[Moçambique, margem Sul]

Ntumbunuko e outros “quinhentos”

| 26 Fev 2023

Os rituais de Moçambique. Foto © Sara Jona Laísse

Anabela Francisca Jona, gémea de Elisa e irmã da autora do texto: depois de morrer, colocava-se uma cruz na foto da pessoa retratada. Foto © Direitos reservados.

 Sobrevivência 

À Anabela Francisca

Vim de longe, não sei de onde
Mas vim e cheguei, porque fui a selecionada, dentre milhões
Fui vencedora de uma corrida da qual os meus irmãos desistiram
Parti
Transitei
Esperei
Cheguei tempos depois
Vim de longe, levei meses a compor me

Chegar implicou nadar, rebentar a bolsa, desenrolar a corda, acertar no buraco
E zás, sai e cheguei
Chorei
Alegraram se, choraram
Parti
Entristeceram, choraram
O que lhes valeu foi a alegria entre os choros, o meu e o deles.
(Tchanaze, inédito)

 

As minhas irmãs mais velhas eram gémeas. Conheci apenas uma delas. Convivemos até aos meus 9 anos. Muito pouco, mas o suficiente para deixar algumas marcas. A que não conheci faleceu à nascença. A outra partiu para a casa do Pai num mês de Fevereiro e assinalamos a data da sua morte precisamente neste dia 27. Lembro-me sempre de, à sua despedida, uma tia ter-me dito que nunca mais a veria. Espantou-me como numa mais isso aconteceria, uma vez que eu tinha convivido com ela toda a minha vida. Nunca assumi aquela perda enquanto tal. Cresci pensando que um dia voltaria a vê-la. Não compreendia o fenómeno, obviamente. Não tinha competência para tal. Era apenas uma criança.

Dos modos de viver em Moçambique e das suas filosofias de vida, marcam-me, ainda hoje, os rituais ligados aos gémeos. Recordo-me do ligado à minha irmã. Após a sua partida, vi a minha avó rasgar a sua roupa aos pedaços, a queimá-la e a enterrá-la no quintal da casa na qual vivíamos. Perguntei-lhe por que razão o fazia e se se devia ao facto de ela ter sido gémea. A avó disse-me que não. De um modo geral, os nossos mortos são enterrados com a roupa que usavam em vida, mas parte dela, a restante é a que é queimada.

A minha pergunta tinha a ver com a constatação de que, quando a gémea da minha irmã faleceu, trocaram-lhes as roupas, tinha-me constado isso; i.e, a que tinha falecido foi enterrada com a roupa da que ficou e a que ficou passaria a usar a roupa da que tinha partido. Aquela roupa que a falecida usava no dia da sua morte, é a que especialmente deverá ser usada pela sua gémea viva. A restante parte é aquela que deve ser queimada.

Um outro ritual que conheço associado aos gémeos é que, nas regiões em que se habita em palhotas, o gémeo que fica, após a partida do seu irmão, deverá saltar para dentro da palhota, a partir de cima desta, por fora. Entrando pela parte de cima, simboliza uma nova chegada, um novo nascimento. Há um compromisso ao nascer-se gémeo, ao que parece. Há tarefas e rituais a serem seguidos por quem fica. Para além do ritual do renascimento, ou na sua ausência, o gémeo que fica, deverá ser sujeito a um tratamento tradicional, para que fique consciente de ser sozinho. Além disso, não deve chorar muito, nem ser tão directamente envolvido nos rituais fúnebres do irmão.

Nisto de modos de estar, há muita aprendizagem a fazer-se, mesmo para nós que, aparentemente, nascemos nesta cultura tradicional africana. E vemo-nos muitas vezes confrontados com as nossas tradições, comparadas às do Ocidente com que convivemos. Eu explico-me, com recurso a outros ntumbunukos, outros modos de se ser e de se estar, ou seja, outras naturezas.

Perante uma senhora mais velha, determinado indivíduo trata-a por mãe, ainda que não seja a sua própria mãe. Relativamente ao homem, passa-se a mesma coisa, trata-o por papá, desde que estes tenham aparentemente uma idade próxima da dos seus pais. Se se tratar de uma pessoa relativamente mais velha que esse indivíduo (com idade aparente para ser irmão mais velho), ele trata-o por mana, no caso de uma mulher ou por mano, se for um homem. Aqui falo de situações nas quais as pessoas se conhecem ou não.

Em contexto familiar, por exemplo naqueles em que as famílias vivam uma situação de poligamia, os filhos das diferentes mulheres de um homem tratam-se como irmãos que são. O conceito de “meio-irmão” não existe. A par disso, para os filhos, qualquer uma das esposas do pai é sua mãe e não madrasta. Nós não utilizamos essa palavra. As esposas desse homem, entre si, relacionam-se como irmãs. Elas são manas e a hierarquia obedecida é a da ordem de chegada àquele lar ou à vida conjugal com aquele homem.

E mais, se um homem se casa com uma determinada mulher, a sua cunhada é também considerada sua esposa, do ponto de vista do estatuto simbólico. Na ausência da esposa – por deslocamento a algum lugar, por exemplo – a sua irmã cuida dele do mesmo jeito que a sua esposa o faria. No caso de morte dessa esposa, o homem, após um ritual, recebe a sua cunhada por esposa; aqui a situação é antropologicamente designada por sororato. Ou, no caso de morte do homem, a esposa é desposada pelo seu irmão, o levirato, segundo os jargões da Antropologia.

Uma outra situação relativa ao casamento ou à vida de um casal: um homem que seja o filho mais velho dos seus irmãos, numa família, é tratado por mano. Os seus irmãos mais novos chamam-no mano. Após o seu casamento, a sus esposa é também denominada mana. Ela passa a ter o estatuto do marido, para efeitos de tratamento. Ela é como se fosse irmã mais velha para aqueles irmãos.

Uma coisa que nunca percebi, por mais que me expliquem e por mais que puxe pela cabeça nunca perceberei, é por que razão é que perante os seus netos (filhos da sua filha), os avós têm o estatuto de esposos; ou seja, um neto pode tratar a sua avó de esposa, a neta ao avô por esposo. Entretanto, se se tratar dos filhos dos seus filhos, o mesmo não se aplica; ou seja, a filha do filho de um avô não pode ser tratada como esposa, porque têm o mesmo apelido, mas o filho do filho, pode ser esposo da avó.

Com as relações e convivência com o Ocidente, estes modos de ser e de estar começam a sofrer transformações ou vivem em situações de sincretismos ou de dificuldade de adequação em função de contextos, uma vez que, em contextos oficiais, em Moçambique, exige-se que os modos de fazer ocidentais, i.e., em relacionamentos oficiais os termos mãe, pai, mano, etc, não devem ser utilizadas.

Enfim é desse modo que vivemos. É o nosso ntumbunuko!

 

* Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão na Universidade Católica de Moçambique, membro do Movimento Graal em Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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