Novo Pacto das Catacumbas quer mais protagonismo aos jovens, leigos e mulheres e defende Casa Comum (documento integral)

| 20 Out 19

Compromissos em reconhecer os ministérios já existentes, em dar mais relevo às mulheres que já dirigem comunidades cristãs e mais protagonismo aos jovens. Ao mesmo tempo, defende uma atitude solidária e de defesa da floresta amazónica e dos povos indígenas, com os signatários a comprometer-se a reduzir resíduos e uso de plásticos e a usar transportes públicos sempre que possível. Estes são alguns dos compromissos dos bispos que assinaram neste domingo um novo Pacto das Catacumbas, 54 anos depois do primeiro.

Claúdio Hummes, arcebispo emérito de S. Paulo (Brasil), presidindo à missa de assinatura do Pacto das Catacumbas pela Casa Comum, 20 de Outubro de 2019, Catacumba de Santa Domitila, Roma. Foto extraída do Twitter de Austen Ivereigh (@austeni)

“Nós, participantes do Sínodo Pan-Amazónico, partilhamos a alegria de viver entre numerosos povos indígenas, quilombos, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades deste imenso território do planeta. Com eles, experimentamos a força do Evangelho que actua nos pequenos. O encontro com esses povos desafia-nos e convida-nos a uma vida mais simples de partilha e gratuidade.”

É com esta afirmação de comunhão com os povos que servem que 42 bispos da região amazónica iniciam o “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum, por uma Igreja com rosto amazónico, pobre e servidora, profética e samaritana”. O documento foi assinado na manhã deste domingo, 20 de Outubro, em Roma, depois de uma missa presidida pelo cardeal Cláudio Hummes na Catacumba de Santa Domitila, um dos cemitérios dos primeiros séculos da era cristã. Hummes foi o mesmo que, no final do conclave de 2013, disse ao então cardeal Jorge Mario Bergoglio, acabado de ser eleito Papa: “Não te esqueças dos pobres.” Por causa disso, Bergoglio escolheu o nome de Francisco.

Hummes, 85 anos, provém da Ordem dos Frades Menores (franciscanos) e foi arcebispo de São Paulo e prefeito da Congregação para o Clero. Na sua homilia, afirmou que aquele era um momento comovedor e significativo, num lugar que foi refúgio dos cristãos perseguidos e de martírio, “uma terra santa” inspiradora. Relator do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que decorre em Roma desde dia 6 e se conclui no próximo domingo, Hummes apelou ao anúncio do Evangelho na Amazónia, também aos que se opõem ao projecto de Deus e servem exclusivamente ao dinheiro, de modo a que se convertam, como relata o ReligionDigital.

Significativamente, Cláudio Hummes usava na missa a estola que pertenceu a D. Hélder Câmara que, no final do II Concílio do Vaticano, dinamizou a assinatura do Pacto das Catacumbas, o documento que impulsionou a “opção preferencial pelos pobres” na Igreja Católica da América Latina e que se tornou o documento inspirador para este novo Pacto. No texto de há 54 anos, os bispos que o assinaram – além dos 40 iniciais, outros 500 o subscreveram nos dias seguintes – comprometiam-se a renunciar à propriedade pessoal, a viver em casas semelhantes às do seu povo ou a ser chamados com títulos “que signifiquem a grandeza e o poder”, como eminência, excelência ou monsenhor.

Hélder Câmnara, bispo de Olinda e Recife, grande impulsionador do Pacto das Catacumbas de 1965. Foto © Mr.Nostalgic/Creative Commons

 
O Papa “sabia de tudo”

O facto de ter sido o cardeal Hummes a presidir à missa e de ele ser o relator do Sínodo dos Bispos significa que o Papa Francisco estará ao corrente da iniciativa e que não se terá oposto a ela, bem pelo contrário. Ao Crux, o cardeal peruano Pedro Ricardo Barreto disse que o Papa “sabe de tudo e foi devidamente informado”. No final, Hummes disse aos jornalistas que Francisco não tinha sido “formalmente” informado, mas que isso aconteceria rapidamente.

Assinado também por leigos, incluindo mulheres, o documento faz memória, no início, do texto rubricado por 40 bispos a 16 de Novembro de 1965, no mesmo lugar: “Lembramos com gratidão os bispos que, na Catacumba de Santa Domitila, no final do II Concílio do Vaticano, assinaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre.”

O novo Pacto recorda também os mártires das comunidades de base, dos movimentos pastorais e populares, os líderes indígenas, missionárias e missionários, leigos, padres e bispos “que derramaram o seu sangue por causa dessa opção pelos pobres, por defenderem a vida e lutarem pela salvaguarda da nossa Casa Comum”. E acrescenta: “Ao agradecimento pelo seu heroísmo, juntamos a nossa decisão de continuar a sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe perante as agressões que hoje devastam o território amazónico, ameaçado pela violência de um sistema económico predador e consumista.”

