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Abelardo de la Espriella, novo Presidente da Colômbia. Foto FB
O novo Presidente colombiano surge como uma síntese de várias correntes da nova direita latino-americana. Imagem reproduzida a partir das redes sociais de De la Espriella.

Eleições na Colômbia

Novos ventos políticos na América Latina levantam desafios à democracia, aos direitos humanos e às Igrejas cristãs

| 26/06/2026

A eleição de Abelardo de la Espriella para a presidência da Colômbia, confirmada após uma das disputas mais renhidas da história recente do país, representa mais do que uma simples alternância de poder. Para vários analistas, trata-se de mais um sinal de mudança de ciclo político na América Latina, marcando o enfraquecimento da chamada “nova Onda Rosa” e reforçando a presença de lideranças de direita radical no continente, que reivindicam uma identidade cristã, apesar de muitas das suas propostas serem apontadas por diversos setores das Igrejas como dificilmente conciliáveis com valores como a dignidade humana, a justiça social, a paz e o cuidado da criação.

Segundo uma análise divulgada pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), a vitória de De la Espriella deve ser lida no contexto de uma transformação regional mais ampla. Depois de uma década marcada pela eleição de governos progressistas em países como México, Argentina, Bolívia, Honduras, Chile e Colômbia, assiste-se agora ao fortalecimento de projetos políticos que prometem ordem, segurança e liberalização económica, seguindo exemplos como os de Javier Milei, na Argentina, ou Daniel Noboa, no Equador.

Na Colômbia, o resultado assume um significado particular. Gustavo Petro, eleito em 2022 como o primeiro presidente de esquerda do país, procurou afirmar um programa de reformas sociais, transição energética e negociação com grupos armados. Contudo, a persistência da violência, a degradação das contas públicas e a insatisfação de parte do eleitorado abriram espaço para um discurso centrado na segurança e na rejeição da esquerda.

Num artigo publicado na revista Nueva Sociedad, a investigadora Catalina Niño Guarnizo sublinha que a eleição revelou um país profundamente dividido. Com uma participação superior a 63% — a mais elevada da história colombiana —, De la Espriella venceu por uma margem inferior a um ponto percentual sobre Iván Cepeda, candidato apoiado pelo Governo. Para a autora, o resultado espelha “as profundas divisões da Colômbia” e coloca ao novo presidente o desafio de governar uma sociedade partida em dois blocos quase equivalentes.

Ao longo da campanha, o medo tornou-se um dos principais motores da mobilização eleitoral. Segundo a mesma análise, a direita explorou as preocupações relacionadas com a insegurança, o narcotráfico e a expansão de grupos armados, defendendo uma política de “tolerância zero” e o abandono das negociações de paz promovidas por Petro. Em contrapartida, os setores progressistas alertaram para os riscos de um regresso a estratégias repressivas associadas ao período de Álvaro Uribe, incluindo potenciais violações dos direitos humanos.

Mas a própria figura do presidente eleito ajuda a compreender o alcance da mudança. Poucas semanas antes de disputar a segunda volta das eleições, uma imagem do então candidato a rezar o terço com a sua família numerosa, todos vestidos de branco imaculado, ganhou repercussão nas redes sociais. E, ao longo da campanha, De la Espriella fez sempre questão de expor a sua convicção católica de forma aberta. Até há poucos anos assumia-se como ateu. Segundo relatou em diversas entrevistas, converteu-se ao catolicismo há cerca de seis anos, na sequência da morte de um familiar. Advogado criminalista conhecido e empresário bem-sucedido, em várias ocasiões afirmou que a sua entrada na política veio de que “Deus mostrou que o momento havia chegado”.

Abelardo de la Espriella numa peregrinação em família. Foto FB

Abelardo de la Espriella durante uma peregrinação em família pelas igrejas de Montería, na Semana Santa. Foto reproduzida a partir das redes sociais de De la Espriella.

