“Número dramático de pessoas deixam a Igreja” na Alemanha, Papa incentiva mudanças

| 30 Jun 20

Um relatório divulgado na passada sexta-feira, 26 de junho, pela Conferência Episcopal Alemã revela que, em 2019, cerca de 270 mil alemães abandonaram a Igreja Católica, um número que cresceu 26% em relação ao ano anterior. Recebido no dia seguinte pelo Papa Francisco, o representante dos bispos do país, Georg Bätzing, não escondeu a sua preocupação. Na audiência privada, o bispo de Limburgo falou ao Papa do caminho sinodal que está a ser empreendido pela Igreja na Alemanha e o Papa encorajou a continuação do processo de reforma.

“Precisamos de encontrar respostas para os desafios urgentes que a Igreja enfrenta, desde o abuso sexual de menores até ao número dramático de pessoas que deixam a Igreja”, afirmou Georg Bätzing à saída do encontro com o Papa, citado pelo Vatican News.

Entre os fatores que mais influenciaram o abandono da fé católica, segundo a pesquisa, incluem-se a não identificação com os ensinamentos da Igreja no que diz respeito a questões de moralidade sexual, e também a temas como o sacerdócio feminino e o celibato dos sacerdotes, que têm sido amplamente debatidos no sínodo alemão.

De acordo com o relatório, o número de novos católicos no país (2.330) registou igualmente uma diminuição, bem como o número de católicos que retornaram à fé (5.339). O número de católicos a ir regularmente à missa desceu para o nível mais baixo de sempre (9,1%) e diminuíram também os casamentos (-10%), crismas (-7%) e primeiras comunhões (-3%). O número total de católicos na Alemanha no final de 2019 estava nos 22,6 milhões, o correspondente a 27,2% da população total (enquanto que em 2018 representavam 27,7%).

O impacto do novo sistema de cobrança das taxas sobre o culto (a Kirchensteuer), que entrou em vigor em 2015, e que passou a implicar a cobrança automática e proporcional aos rendimentos, é referido como tendo levado nos últimos anos muitos cidadãos a não se declararem membros da Igreja. Um declínio semelhante foi também registado na Igreja Protestante. Antes de 2015, a Kirchensteuer era cobrada juntamente com os outros impostos, quando o contribuinte a solicitava formalmente.

Os resultados da pesquisa não permitem aferir a influência dos escândalos de pedofilia na Igreja alemã no abandono da fé.

Georg Bätzing considera que, apesar de a evolução demográfica influenciar estes resultados, é também claro que a diminuição na receção dos sacramentos está ligada a “uma erosão dos laços pessoais com a Igreja”. Segundo o bispo de Limburgo, o declínio deve levar a Igreja a refletir particularmente sobre sua capacidade de falar com as pessoas hoje. Depois da perda da credibilidade, ela deve reconquistar a confiança por meio da transparência e da honestidade”, enfatizou.

Para Bätzing, é essencial que a Igreja reconheça e se  adapte aos “sinais dos tempos”, o que “às vezes exige mudanças corajosas nas nossas próprias fileiras”, afirmou.

O representante dos bispos alemães, que aproveitou o encontro no Vaticano para dar a Francisco informações detalhadas em relação ao andamento do caminho sinodal, disse ter-se sentido “encorajado pelo intenso intercâmbio com o Santo Padre para continuar o caminho” tomado na Igreja Alemã. “O Papa mostrou apreço por este projeto, que associa estreitamente ao conceito de ‘sinodalidade’ que ele cunhou. Tentei fazer entender que a Igreja na Alemanha segue este caminho e sabe sempre que está ligada à Igreja no mundo”.

“O Papa Francisco lembrou que, no caminho sinodal e na ação da Igreja na Alemanha, não devemos perder de vista os pobres e os idosos, os refugiados e os necessitados”, sublinha Bätzing, e pediu especificamente que “os efeitos e experiências da pandemia de coronavírus fossem considerados para o futuro”, tendo assegurado que continuará a acompanhar com atenção a Igreja Alemã.

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