Quinze compromissos são depois assumidos pelos bispos, começando pelo da defesa da floresta amazónica e pelo reconhecimento de que ninguém é dono “da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra, hóspedes e peregrinos, chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras”.

A renovação da opção preferencial pelos pobres e especialmente pelos povos originários da Amazónia, garantindo o seu direito a serem “protagonistas na sociedade e na Igreja”, bem como o abandono de qualquer “mentalidade e atitude colonialistas”, antes valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística, são outros dos compromissos. A par da denúncia de “todas as formas de violência e agressão contra a autonomia e os direitos dos povos indígenas, a sua identidade, os seus territórios e as suas formas de vida”.

 

Reconhecer ministérios, abrir espaço aos jovens e às mulheres

O acolhimento da diversidade, o caminho com comunidades cristãs de outras igrejas e pessoas de outras religiões ou de boa vontade são também enunciados. Neste processo, os bispos comprometem-se ainda a favorecer uma “via sinodal” que faça com que todos os baptizados tenham voz em tudo o que lhes diz respeito.

É “urgente” reconhecer os “ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, realizados por agentes pastorais, catequistas indígenas, ministras e ministros da Palavra”, tal como o serviço que muitas mulheres já prestam nas comunidades cristãs, diz ainda o texto do Pacto. Tudo para que se passe “de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, garantindo que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia se torne efectivo em todas as comunidades”.

Finalmente, os bispos comprometem-se a procurar novos caminhos para a acção da Igreja nas cidades, dando “protagonismo” a leigos e jovens; a “assumir, perante a avalanche do consumismo, um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com quem tem pouco ou nada”. Isto significa concretamente “reduzir a produção de resíduos e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos e usar o transporte público sempre que possível”. E também o colocar-se ao lado dos que são perseguidos por causa da “denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhimento e apoio aos migrantes e refugiados”.

A assinatura do Pacto foi objecto de críticas, no entanto, por parte de sectores que habitualmente se opõem ao actual Papa. No The American Spectator, George Neumayr fala dos “bispos socialistas” que assinaram o Pacto há 54 anos e que queriam “politizar a Igreja”. O documento tinha um “odor a comunismo” e o quer o novo Pacto quer o Sínodo sobre a Amazónia não fazem mais do que unir a Igreja Católica e as Nações Unidas contra o Brasil e os outros países amazónicos. Já na GloriaTV, escreve-se que o primeiro Pacto das Catacumbas promoveu a teologia da libertação marxista, enquanto o novo está focado no “alarmismo climático”.

 

É o seguinte o texto completo do Pacto, numa tradução da responsabilidade do 7MARGENS, feita a partir da versão castelhana divulgada no ReligionDigital:

 

Pacto das Catacumbas pela Casa Comum, por uma Igreja com rosto amazónico, pobre e servidora, profética e samaritana

 

Nós, participantes do Sínodo Pan-Amazónico, partilhamos a alegria de viver entre numerosos povos indígenas, quilombos, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades deste imenso território do planeta. Com eles, experimentamos a força do Evangelho que actua nos pequenos. O encontro com esses povos desafia-nos e convida-nos a uma vida mais simples de partilha e gratuidade. Influenciados pela escuta dos seus gritos e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco:

“Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e esperam o conforto libertador do Evangelho, a carícia amorosa da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos. ”

Lembramos com gratidão os bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, no final do II Concílio do Vaticano, assinaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre. Lembramos com reverência todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, dos movimentos pastorais e populares; líderes indígenas, missionárias e missionários, leigos, padres e bispos que derramaram o seu sangue por causa dessa opção pelos pobres, por defenderem a vida e lutarem pela salvaguarda da nossa Casa Comum. Ao agradecimento pelo seu heroísmo, juntamos a nossa decisão de continuar a sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe perante as agressões que hoje devastam o território amazónico, ameaçado pela violência de um sistema económico predador e consumista.

Diante da Santíssima Trindade, as nossas Igrejas particulares, as Igrejas da América Latina e do Caribe e as que são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão de mártires de Roma, América Latina e especialmente da nossa Amazónia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo e comprometemo-nos pessoal e comunitariamente com o seguinte:

