Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

| 29 Set 2020

representantes CEC e CCME na comissao europeia, Foto CMI

Recebidos por Vangelis Demiris, do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs defenderam que que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Europeia. Foto: CMI.

 

Depois de terem emitido um comunicado em que diziam “esperar melhor da Europa e dos seus líderes” em relação à política de acolhimento de migrantes e refugiados, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e a Comissão das Igrejas para os Migrantes na Europa (CCME) fizeram questão de entregar o texto em mãos, na passada sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Recebidos por Vangelis Demiris, membro do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs em todo o mundo disseram acreditar que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Europeia a 23 de setembro.

A declaração, assinada também pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, foi entregue por Jørgen Skov Sørensen, secretário-geral da CEC, e Torsten Moritz, secretário-geral da CCME, ao responsável pelo diálogo com as igrejas. Moritz aproveitou o encontro com Demiris para informar que se têm multiplicado as reações dos representantes das Igrejas em toda a Europa ao novo pacto, nomeadamente da parte daqueles que já receberam pessoas em busca de asilo, patrocinaram corredores humanitários, resgataram pessoas de afogamento e, mais recentemente, intervieram para ajudar após os incêndios no acampamento de Moria. “Alguns são ex-refugiados”, disse Moritz, citado no site da CEC. “Muitos deles expressaram um sentimento de constrangimento por serem europeus neste momento.”

“No texto do Pacto de Migração da UE, reconhecemos as boas intenções gerais e algumas ideias promissoras”, afirmou o representante da CCME. “No entanto, o foco geral nas fronteiras, procedimentos nas fronteiras, retorno e cooperação com governos duvidosos em países terceiros é muito preocupante”, acrescentou.

Uma preocupação partilhada pela Comissão dos Episcopados Católicos da Europa (Comece), que, nesse mesmo dia, emitiu um comunicado sobre a adoção do novo pacto proposto pela Comissão Europeia, onde pedia uma resposta mais “solidária e responsável” para os refugiados.

Os bispos católicos europeus saúdam a iniciativa da Comissão Europeia de estabelecer “um novo e abrangente quadro com o objetivo de criar um ambiente justo e um mecanismo previsível de gestão da migração que reconstrua a confiança entre os Estados-Membros”, mas lembram que o essencial é dar prioridade “à proteção da dignidade humana e à promoção do bem comum”, reconhecendo migrantes e refugiados como “pessoas com dignidade e direitos fundamentais, e não como números” e resolver as “disfuncionalidades” dos atuais sistemas de migração e asilo.

 

ONG e Papa unem-se aos apelos
people not walls entrega carta refugiados, foto Twitter Pat Gaffney

Os representantes da People Not Walls (Pessoas, não muros) apelaram aos governos britânico e francês para “investir na segurança e bem-estar dos seres humanos nas fronteiras”. Foto: Twitter de Pat Gaffney

 

Também na passada sexta-feira, a Organização Não Governamental (ONG) People Not Walls (Pesoas, não muros) tentou entregar uma carta nos gabinetes dos ministros do Interior do Reino Unido e de França, Priti Patel e Gerald Darmanin, respetivamente, pedindo-lhes que “trabalhem juntos, não para construir mais muros, ou defesas, mas para investir na segurança e bem-estar dos seres humanos nas fronteiras”.

A ONG, que se referia em particular à situação dos milhares de migrantes que se encontram na região de Calais, no norte de França, em condições desumanas, e que pretendem requerer asilo no Reino Unido, não teve, no entanto, permissão para entregar a carta no ministério britânico. “Disseram-nos abruptamente à porta que só poderiam aceitar a entrega se fôssemos acompanhados de um solicitador”, explicou Barbara Kentish, coordenadora interina da instituição, citada pelo Novena News. “Esta recusa foi totalmente inesperada e deixa-nos a pensar que ameaça poderiam representar duas mulheres e três membros do clero em plena luz do dia”.

Este domingo, 27 de setembro, data em que se assinalou o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, o Papa Francisco voltou a pedir a todos os fiéis que rezassem por aqueles que foram forçados a fugir das suas casas.

No final do seu discurso, após a oração do Angelus, Francisco saudou em especial um grupo de cerca de 50 migrantes e refugiados que se encontravam na Praça de São Pedro, apesar da forte chuva que caía, lembrando que , tal como os pais de Jesus, os migrantes, refugiados e deslocados internos, foram também forçados a fugir.

 

Quase 130 migrantes mortos no mar no espaço de uma semana

Os apelos do Papa e de inúmeras instituições surgem no final de uma semana particularmente representativa do drama vivido pelos migrantes. Só nos últimos sete dias, quase 130 pessoas que viajavam da Líbia para a Europa morreram, na sequência de naufrágios dos barcos em que seguiam.

De acordo com o jornal italiano Avvenire, um navio de migrantes naufragou no passado dia 21 de setembro, causando a morte de 111 pessoas. Apenas nove passageiros sobreviveram graças a um barco de pesca que os encontrou no mar alguns dias depois.

Cerca de 120 migrantes que foram levados de volta para a Líbia na semana passada disseram a representantes da Organização Internacional para as Migrações que um outro incidente ocorreu entre a noite de sexta-feira, 25, e a manhã de sábado, 26, matando pelo menos mais 15 pessoas.

“Não se trata de estatísticas, trata-se de pessoas reais!”, lembrava o Papa na sua mensagem para o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados. “Quase todos os dias, a televisão e os jornais veiculam notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e de outros perigos graves, em busca de segurança e uma vida digna para eles e para as suas famílias”, afirmava, defendendo que, “nos rostos dos famintos, dos sedentos, dos nus, dos enfermos, dos estranhos e dos prisioneiros, somos chamados a ver a face de Cristo que nos implora por ajuda”. E, assim, “se pudermos reconhecê-lo naqueles rostos, seremos nós que lhe agradeceremos por neles poder conhecê-lo, amá-lo e servi-lo”.

 

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