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Teorbas dos Tempos

Prefácio a "Teorbas dos tempos"

Novo livro de Joaquim Félix de Carvalho: Sem a palavra, o que é a voz?

| 01/12/2024

 

Sem a palavra, o que é a voz?
Sem nada para compreender, o som é vazio.
A voz sem a palavra toca o ouvido, mas não edifica o coração.

Agostinho, Sermão para a Natividade de João Batista (PL 38-1328-1329)

 

Teorias dos tempos

Capa do livro, representando esculturas de Rui Chafes na exposição Chegar Sem Partir, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.

Teorbas dos Tempos – Da palavra turbante que remói é o título do novo livro do padre Joaquim Félix de Carvalho, a publicar pela Officium Lectionis nos próximos dias. Este é o primeiro volume de um conjunto de homilias relativas aos tempos fortes da liturgia católica (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa) e também a celebrações como matrimónios, funerais, missas de sétimo dia, etc.

O livro, que inclui vários textos antes publicados pelo autor no 7MARGENS, tem uma estruturação interna que se diferencia dos habituais homiliários e inclui fotografias (a cores e a preto e branco), um haiku por cada uma das homilias e o uso de um QR Code que permite aceder, através dos telemóveis, a conteúdos audiovisuais como filmes, músicas, artigos, obras literárias e de arte, etc.

O autor pretende que este livro seja um “bordão de peregrino” e um companheiro de viagem através da palavra bíblica e do mundo. “Desde o estágio pastoral, como diácono, em Santa Maria Maior, na cidade de Barcelos, que escrevo as homilias dos domingos e dias santos de guarda”, explica o autor. “O mais importante, como assinala o Padre António Vieira, no Sermão da Sexagésima – embora referindo-se à pregação –, é que a mensagem passe. Por conseguinte, decidi que seria melhor publicar as homilias feitas desde o período da pandemia de covid-19, quando se retomaram as celebrações, com a participação física das pessoas, e o final do transato ano litúrgico, que terminou em novembro de 2023.

O 7MARGENS publica a seguir o prefácio da obra, da autoria de Alfredo Teixeira, antropólogo e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. 

 

Sem a palavra, o que é a voz?

A prática da etnografia ensinou-me que a homilia é um laboratório instigante para identificar várias regiões de transformação na eclesiosfera católica. A partir de uma leitura estritamente política, pode observar-se, por um lado, que a homilia é um discurso fortemente ritualizado, uma vez que as suas qualidades se definem numa estreita conexão com a sintaxe litúrgica; por outro, esse discurso define-se, em primeira linha, pelo estatuto do locutor, na sua condição de ministro «autorizado». Compreendido a partir desta aridez estruturalista, esse ato de locução seria essencialmente uma rubrica, numa sequência ritual, ao serviço de estratégias de exibição da legitimidade ou de controlo do crer e do fazer. Esta leitura não é inútil, tendo em conta que essa forma discursiva é um ato reservado aos que têm essa competência institucional – serve de ilustração toda essa gama de advertências normativas acerca o ato de pregar na liturgia por parte fiéis leigos, protegido e desqualificado pelo regime da excecionalidade e pela eventualidade da urgência (cf. Kozlowski 2012).

Mas a mesma etnografia assinalou que a importância da homilia, na receção do II Concílio do Vaticano, se agigantou. Para além da ordem das legitimidades, esse ato de palavra – não já numa perspetiva política, mas segundo um enfoque pragmático – apresenta-se como um lugar privilegiado de construção de alianças. Tornou-se possível mapear a eclesiosfera católica a partir dos regimes de discipulado que se recompõem em torno dos diferentes estilos homiléticos. Essas alianças podem ser muito diversas, de acordo com as mundividências em jogo. São ainda escassos os estudos de terreno sobre a homilia no contexto das comunidades católicas. Mas são suficientes para perceber como se tornam um lugar crucial de identificação (cf. Teixeira 2005). Grande parte dos tratados sobre a homilia são ainda «altifalantes» monofónicos. Dão conta de uma compreensão sobre a homilia que raramente incorpora a perspetiva dos que escutam.