  1. Assumir, perante a ameaça extrema do aquecimento global e do esgotamento dos recursos naturais, um compromisso de defender a floresta amazónica nos nossos territórios e com as nossas atitudes. Dela provêm os presentes da água para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e a regulação do clima global, uma biodiversidade incalculável e uma rica sociodiversidade para a humanidade e toda a Terra.
  2. Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Génesis 2, 7-8), hóspedes e peregrinos (1 Pedro 1, 17b e 1 Pedro 2, 11), chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Génesis 1, 26). Portanto, comprometemo-nos a uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o género humano e toda a criação, porque todos os seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Génesis 1, 2).
  3. Acolher e renovar todos os dias a aliança de Deus com tudo o que foi criado: “Pela minha parte, estabelecerei a minha aliança contigo e com a tua descendência, com todos os seres vivos que estão contigo, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que saíram da arca contigo” (Génesis 9, 9-10; Génesis 9, 12-17).
  4. Renovar nas nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, especialmente pelos povos originários e, juntamente com eles, garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar as suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que eles devem ser respeitados local e globalmente e, consequentemente, incentivar, por todos os meios ao nosso alcance, que eles sejam acolhidos em pé de igualdade no concerto mundial de outros povos e culturas.
  5. Abandonar, em consequência, nas nossas paróquias, dioceses e grupos todo o tipo de mentalidade e atitude colonialistas, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística, num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.
  6. Denunciar todas as formas de violência e agressão contra a autonomia e os direitos dos povos indígenas, a sua identidade, os seus territórios e as suas formas de vida.
  7. Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, acolhendo o outro e o diferente, como aconteceu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós sabeis que não é permitido a um judeu ter contacto com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Mas Deus mostrou-me que não se deve chamar profano ou impuro a homem algum.” (Actos 10, 28).
  8. Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com outras religiões e pessoas de boa vontade, em solidariedade com os povos originários, os pobres e os pequenos, em defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum.
  9. Estabelecer nas nossas igrejas particulares uma forma de vida sinodal, onde os representantes dos povos originários, missionários, leigos, em razão do seu batismo e em comunhão com os seus pastores, tenham voz nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim, em tudo o que lhes cabe no governo das comunidades.
  10. Comprometermo-nos com o reconhecimento urgente dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, realizados por agentes pastorais, catequistas indígenas, ministras e ministros da Palavra, valorizando especialmente sua atenção aos mais vulneráveis ​​e excluídos.
  11. Tornar efectivo nas comunidades que nos confiaram a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, garantindo que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa da Eucaristia se torne efectivo em todas as comunidades.
  12. Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazónia e procurar consolidá-las com um ministério apropriado de mulheres líderes de comunidade.
  13. Buscar novos caminhos de acção pastoral nas cidades em que trabalhamos, com o protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e migrantes, trabalhadores e desempregados, estudantes, educadores, investigadores e também ao mundo da cultura e da comunicação .
  14. Assumir, perante a avalanche do consumismo, um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com quem tem pouco ou nada; reduzir a produção de resíduos e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos e usar o transporte público sempre que possível.
  15. Colocarmo-nos ao lado dos que são perseguidos pelo serviço profético de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhimento e apoio aos migrantes e refugiados. Cultivar verdadeiras amizades com os pobres, visitar os mais simples e doentes, exercendo o ministério da escuta, do consolo e do apoio que traz alento e renova a esperança.

 

Conscientes das nossas debilidades, da nossa pobreza e pequenez perante desafios tão grandes e sérios, encomendamo-nos à oração da Igreja. Que as nossas comunidades eclesiais, sobretudo, nos ajudem com a sua intercessão, afecto no Senhor e, quando necessário, com a caridade da correcção fraterna.

Acolhemos de coração aberto o convite do cardeal Hummes a deixarmo-nos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no nosso regresso a nossas igrejas:

“Deixem-se envolver pelo manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazónia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas antes a misericórdia perante o clamor dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, assim como uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e pede-nos que sejamos os que servem a mesa.”

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um acto de amor cósmico”. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando é realizada no pequeno altar de uma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certa forma, no altar do mundo.” A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus regressa a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação tende à divinização, às núpcias sagradas, à unificação com o próprio Criador”. “Por esta razão, a Eucaristia é também uma fonte de luz e motivação para as nossas preocupações com o meio ambiente e leva-nos a ser guardiães de toda a criação.”

Catacumba de Santa Domitila

Roma, 20 de Outubro de 2019

 

 

foto dom Hélder

<p style=”font-size: 0.9rem;font-style: italic;”><a href=”https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=73574861″>”File:Dom Helder Camara zwaait naar de mensen, Bestanddeelnr 931-7341.jpg”</a><span>by <a href=”https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Mr.Nostalgic”>Mr.Nostalgic</a></span> is licensed under <a href=”https://creativecommons.org/licenses/cc0/1.0/?ref=ccsearch&atype=html” style=”margin-right: 5px;”>CC0 1.0</a><a href=”https://creativecommons.org/licenses/cc0/1.0/?ref=ccsearch&atype=html” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer” style=”display: inline-block;white-space: none;opacity: .7;margin-top: 2px;margin-left: 3px;height: 22px !important;”><img style=”height: inherit;margin-right: 3px;display: inline-block;” src=”https://search.creativecommons.org/static/img/cc_icon.svg” /><img style=”height: inherit;margin-right: 3px;display: inline-block;” src=”https://search.creativecommons.org/static/img/cc-cc0_icon.svg” /></a></p>

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