Nunca troquem uma criança por um sábado!

| 17 Fev 21

 Os rituais sempre foram estruturantes na socialização humana, assim como na construção e consolidação das crenças e correspondentes liturgias colectivas. Mas não são tudo. Há mais vida para além dos rituais.

“o baptismo cristão tem diversas fórmulas: imersão, afusão, aspersão, infantil ou de adultos, com água corrente ou benzida, todas elas com um sentido e uma carga simbólica.” (Fresco representando o Batismo de Cristo, de Pietro Perugino e Pinturicchio, 1481/1482. Museu do Vaticano, Roma.)

Todas as sociedades humanas desenvolveram os seus rituais, seja do ponto de vista antropológico, como os ritos de passagem (da puberdade à fase adulta), de fé (casamento, baptismo, funeral), académicos (praxe, formatura), políticos ou desportivos. Eles ajudam a estruturar a sociedade com recurso ao simbólico e a fixar normas de convivência, de reconhecimento e de valorização social. Mas no caso do campo religioso assumem o sentido de alguma sacralidade, tornando-se por isso mais intocáveis.

Se no âmbito dos rituais académicos as praxes têm levantado problemas e muita discussão por contemplarem frequentes exageros, humilhação e abuso dos caloiros, tendo até chegado à situação limite de provocar a morte a alguns, já os rituais de tipo religioso parecem insusceptíveis de serem questionados, mesmo quando chegam ao limite de flagelação física, por exemplo, ou quando provocam a morte de alguém.

Vem isto a propósito de uma notícia chocante sobre a cerimónia baptismal de tradição ortodoxa recentemente realizada na Roménia, e que correu mal. Um menino de seis semanas sofreu uma paragem cardíaca e foi levado rapidamente para o hospital, mas morreu algumas horas depois, com a autópsia a revelar água nos pulmões. O bebé foi totalmente imerso em água benta, por três vezes, incluindo a cabeça.

A imprensa do país relatou vários incidentes semelhantes nos últimos anos e a sociedade mobilizou-se de várias formas, como uma petição online, para contestar esta prática que põe em risco a vida dos recém-nascidos. O porta-voz da Igreja, Vasile Banescu, adiantou que os padres podem derramar um pouco de água na testa do bebé, em vez de recorrerem à imersão total e repetida, mas a ala tradicionalista da Igreja, representada pelo arcebispo Teodosie, insistiu que o ritual não vai sofrer alterações.

É aqui que entra a questão da eventual perversão do ritual, apesar da sua importância e papel estruturante, pelo menos em dois aspectos. Primeiro, quando o ritual produz efeitos destrutivos na pessoa humana, provocando assim mais prejuízo do que benefício.

A segunda perversidade acontece quando o ritual ousa substituir a verdade que se propõe representar. O ritual é um símbolo, uma estética que aponta para uma dada realidade, mas não pode sobrepor-se a ela e muito menos substituí-la. Se eu lançar ao chão um sinal de trânsito, por exemplo de sentido proibido e seguir em contramão, cometi um ilícito e sofrerei as consequências legais. O ritual não é maior do que a realidade para a qual aponta ou que representa.

É suposto compreender que a água não lava a alma, nem os pecados a não ser simbolicamente, em ambiente de fé e de acordo com um determinado corpus doutrinário. É por isso que o baptismo cristão tem diversas fórmulas: imersão, afusão, aspersão, infantil ou de adultos, com água corrente ou benzida, todas elas com um sentido e uma carga simbólica. De resto outras religiões utilizam abundantemente a água nas suas abluções rituais, tanto as monoteístas como outras.

O rito é a ordem prescrita das cerimónias que se praticam numa religião e assume uma importância acrescida no âmbito congregacional, isto é, nas cerimónias de culto colectivas, pois são um sinal representativo duma fé e duma praxis que se vive em grupo a partir duma doutrina comum. Mas se as velas acesas pegarem fogo à igreja ninguém se dispõe a morrer só porque o ritual das velas não pode ser interrompido. Se a queima do incenso estiver a intoxicar alguém, não se deixa a pessoa morrer para não interromper o acto religioso. Antes de qualquer outra coisa é uma questão de bom senso e de dignidade da pessoa humana.

Já basta que em nome de doutrinas religiosas e ideologias políticas se tenham assassinado tantos milhões de pessoas ao longo da História. E os rituais, quaisquer que sejam, não estão sequer nesse patamar de importância. São apenas símbolos, integrativos é certo, mas não constituem as verdades espirituais em si mesmas, apenas apontam para elas.

Quando me vejo ao espelho não me vejo a mim, mas sim a minha imagem projectada naquela superfície. Se acaso partir o espelho não me parto a mim porque eu não sou o espelho. Por mais ritualizada que seja uma cerimónia, o mais importante são sempre as pessoas, a sua segurança e bem-estar.

No caso supracitado seria de perguntar ao arcebispo Teodosie se Deus se importa mais com a tradição ritualística ou com a vida duma criança. Talvez alguém possa fazer lembrar ao religioso as palavras de Jesus Cristo, quando relativizou a importância da guarda do sábado em comparação com o bem-estar da pessoa humana: “E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim o Filho do homem até do sábado é Senhor” (Marcos 2:27,28).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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