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[Entre Margens]

Números comuns

| 04/03/2026

Algures em 2011, Jeffrey Epstein mandou fazer uma reprodução de 2,74 metros por 2,74 metros da obra Massacre dos Inocentes, de Cornelis van Haarlem, para ser usada no seu rancho em Santa Fé, Novo México.

Um dos seus objetivos seria usar o amplo espaço da propriedade para criar uma “fábrica de bebés”, em que engravidasse várias mulheres ao mesmo tempo. O que é sabido é que, se não o fez, usou esse espaço para o abuso e tráfico sexual de adolescentes e mulheres.

Acompanhar a baixeza de homens poderosos leva-me a pensar nos modos como homens comuns se esforçam por alcançar patamares semelhantes, apenas muito mais destituídos nas contas bancárias, no tráfico de influências e em ilhas caribenhas. Na sordidez, igualando-se.

Como no caso denunciado em finais de 2024, por uma investigação alemã, em que cerca de 70 mil membros, de diversos países, partilhavam num grupo de Telegram dicas de como melhor sedar e violar mulheres.

“Os utilizadores afirmaram ter agredido mulheres nas suas casas, incluindo esposas, companheiras, irmãs e mães, e partilharam também instruções com outros sobre como fazer o mesmo. Alguns partilharam também fotografias, enquanto outros publicaram vídeos em direto das agressões. Numa ocasião, um homem alemão disse que sedaria a sua mulher e ofereceu-a aos outros utilizadores.”

Esta última referência liga-nos facilmente com o “caso Pelicot”, no qual Gisèle Pelicot, uma mulher agora com 73 anos, foi repetidamente vítima de violação, entre 2011 e 2020 – mais de 200 vezes.  Estive a rever, um a um, os nomes, idades, e profissões dos 51 homens comuns que a abusaram sexualmente e a violaram, e que foram, por isso, condenados.

Gisèle Pelicot, a mulher que reclamou publicamente para si o próprio nome, depois de ser desumanizada por mais de 70 homens – pois cerca de 20 dos perpetradores estão ainda por identificar –, na sequência de uma iniciativa do seu marido, Dominique Pelicot, que recrutava, num fórum online de nome «à son insu» (“sem ela saber”), homens comuns, dispostos a violar a sua esposa, enquanto ele próprio assistia.

«Perguntaram-lhe se ela se reconhecia numa foto de uma mulher a ser violada por um homem que não conhecia. “E claro que não me reconheci, porque eu estava com um homem que eu não conhecia, que me estava a violar. Eu disse: ‘Não conheço este homem’… Ele mostrou-me uma segunda fotografia, que era praticamente igual, e disse: ‘Esta é você’. Eu disse que não, e ele disse: ‘Este é o seu quarto, Madame Pelicot, estes são os seus candeeiros.’»Este é o seu marido.

Gisèle Pelicot diz que quer olhar o marido nos olhos e perguntar-lhe se também abusou da filha de ambos – o caso está sob investigação.

Uma nota: França aprovou recentemente, em janeiro de 2026, um esclarecimento declarando inaplicável o conceito de “dever conjugal” – a obrigatoriedade das relações sexuais no casamento – no âmbito da lei civil. Um esclarecimento que se mostrou necessário, em 2026, para prevenir a justificação da legalidade das violações em contexto matrimonial.

Abusos Foto Golib

Foto © Golib

Dias antes do pronunciamento da assembleia francesa, no Reino Unido, um ex-conselheiro de uma localidade britânica, representante do Partido Conservador, assumiu a culpabilidade por drogar e violar, ao longo de 13 anos, a sua então esposa, sendo que estão a ser julgados cinco outros homens por crimes de violação e abuso sexual contra a mesma vítima.

Os 70.000 do grupo de Telegram não são casos raros. Vão aparecendo notícias semelhantes em diferentes contextos, como, recentemente, em Itália, com o grupo de Facebook «Mia Moglie» (“A minha mulher”), com 32.000 inscritos. Ultrapassamos, só nestes dois grupos, os 100.000 casos raros.

Algures nos Estados Unidos – spoiler alert, foi em Nova Iorque – um homem fez-se poderoso e usou uma rede de tráfico sexual de adolescentes para proveito próprio, e para oferecer um bónus criminoso aos seus parceiros de negócios – políticos, empresários, cientistas. Uma socialite britânica era cúmplice.

Mas se homens comuns, que não estão acobertados pelo manto de impunidade que o dinheiro e o poder conferem, se alistam aos milhares, como não seria assim?

Há dias, em Paredes, Portugal, dois homens foram detidos numa busca policial, “estando em causa suspeitas da prática de actos sexuais com adolescente, recurso à prostituição de menores, pornografia infantil e aliciamento de menores para fins sexuais.”

«No centro da investigação está uma rapariga hoje com 18 anos, mas que, quando tinha apenas 15 e se encontrava institucionalizada numa casa de acolhimento em Barcelos, se “disponibilizou” através das redes sociais para se prostituir e para partilhar conteúdos de cariz sexual mediante pagamento. Foi neste contexto que, segundo o mesmo responsável, citado pela agência Lusa, houve, pelo menos, “mil contactos” efectuados com a menor por suspeitos com um “perfil diverso”, sendo um deles um antigo professor da adolescente.»

Quais são os números factuais do abuso sexual? Mas, sobretudo, quão comum – partilhado, vulgar, habitual, natural, normal – é o abuso, aos olhos dos comuns?

Uma amiga dizia-me “é melhor nem pensar no iceberg escondido…”.

Mas eu penso. Penso em qual será a percentagem de homens (comuns) que acedem a este tipo de conteúdos; ou quantos terão o desplante de Dominique Pelicot  de guardar no seu computador uma pasta intitulada “Abusos”; ou quantos usarão o subsídio de férias para viajar em turismo sexual até destinos “exóticos” onde crianças são vendidas como produto; ou quantos se apressam a chamar a uma menina ou adolescente “jovem mulher”, para que, num passe de magia linguística, o abuso possa ser chamado de sexo consensual.

Pergunto para perceber se é possível fazer alguma coisa em relação a isto.

Gostava de saber, se como Gisèle Pelicot, conseguimos olhar nos olhos, seja a quem for. Encarar as realidades – comuns.

Até agora, Epstein não foi acusado de homicídio, mas são várias as que não se podem mais contar entre as sobreviventes, tais como Virginia Giuffre, que morreu por suicídio em 2025, depois de corajosamente ter posto em movimento o seu direito, e de tantas outras, à justiça.

Parece-me que fazemos sempre muito pouco, e que a regressão nos direitos humanos que estamos a viver passa visivelmente por aqui, pelo reforço evidente de um ambiente hostil à liberdade e à segurança das mulheres. Das meninas e raparigas, que não, não são mulheres, e das mulheres, de todas as idades. Nenhuma menina, rapariga ou mulher nasceu para isto, mesmo que os números insistam em parecer dizer o contrário.

 

Apoio psicológico SNS24: 808 24 24 24
Linha de apoio às vítimas de violência doméstica: 800 202 148.
Linha de apoio à vítima: 116 006
Centros de atendimento da UMAR
Centros de apoio à vítima da UMAR
APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima)

 

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