chefe da polícia passou a ter poderes para fiscalizar e apagar informações na Internet, se existirem “motivos razoáveis” para considerar que viola a lei, e também pode ordenar às empresas e fornecedores de serviços de Internet que removam qualquer informação e apreender os seus equipamentos informáticos. Todas as pessoas que publiquem mensagens que as forças de segurança considerem violar a lei poderão arriscam ter de pagar multas avultadas e enfrentar até um ano de prisão.

A entrada em vigor da nova lei já levou a rede social de partilha de vídeos Tik Tok a anunciar a suspensão do serviço em Hong Kong. Facebook, Google e Twitter confirmaram na segunda-feira que não vão responder aos pedidos de informações sobre os seus utilizadores por parte do governo e autoridades do território, por respeito à liberdade de expressão, e disseram estar a analisar a legslação.

Para o cardeal Joseph Zen, que tem sido uma das vozes mais críticas do regime chinês, a imposição da nova lei é “inacreditável” e “ridícula”. O bispo emérito de Hong Kong considera que “a China reclama jurisdição universal” e “quis fazer uma lei para o mundo todo”.

Questionado pela rádio pública de Macau, TDM, sobre o impacto da lei na liberdade religiosa, o cardeal é perentório: “Quando não há liberdade, não pode haver liberdade religiosa”. Joseph Zen acusa a China de estar “a tratar Hong Kong como uma cidade chinesa qualquer”. “Podem prender as pessoas, levá-las para a China para tribunal. E quando são enviadas para a China, as pessoas deixam de ter visitas, ficam sem acesso a advogado e um dia talvez apareçam na televisão a confessar crimes. Tudo é possível agora. Não há mais garantias nenhumas. Ninguém está a salvo”, denuncia.

Também o cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Rangum, alerta para a perda do “elevado grau de autonomia” que havia sido prometido a Hong Kong segundo o princípio “um país, dois sistemas” quando, em 1997, esta antiga colónia britânica passou a ser uma região administrativa especial da China.

“Estou preocupado com as ameaças que esta lei impõe às liberdades e direitos humanos em Hong Kong. Esta legislação ameaça minar a liberdade de expressão, a liberdade de reunião, a liberdade de imprensa e a liberdade académica. A liberdade de religião e de crença também estão sob ameaça”, afirma o cardeal Bo, citado esta segunda-feira pela Asia News.

O presidente da FABC refere que “de acordo com inúmeros relatos, a liberdade religiosa na China continental tem sofrido os mais violentos ataques desde a Revolução Cultural [entre 1966 e 1976]” e teme que a nova lei “conduza ao controlo das pregações religiosas, à penalização de vigílias de oração e ao assédio em locais de culto por proteção ou assistência a manifestantes”.

Sem receios, o cardeal Bo faz o pedido que o Papa não chegou a fazer: “Rezem por Hong Kong. Rezem pelos líderes da China e de Hong Kong, para que mantenham as suas promessas de respeitar os direitos e liberdades fundamentais. Convido-vos a todos a rezar pela paz”.

Artigos relacionados

Abolir as armas nucleares

Abolir as armas nucleares

Dinâmicas colectivas mobilizadoras, pronunciamentos de líderes políticos, insistência nos apelos de dirigentes religiosos, são marcos que ajudam a explicar o facto de, a 7 de Julho de 2017, a Assembleia Geral da ONU ter adoptado, numa decisão histórica, o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, votado por 122 países, com a ausência dos países detentores de armas nucleares, bem como dos membros da Aliança Atlântica.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Um debate virtual sobre A Economia de Francisco novidade

Com o objectivo de dar um contributo para a reflexão sobre o encontro A Economia de Francisco, que decorreu no final de Novembro, a Capela do Rato (Lisboa) organizou um debate, que decorrerá via Zoom, “sobre as pistas e os caminhos para uma economia mais humana e mais justa”.

Semana pela Unidade dos Cristãos: Aplicação disponibiliza orações em árabe

Pela primeira vez, os cristãos de língua árabe podem acompanhar as orações e meditações bíblicas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (que se assinala entre 18 e 25 de janeiro) no seu próprio idioma, graças à tradução assegurada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em parceria com o Conselho de Igrejas do Médio Oriente (MECC) e a aplicação bíblica You Version – The Bible App.