No início dos processos de receção do II Concílio do Vaticano, Gelineau descrevia a homilia como uma forma plena de pregação (cf. Gelineau 1965). Plena, porque nela se declinam as funções estruturantes da pregação: anúncio (kerygma), ensino (didaskalia), exortação (paraklesis) e comunhão (mystagogia). A partir desta perspetiva, a homilia dá um «corpo» à Palavra de Deus, tornando-a falada, compreensível, praticável, acessível e desejada. Parece pedir muito a um discurso. Talvez seja outra forma de descrever o hipertexto. A oportunidade de ler coletâneas como esta, de Joaquim Félix de Carvalho, é favorável à descoberta da riqueza própria deste discurso sui generis. Aceder a um conjunto de homilias escritas é descobrir novas possibilidades percetivas. A passagem da oralidade à escrita permite uma dilatação do acontecimento – distanciando-se do dispositivo situacional, dilata-se o tempo da interpretação. Esse alongamento ou essa lentificação do tempo favorecem a escavação do sentido, que acompanha o regime de temporalidade forte da liturgia. Neste caso, a fixação não oprime, antes liberta, na medida em que esse ato de palavra tem a possibilidade de continuar a liturgia por outros meios, tornando-se, ao mesmo tempo, artefacto literário e teológico – como o foi, em tantos momentos da história do cristianismo (cf. Giraud 2019).

No entanto, essa passagem à escrita não destitui o discurso das notas próprias do seu habitat original. Essa reverberação do ofício celebrante transporta o sopro da oralidade. Essa «oralitura» recupera a voz para o centro da escrita (cf. Tcheuyap e Mitsch 2001).[1]  Esse processo não se traduz, nas homilias de Joaquim Félix de Carvalho, numa simplificação lexical ou no imediatismo dos recursos estilísticos. Diríamos que essa oralidade se deixa transportar na respiração comunitária dos textos. Nestes artefactos literários, ouvimos a voz do dizedor, a sua voz «co-movida» com o mundo, o seu diálogo com uma comunidade de fé.

Não há leitura sem interpretação, nem interpretação sem sujeito. Roland Barthes recorda-nos que é vão o empreendimento de tudo dizer sobre um texto (cf. Barthes 1972). Por isso, na leitura de Ricœur, o problema hermenêutico está inscrito na genética do cristianismo, uma vez que nasce de uma proclamação: o anúncio do Reino sob o signo da proximidade. Para que esse evangelho seja esse anúncio de proximidade, a narrativa exige que o sujeito se implique no discurso e se torne, ele próprio, próximo do seu interlocutor (cf. Ricœur 1986). Teólogos como Bernard Sesboüé ou Paul Beauchamp sublinharam um conjunto amplo de afinidades entre a «história da salvação» e a narratividade (cf. Sesboüé 1991; Beauchamp 1992). Podemos dizer algo de similar sobre a discursividade própria da homilia. Estes atos de palavra implicam o Eu e o Tu dialogantes e, ainda, o Ele de quem se fala, num jogo de liberdades. Neles, os enunciados têm tanta importância quanto a enunciação.

No hebraico bíblico, um só lexema – dabar – reúne os sentidos de palavra e acontecimento. A comunicação de Deus desvela-se nas dobras da nossa historicidade. No labor homilético, recuperando um conceito de Habermas, descobrimos um incessante processo de «linguistificação» do acontecimento da fé (cf. Bannwart Júnior 2013). O nosso vizinho, o fenomenólogo catalão Lluis Duch, preferiu o termo empalabrar para nomear esse ato humano de «pôr-em-linguagem» (cf. Mèlich, Moreta, e Vega 2011). Ler as homilias de Joaquim Félix de Carvalho é, certamente, descobrir um modo pessoal, mas partilhado, de «empalavrar» o mundo. Esse exercício toma o chão da singularidade cristã, mas oferece-se no plano de uma universalidade tangencial que visa a transformação. Qualquer leitura será vã sem a abertura à metamorfose. Esta é uma porta decisiva para a leitura desta coletânea de homilias de Joaquim Félix de Carvalho.

Teorbas dos Tempos

Pormenor da capa do livro. Foto © Joaquim Félix de Carvalho.

 

Estas homilias são intrigantes. As linguagens da fé, na sua criatividade própria, abrem uma brecha inesperada no mundo da vida. Podem ser vistas como uma palavra em contramão que suscita perguntas – por vezes ainda não enunciadas – ou que interpreta os enigmas da nossa vida de forma inesperada – são, por isso, «intrigantes». Intrigantes também porque elas são o rasto desse processo de inscrição das trajetórias de vida numa intriga: a história de liberdade e desafio que Deus quis fazer com a humanidade.  Nesse sentido, a homilia pode ter qualidades similares às que Ricœur atribuiu à narrativa: como uma operação de configuração, mise en intrigue, capaz de operar a ligação de fragmentos díspares, agenciando acontecimentos numa história com sentido (cf. Calame 2021). Esse ato de «intriga» encadeia fatores muito diferentes na direção de um significado orientador, mas não totalizante.

