“Nunca afastes de algum pobre o teu olhar”
(Tobite 4, 7)

Pessoa sem-abrigo em Roma, na colunata de São Pedro: Foto © António Marujo/7MARGENS
Nos últimos três anos escrevi um livro/guião, por cada ano, com os objetivos de despertar as comunidades cristãs e movimentos eclesiais e, com toda a humildade, ajudar os que neles participam a prepararem-se para melhor viver o Dia Mundial dos Pobres. Não sei se atingi o que pretendia. Oxalá que sim, para a promoção humana dos pobres e a credibilização da fé dos cristãos católicos. Este ano, com a colaboração do 7MARGENS, que muito agradeço, julgo ser já suficiente deixar umas breves reflexões sobre cada um dos dez pontos da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial deste ano, que deve ser lida por todas e todos.
Francisco começa por referir-se à importância deste Dia que, segundo ele, “vem pela sétima vez alentar o caminho das nossas comunidades. Trata-se de uma ocorrência que está a radicar progressivamente na pastoral da Igreja, fazendo-a descobrir cada vez mais o conteúdo central do Evangelho”. Oxalá que esta feliz constatação do Papa se aplique à maioria das nossas comunidades cristãs, não só, por “no domingo, que antecede a festa de Jesus Cristo, Rei do universo, reunimo-nos ao redor da sua Mesa para voltar a receber D’Ele o dom e o compromisso de viver a pobreza e servir os pobres”, mas, também, por serem testemunhas da prática do bem, envolvendo toda a comunidade; de agirem no concreto e não só com ideias, proferidas em palestras, homilias ou preces; de estarem perto dos mais frágeis, fazendo mesmo a opção preferencial pelos pobres.[1]
Na verdade, precisamos de comunidades cristãs, cada vez mais bem organizadas no setor da pastoral social, dado que, como diz Francisco, “a pobreza permeia as nossas cidades como um rio que engrossa sempre mais até extravasar; e parece submergir-nos, pois o grito dos irmãos e irmãs que pedem ajuda, apoio e solidariedade ergue-se cada vez mais forte”. Sabemos que devido à covid-19 e, agora, à horrenda guerra declarada pela Rússia à Ucrânia, aumentaram muito os problemas socioeconómicos, mas não conhecemos bem a sua dimensão.
Nesta sua mensagem, o Papa Francisco escolheu o exemplo de vida de Tobite que fortalecido pela fé, embora limitado pela cegueira, tinha no seu problema visual “a sua força para reconhecer ainda melhor tantas formas de pobreza ao seu redor”. Em muitas das nossas paróquias quantas vezes, por falta de meios materiais e humanos ou de motivação para os encontrar, a caridade não está tão organizada como é necessário ou como expressão da comunidade que se reúne para escutar a Palavra e celebrar a eucaristia, ou quando, até, nem sequer existe.
Em 1997, os bispos portugueses disseram ser importante a criação de um serviço paroquial de ação social (a designação teria de ser repensada) “com as seguintes finalidades:
– Suscitar e fazer crescer, na paróquia, a dimensão social como exigência da vida da própria comunidade cristã;
– Assegurar o conhecimento e o atendimento dos problemas sociofamiliares da paróquia, sem qualquer discriminação;
– Articular as actividades das instituições e grupos de acção social da paróquia[2], para que se possa concretizar a recomendação que Tobite fez a seu filho: “Nunca afastes de algum pobre o teu olhar (…) Pratica a justiça em todos os dias da tua vida e não andes pelos caminhos da injustiça.” (Tb 4, 5; 4 7).
Ao escolher estes dois trechos, Francisco pede que se assegure acolhimento para todas as formas de pobreza, sem esquecer a da dimensão espiritual, que não está só relacionada apenas com a fé em Deus, mas, em muitos casos, referida à falta de valores humanos que não permitem uma correta e justa orientação de vida.

Foto © handynyah
É verdade que algumas situações de pobreza, enquanto privação de recursos financeiros, resultam da falta de valores que o “berço” não deu, ou os sistemas de proteção social vigentes obrigaram a ir-se por caminhos nunca antes desejados. Mas a designada “pobreza de espírito” não está cravada só no caráter das pessoas em situação de pobreza financeira. Ela encontra-se em muita gente que utiliza mal, desperdiçando, por vezes, escandalosamente, os bens que possuem. Por isso, entre outros fatores, este é um dos geradores de pobreza, dado que evidencia desigualdades sociais gritantes resultantes da má distribuição da riqueza.
As nossas comunidades cristãs, a nível diocesano e paroquial, não podem afastar também o olhar destas realidades. Devem encontrar meios de promoção humana para os primeiros e de denúncias para os segundos, pois, diz o Papa, “salta à vista a recordação, que o velho Tobite pede ao filho para guardar, [de que] não se reduz simplesmente a um ato da memória nem a uma oração dirigida a Deus” e que faz “referência a gestos concretos, que consistem em praticar boas obras e viver com justiça”. Os agentes de pastoral social das nossas comunidades, sobretudo os que fazem atendimento social, não podem esquecer que, em simultâneo, se devem motivar as pessoas a adquirirem os direitos que o Estado lhes confere e prestar-lhes as ajudas para a subsistência o mais digna possível, sempre na perspetiva da autonomia das pessoas auxiliadas. Mas sem deixar prolongar muito no tempo a aquisição dos direitos, pois não se deve dar por esmola o que que se pode obter pelo acesso à justiça distributiva.[3]
Gostaria que esta minha modesta e discutível reflexão fosse, durante a semana, objeto de análise em diferentes grupos eclesiais e mesmo a nível pessoal e fizessem chegar ao 7MARGENS os resultados das mesmas. Todas as dúvidas obterão resposta e as sugestões serão encaminhadas para as instâncias próprias.
Notas
[1] Cfr. Francisco, Todos, todos, todos!,JMJ Lisboa 2023 – Discursos e Homílias- Prior Velho, Editora Paulinas, 2023, 48.
[2] Cf. Conferência Episcopal Portuguesa, instrução pastoral A Acção Social da Igreja, Lisboa: Secretariado – Geral do Episcopado, 1997, 32.
[3] Cfr. Concºilio Ecuménico Vaticano II (Decreto Apostolicam Actuositatem) Coimbra: Gráfica de Coimbra 2002, 8.