De acordo com uma reportagem publicada pelo El País, a sua campanha contou também com forte apoio de igrejas evangélicas e de movimentos pró-vida, que esperam agora ver traduzidas em políticas públicas posições conservadoras sobre o aborto, a família e a chamada “ideologia de género”, ainda que o próprio presidente eleito tenha afirmado que respeitará as decisões do Tribunal Constitucional.

No mesmo jornal, De la Espriella surge como uma síntese de várias correntes da nova direita latino-americana. Declarado oficialmente o novo Presidente da Colômbia nesta quinta-feira, 25, recupera elementos do discurso anti-establishment de Donald Trump, inspira-se na agenda económica de Javier Milei e assume como referência a política securitária de Nayib Bukele, em El Salvador.

De facto, entre as propostas por ele anunciadas durante a campanha figuram a redução drástica da burocracia estatal, a construção de megaprisões, o reforço dos meios militares, a revisão de políticas ambientais, a expansão da exploração petrolífera e mineira e uma atitude mais hostil em relação aos organismos multilaterais. O próprio De la Espriella chegou a defender a saída da Colômbia do sistema das Nações Unidas e a questionar o papel de instâncias internacionais de proteção dos direitos humanos.

Vários observadores consideram, contudo, que a capacidade do novo Presidente para concretizar a sua agenda será limitada. O resultado apertado das eleições, a reduzida representação parlamentar do seu movimento e a existência de instituições relativamente robustas obrigarão a negociações permanentes. Também a forte mobilização da sociedade civil colombiana poderá funcionar como contrapeso a eventuais derivas autoritárias.

As preocupações estendem-se particularmente aos processos de paz, às políticas ambientais e aos direitos das minorias. Catalina Niño Guarnizo alerta que a retórica de confronto adotada durante a campanha e o abandono das estratégias de negociação com grupos armados podem comprometer avanços alcançados após o acordo de paz de 2016. Ao mesmo tempo, organizações sociais receiam retrocessos nos direitos das mulheres, das comunidades LGBTI+ e dos povos indígenas, bem como uma intensificação do modelo extrativista.

A vitória de De la Espriella também reforça uma tendência regional identificada pelo IHU: a consolidação de um bloco político conservador e nacionalista alinhado com Washington. A verdade é que, num contexto marcado pela crise venezuelana, pela situação humanitária no Haiti e pelo fortalecimento de lideranças de direita em vários países da região, a Colômbia deixa de ser uma exceção e passa a integrar plenamente esse novo mapa político latino-americano.

Quanto à reação da Igreja Católica colombiana, foi prudente e institucional. Sem qualquer referência ao programa político do novo Presidente ou às preocupações manifestadas por organizações sociais, os bispos limitaram-se – numa mensagem divulgada após a conclusão do processo eleitoral – a agradecer o ambiente pacífico das eleições, a felicitar os eleitos e a assegurar-lhes a sua oração. Ao mesmo tempo, apelaram à unidade nacional e à construção do bem comum através do diálogo, da escuta e da corresponsabilidade de todos os colombianos.

Citando palavras do Papa Leão XIV, os prelados recordaram ainda que “na pluralidade de vozes e visões existe uma possibilidade luminosa: a de construir juntos”, transformando a diversidade num recurso para o crescimento da justiça e da fraternidade. Abstiveram-se de avaliações políticas do resultado eleitoral, procurando apresentar-se como voz de reconciliação num país que sai das urnas profundamente dividido.

Mais do que decidir quem governará a Colômbia nos próximos quatro anos, estas eleições parecem assim confirmar que a América Latina – e não só – entrou num novo ciclo político. A força crescente de projetos conservadores que recorrem à linguagem religiosa para legitimar agendas securitárias, nacionalistas e ultraliberais coloca novos desafios às democracias da região e interpela também as próprias Igrejas, chamadas a discernir até que ponto a invocação pública da fé se traduz efetivamente numa prática política coerente com os valores evangélicos da justiça, da paz, da dignidade humana e do cuidado da criação.

 

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