Diocese espanhola vende bens patrimoniais para ajudar os pobres

O arcebispo de Valencia (Espanha), cardeal Antonio Cañizares, anunciou a criação da fundação diocesana Pauperibus, através da qual a sua diocese irá vender bens patrimoniais próprios “para aliviar as necessidades dos mais pobres e vulneráveis”, acentuadas pela pandemia de covid-19.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Banco de Tempo, solidariedade e o legado da minha mãe novidade

Pergunto-me ainda porque vivi quatro anos em Lisboa e não conheci um vizinho meu. Vivia num prédio com elevador, diga-se. Cruzava-me com pessoas nesse lugar, mas nunca nos falávamos, um bom dia que fosse… nunca ouvi, e nunca o disse… nunca quebrei o gelo. Tive de o quebrar, agora, dez anos depois, num prédio diferente, quando precisei que um residente em Portugal assinasse uma declaração atestando que um parente meu era seu vizinho. Para se obter um Atestado de Residência, em Portugal, é imperioso que um vizinho o ateste, antes da Junta da Freguesia.

Ihor Homenyuk, morada e conterrâneos

E para que não esqueçamos como é difícil romper a espessa camada do preconceito e da sobranceria nacionalista, não apenas em relação aos trabalhadores da construção civil como Ihor Homenyuk (onde se juntam o preconceito racial com o preconceito de classe), sir Hersch Lauterpacht, o académico de renome mundial, cavaleiro da Ordem do Império Britânico, foi eleito, em 1955, juiz do Tribunal Internacional de Justiça de Haia, “apesar da oposição de alguns que o consideravam insuficientemente britânico”.

O homem que o povo alemão pedia

Porquê escrever, a pretexto de um dia em memória das vítimas do Holocausto, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história? Porque também hoje pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pelo abandono e pelo medo.

Cultura e artes

“Menina e Moça”, os judeus sefarditas e a emanação feminina de Deus

Gritos de espanto e assombro do poeta judeu português, Samuel Usque, face à perseguição e tragédia do seu povo. Dor que transcende o Universo. Atracou em Sepharad – nome judaico dado à Península Ibérica – nos séculos II ou III, numerosa comunidade judaica que aqui se estabeleceu: artesãos, cientistas, comerciantes, escritores, filósofos, juristas, médicos, frequentadores das cortes e conselheiros de reis.

A vida, o sofrimento e Jesus

Dois autores, ambos presbíteros com profundas experiências e preocupações pastorais – Valdés é biblista argentino, Bermejo é especialista na pastoral da saúde em Espanha – oferecem em Peregrinar a Jesus um contributo notável para aprofundar as difíceis e exigentes questões relacionadas com a saúde, o sofrimento e a relação de fé.

O olhar da raposa

Infelizmente, são ainda muitos os lugares deste mundo onde a pena de morte continua a existir e a ser praticada. Sirvam de exemplo estas notícias do Público de sexta, 11 de Dezembro e Domingo 13 de Dezembro: “Trump autoriza onda de execuções como não se via há 124 anos”; “Alfred Bourgeois é o segundo executado em dois dias pela Administração Trump”; “Irão executa jornalista por inspirar protestos de 2017 contra o regime”.

A pegada de religiosidade na obra de João Cutileiro

“Na vasta obra de João Cutileiro, há uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra”, escreve o padre Mário Tavares de Oliveira, cónego da diocese de Évora, num texto que evoca a arte do escultor que morreu no passado dia 5.

Sete Partidas

Angela Merkel

Partilho o último discurso de Ano Novo de Angela Merkel como chanceler alemã. A princípio não gostava muito dela, e desgostei especialmente na época da crise do euro. A rejeição era tal que, há cerca de 15 anos, os meus filhos sentiram necessidade de tomar uma importante decisão pessoal: anunciaram que gostavam muito dos avós “apesar de eles votarem na Angela Merkel”.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This