Nova vaga de crimes violentos na Colômbia matou duas dezenas de jovens em poucos dias

| 20 Ago 20

Jovens. Crimes. Violência, Colômbia

Alguns dos jovens massacrados nos últimos episódios de violência na Colômbia. Foto: Direitos reservados

 

Bispos católicos dizem que não se calam perante os que torturam camponeses, indígenas, afro-colombianos, homens e mulheres, ou os que ameaçam quem foi reintegrado através do processo de paz. E pedem mais medidas ao Governo, para garantir que a esperança dos colombianos não seja destruída “por sangue e fogo”

 

Duas dezenas de jovens entre os 14 e os 25 anos foram assassinados nos últimos dias na Colômbia, no que parece ser uma nova vaga de crimes violentos que estão a enlutar o país, ainda a tentar concretizar um frágil acordo de paz que tentou pôr fim, em Setembro de 2016, a uma guerra civil de mais de décadas e que provocou a morte de pelo menos 260 mil pessoas.

Os casos mais dramáticos ocorreram no sudoeste do país, nos departamentos de Cauca e Nariño e mereceram a viva condenação dos seis bispos católicos da região de Popayán e de largos sectores da sociedade civil colombiana. Os bispos denunciaram a “grave situação de violência e violação dos direitos humanos nos dois departamentos”, noticia a revista espanhola Vida Nueva e apelam a mais medidas do Governo para que o frágil acordo de paz de 2016 não seja posto em causa definitivamente.

O último episódio ocorreu na noite de sábado passado, 15 de Agosto, numa festa em Samaniego, departamento de Nariño: um grupo de quatro homens armados entrou na calçada de Santa Catalina desta cidade atacando com espingardas e armas de curto alcance as pessoas que lá se encontravam e matando oito jovens. Outros cinco foram massacrados na cidade de Cali e há registo de outros episódios.

“Estes factos somam-se às ameaças a indivíduos e comunidades, aos assassinatos de líderes sociais e ex-combatentes das FARC-EP [a guerrilha marxista que combateu no país desde a década de 1960 até 2017], e aos confrontos armados pelo controlo das rotas do tráfico de droga que se verificaram recentemente noutros departamentos do país”, afirmaram os bispos em comunicado referido numa outra notícia da mesma revista.

Um documentário de 2017 do fotógrafo e realizador Tom Laffay dá conta de que, em média, a cada quatro dias morre um líder social, por causa da defesa dos defendem direitos das comunidades e recursos naturais – em cerca de dois anos, entre 2016 e 2017, registaram-se 200 assassinatos de líderes sociais, tendo a maior parte dos crimes permanecido impune (o documentário, falado em castelhano e com legendas em inglês, pode ser visto aqui.)

 

Governo deve fazer mais esforços na protecção das comunidades

No comunicado a propósito das mortes dos últimos dias, os bispos católicos expressam a sua “proximidade e solidariedade com as famílias dos jovens vilmente assassinados nos municípios de Samaniego e noutras regiões do sudoeste da Colômbia”, ao mesmo tempo que manifestam a sua preocupação com o aumento dos actos de violência.

“A morte destes jovens não pode ser vista como um acontecimento isolado”, acrescentam. Elas “são o reflexo de um grave problema social e económico, que se soma à presença de culturas ilícitas, tráfico de droga, minas ilegais, controlo do território e grupos armados fora da lei, que se agrava em pontos-chave das nossas dioceses e que nos últimos dias tem demonstrado um desrespeito pela vida inimaginável”.

Os bispos dizem ainda que se devem “rejeitar todas as formas de violência que fragmentam a construção de um país, respeitando sempre os direitos fundamentais”. Ao mesmo tempo, reafirmam o seu compromisso por um desenvolvimento humano integral e fazem um duplo apelo, começando pelo Estado: o Governo deve “fazer progressos na implementação dos Acordos de Paz” e concentrar “ainda mais esforços para assegurar uma protecção eficaz e cuidados abrangentes para as comunidades” afectadas pela violência, “com investimento social eficaz e planeado que gere oportunidades de vida” e dando prioridade à criação de melhores alternativas para os jovens.

Aos grupos armados, os bispos pedem para que, no meio do conflito, respeitem o direito humanitário internacional e compreendam que a violência só gera mais violência e “não é a solução para as necessidades históricas” da Colômbia.

Críticas e apelos idênticos foram feitos pelo Conselho Nacional para a Paz, Reconciliação e Coexistência, um organismo autónomo dependente da Conferência Episcopal Colombiana. O CNPRC pede ainda que se promova “uma grande campanha para proteger, respeitar e garantir os direitos” das crianças e adolescentes colombianos.

Numa outra declaração, citada igualmente pela Vida Nueva, Luis José Rueda Aparicio, arcebispo de Bogotá, condenou também a “pressão implacável dos grupos armados ilegais contra as comunidades rurais e urbanas, que limitam a liberdade” e geram “uma anti-cultura de morte e medo”.

O arcebispo indigna-se ainda perante a morte violenta dos defensores dos direitos humanos e do processo de paz: “Não podemos ficar calados perante grupos que torturam camponeses, indígenas, afro-colombianos, homens e mulheres. Não podemos permanecer em silêncio perante as ameaças e assassinatos daqueles que foram reintegrados no processo de paz. Não podemos permanecer em silêncio quando forças macabras tentam destruir a esperança dos colombianos por sangue e fogo.”

Rueda Aparício faz um apelo a “um pacto cidadão pela paz, vida e reconciliação” que supere “o medo recíproco” e acrescenta: “Não nos fecharemos em eterna polémica estéril enquanto os mais pobres das nossas regiões e nas periferias das nossas cidades forem abandonados à total indiferença, à morte como notícias que chegam e simplesmente passam.”

 

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