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Novo directório do Vaticano para a catequese recusa ideologia de género, mas admite “complexidade” e “não julga pessoas”

| 29/06/2020

Novo directório do Vaticano para a catequese recusa ideologia de género, mas admite “complexidade” e “não julga pessoas”

by | 29 Jun 20 | Cristianismo, Igreja Católica, Portugal - Religiões, Últimas

Marcha LGBT em São Paulo (Brasil), 2014: a Igreja “não julga pessoas”, mas mantém a sua doutrina tradicional. Foto © Ben Tavener/Wikimedia Commons

 

Um texto que recusa a ideologia de género, considerada uma construção social, embora admita a “complexidade de situações” e afirme que a Igreja “não julga pessoas”; que incentiva a pastoral dos migrantes e o trabalho a favor do meio ambiente; e que favorece o uso das novas tecnologias com uma linguagem em que convirjam a palavra escrita, o som e as imagens. Estas são algumas das linhas principais do novo Directório para a Catequese, o terceiro documento do género em 50 anos, que sublinha o impacto das novas tecnologias e da globalização na transmissão da fé.

“Na Igreja, muitas vezes, é habitual uma comunicação unidireccional: prega-se, ensina-se e apresentam-se sínteses dogmáticas. Além disso, só com um texto escrito é difícil falar aos mais jovens, habituados a uma linguagem que consiste na convergência da palavra escrita, som e imagens”, diz o texto, citado pela agência Ecclesia, quinta-feira passada, 25, dia da sua apresentação no Vaticano.

Depois do Directório Catequístico Geral, de 1971, e do Directório Geral de Catequese, de 1997, este é o terceiro texto orientador dos principais conteúdos que deve conter a catequese católica – substituindo, aliás, o anterior. Pode acrescentar-se ainda que, a 11 de Outubro de 1992, o Papa João Paulo II publicou o Catecismo da Igreja Católica, que tenta fazer uma síntese da doutrina.

O novo directório foi aprovado pelo Papa Francisco e apresentado pelo Conselho Pontifício para uma Nova Evangelização (CPNE). E anima também os diferentes agentes de pastoral a promover “itinerários específicos de educação na fé e na moral cristã, em temas como a vida humana enquanto dom de Deus, o respeito e o desenvolvimento integral da pessoa.

 

Investigação científica “não é moralmente neutral”

No capítulo sobre “algumas questões de bioética”, o documento de 120 páginas (e 480 pontos) reafirma o ensino tradicional da Igreja: o ser humano foi criado homem e mulher e por isso deve ser rejeitada a “ideologia de género” como construção social desvinculada do sexo biológico. Mas admite a complexidade de situações e, por isso, acrescenta que a Igreja “não julga pessoas”, resume o Religión Digital.

O documento acrescenta, no entanto, que a Igreja tem consciência de que, mesmo a partir da fé, a sexualidade não é a apenas um dado físico, mas um valor entregue à pessoa e à sua responsabilidade.

Nesse capítulo, ainda segundo o Religión Digital, o documento admite que os principais temas deste âmbito mudaram nas últimas décadas. E cita: estatuto do embrião humano, procriação medicamente assistida, definição de morte, eutanásia, cuidados paliativos, engenharia genética ou biotecnologia.

A investigação científica e as suas aplicações não são “moralmente neutrais e os critérios de orientação não se podem separar da eficiência técnica, do seu uso ou das ideologias dominantes”. Nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente admissível, acrescenta o texto.

Neste capítulo, ainda de acordo com a mesma fonte, sugere-se que a catequese deve educar para a formação da consciência sobre as perguntas da vida, a partir de quatro elementos fundamentais: Deus como referência inicial e última da vida, desde a sua concepção à morte natural; a pessoa é sempre unidade de corpo e espírito; a ciência está ao serviço da pessoa; e a vida respeita-se em qualquer situação, uma vez que está redimida pelo mistério pascal em Cristo.

 

Digital está a impor nova cultura

No capítulo do digital, o novo Directório diz que ele “não só faz parte das culturas existentes, como se está a impor como uma nova cultura, modificando antes de mais a linguagem, modelando a mentalidade e reelaborando as hierarquias de valores”. Por isso, os catequistas são convidados a aproximar a linguagem das redes digitais e a linguagem religiosa, mas sempre com acompanhamento pessoal que leve “cada jovem a redescobrir o seu projecto pessoal de vida”, cita a Ecclesia.

“Este caminho requer que se passe da solidão, alimentada pelos likes, à realização de projetos pessoais e sociais a realizar em comunidade.” O que exige, admite o texto, “formas inéditas de evangelização” que levem a “acções pastorais globais, tal como é global a cultura digital”.

O novo Directório adverte para os limites e problemas do digital, observando que o processo deve ser colectivo e nunca individual, passando do mundo “isolado das redes sociais para a comunidade eclesial”.

No texto, assume-se ainda a responsabilidade de todos – bispos, padres, religiosos e religiosas – na relação com os pais, padrinhos e com os avós, e assume-se ainda o compromisso de “evitar qualquer género de abuso, seja ele de poder, de consciência, económico ou sexual”.

A versão portuguesa do novo directório da Catequese será apresentado nas Jornadas Nacionais de Catequistas, que deverão decorrer em Outubro, promovidas pelo Secretariado Nacional da Educação Cristã.

 

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