Estas homilias são tantas vezes parabólicas. As origens gregas – parabolé – do termo «palavra», convocam práticas e regiões de significado muito sugestivas: o que é posto de parte; uma história que fala de outra coisa para chegar ao cerne da questão; uma história que não está acabada para poder ser continuada; uma narrativa que não se assemelha à vida para dela melhor falar; uma história que tem de ser falada, para que a comunidade a realize. Assim, a homilia só pode aspirar a ser uma metáfora viva – ou seja, na senda de Ricœur, esse estranhamento, essa passagem entre «objetos» heteróclitos produz novos sentidos (cf. Ricœur 1994). Sabemos de tantas homilias que são metáforas mortas (tantos «pés» e «braços» de cadeiras). Na voragem da doutrinação, do código estabelecido, a palavra perde a sua vitalidade poética, confundindo a exterioridade das coisas com a vitalidade do que as habita, sem qualquer respiração que alimente as passagens entre o dito e o vivido, entre o ouvido e sentido. Esse é o tempo em que a homilia se torna uma língua morta – dizemos de uma língua que é morta quando se mostra incapaz de incorporar novos acontecimentos, novas significações, outras palavras vivas, quando se revela inapta para acolher novos falantes. O seu carácter inerte não é favorável à hospitalidade.

Estas homilias são «deslocações». A discursividade homilética exige o deslocamento do locutor, a peregrinação para os lugares onde se entreveem os «sinais dos tempos». Nesse desalojamento, o locutor toma a direção do auditório, lugar onde o Espírito do Ressuscitado precede toda a palavra. Assim, a homilia só pode ser, também, um ato de escuta da mundanidade de todos os outros peregrinos, numa aliança pela palavra. Mesmo se a mise-en-scène se abeira do monólogo, a natureza da homilia é dialógica, no sentido baktiniano – o discurso produzido pelo pregador responde a uma situação, recolhendo sob o modo de ressonância todo potencial criativo do vocabulário, das linguagens, das aspirações, das feridas, das esperanças da assembleia. A Palavra de Deus vive, pois, no tecido da pregação. Cada exercício de contextualização torna-se um lugar de encarnação, ou seja, toma corpo com a história. Em numerosos documentos do período patrístico, encontramos alusões explícitas aos aplausos e exclamações que acompanhavam a pregação litúrgica (cf. Olivar 1982). Talvez essa notícia nos espante, hoje, habituados que estamos às nossas liturgias de mármore. No entanto, encontramos essas manifestações, por exemplo, no rito zairense, umas das concretizações mais expressivas da receção litúrgica do II Concílio do Vaticano (cf. Kabongo 2008) – com características diversas, conhecemos, também, os resultados desse diálogo, num registo de espontaneidade, no contexto do culto das Igrejas evangélicas. Esse jogo de sonoridades foi lido, por grandes pregadores como João Crisóstomo ou Agostinho, como uma tradução da disposição da assembleia para tornar ativa a Palavra proclamada.

Estas homilias são «competentes». O diálogo que antes se sublinhava pode ser entendido como uma competência especificamente cristã. Devemos a André Fossion a recuperação da noção de competência para uma teologia da fé (cf. Fossion 2010). Na sua proposta, a noção de competência diz respeito à gestão inventiva e responsável de contextos englobantes. Distingue-se assim de expertise, que diz respeito ao domínio de questões especializadas. Nesta associação, Fossion recorda que o termo competentes identificava os catecúmenos na antiguidade cristã, descrevendo-os com aqueles que «desejavam ardentemente e em conjunto». Nas homilias de Joaquim Félix de Carvalho descobre-se essa exercitação da fé como competência para ligar coisas heterogéneas, edificar lugares de hospitalidade, traduzir as novas linguagens, sinalizar urgências, tocar as feridas com o lodo do inaudito. Não espanta, pois, que o seu discurso se aproxime tão frequentemente do pluriverso das linguagens artísticas. Assim, juntas num livro, as suas homilias constituem-se como um vasto átrio onde uma multidão de sons, textos, gestos, imagens, movimentos assinalam uma fenda espiritual no mundo.  O recurso à arte, para dizer Deus, não é aqui um exercício ilustrativo ou uma retórica preparatória ou instrumental. Os artefactos recolhidos no discurso homilético, incluindo as suas fotografias ou a sua arte de embutimento poético, revelam a coragem de perseguir, longe da mesmice dos lugares esperados, fora dos cânones celebrados da arte sacra, as dores de parto de um mundo em transformação. Os artistas, que o Joaquim Félix de Carvalho acolhe como interlocutores, são expressão de uma passagem desafiante para o cristianismo hodierno – a passagem da figura de um Deus necessário para a parábola de um Deus desejável.

Reconheçamos, hoje a dicção de Deus é um desafio com novas fronteiras. Joaquim Félix de Carvalho guarda aquela sageza bíblica acerca da nomeação de Deus. Na sua parenética descobre-se, umas vezes, a abertura ao léxico plural de Deus; outras, o falar indeferido, reconhecendo que, para dele falar, é necessário aceder ao exílio do impronunciável. Nessa via, a homilia só pode ser «salmodia», uma vez que se trata de dizer o enigma que nos habita no mistério que nos excede, de acolher a Palavra nas nossas palavras, de aceitar ser o bordão que com Deus vibra, na teorba da criação.

Referências

Bannwart Júnior, Clodomiro José. 2013. «Perspectiva evolucionária na teoria social crítica de Habermas». Trans/Form/Ação 36: 67–86. https://doi.org/10.1590/S0101-31732013000400006.
Barthes, Roland. 1972. Le Degré zéro de l’écriture. Points. Littérature 35. Paris: Éditions du Seuil.
Beauchamp, Paul. 1992. Le récit, la lettre et le corps: essais bibliques. Nouv. éd. augm. Cogitatio fidei 114. Paris: les Éd. du Cerf.
Calame, Claude. 2021. «Mise en intrigue, énonciation, pragmatique.: L’identité narrative à l’exemple d’un poème de Pindare». Cahiers de Narratologie, n.o 39. https://doi.org/10.4000/narratologie.11943.
Fossion, André. 2010. Dieu désirable: proposition de la foi et initiation. Pédagogie catéchétique 25. Bruxelles: Lumen Vitae.
Gelineau, Joseph. 1965. «L’homélie, forme plénière de la prédication». La Maison-Dieu 82: 29–42.
Giraud, Cédric. 2019. «The Literary Genres of “Theology”». Em A Companion to Twelfth-Century Schools, por Ignacio Duran, editado por Cédric Giraud, 250–71. Brill. https://doi.org/10.1163/9789004410138_013.
Kabongo, Édouard Flory. 2008. Le rite zaïrois: son impact sur l’inculturation du catholicisme en Afrique. Bruxelles ; Oxford: P. Lang.
Kozlowski, John Chrysostom. 2012. «The Laity and Liturgical Preaching: What Are the Necessary Theological and Canonical Requirements?» The Jurist: Studies in Church Law and Ministry 72 (1): 240–69. https://doi.org/10.1353/jur.2012.0011.
Mèlich, Joan-Carles, Ignasi Moreta, e Amador Vega, eds. 2011. Empalabrar el mundo: el pensamiento antropológico de Lluís Duch. Fragmentos 7. Barcelona: Fragmenta Editorial.
Olivar, Alexandre. 1982. «Sobre las ovaciones tributadas a los antiguos predicadores cristianos». Didaskalia 12, n.º 1: 13-43. https://doi.org/10.34632/DIDASKALIA.1982.817.
Ricœur, Paul. 1986. Du texte à l’action. Collection Esprit 2. Paris: Editions du Seuil.
———. 1994. La métaphore vive. Repr. 1975. Paris: Éd. du Seuil.
Sesboüé, Bernard. 1991. Jésus-Christ, l’unique médiateur: essai sur la rédemption et le salut proposition de sotériologie narrative. Jésus et Jésus-Christ 51. Paris: Desclée.
Tcheuyap, Alexie, e R. H. Mitsch. 2001. «Creolist Mystification: Oral Writing in the Works of Patrick Chamoiseau and Simone Schwarz-Bart». Research in African Literatures 32, n.º 4: 44–60.
Teixeira, Alfredo. 2005. «Entre a exigência e a ternura»: uma antropologia do habitat institucional católico. Prior Velho: Paulinas.

[1] O escritor crioulo Patrick Chamoiseau investe no termo «oralitura» (oraliture) um particular sentido, sinalizando que se trata de oralidade portadora de uma cultura.

 

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