“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”

| 21 Jun 2024

Fonte: site de “Reflexos e Reflexões”  © Ali Ghandtschi

O último dia de “Reflexos e Reflexões” prometia uma tarde bem preenchida: o debate sobre “o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”, e a peça de teatro “House”, de Amos Gitai, pelo teatro La Colline.

Aqui deixo uma síntese do debate, que tentei fazer com a maior fidedignidade possível, a partir dos apontamentos que fui tomando (era proibido tirar fotografias ou fazer gravações, para garantir que todos se sentiam mais livres para falar).

Participantes do painel: – Ahmed Fouad Alkhatib, analista político palestiniano que vive nos EUA desde que tinha 15 anos; Muriel Asseburg, investigadora de ciências políticas alemã; Uriel Kashi, alemão residente em Israel, pedagogo e guia de turismo cultural.

O jornalista Paul Middelhoff, do semanário Die Zeit, aceitou o desafio de moderar o debate.

Um dos organizadores da iniciativa falou dos seus objectivos em geral – sermos capazes de falar com sensatez sobre temas tão difíceis, sem cair na armadilha da polarização – e do tema específico: o papel dos traumas do passado, a Shoah e a Nakba, na presente tragédia.

Também informou que havia um awareness team na sala: quem se sentisse insultado, magoado, irritado pelo que ali se dizia, podia ir conversar com algum elemento dessa equipa.

Paul Middelhoff tomou o microfone, e dirigiu a primeira pergunta a Uriel Kashi: Como liga o 7 de Outubro à Shoah?

Uriel começou por contar que acompanhou recentemente um grupo de alemães em Israel, que quiseram falar com sobreviventes da Shoah, e acabaram a ouvir os lamentos destes:
– Porquê tanto antissemitismo?
– Porque não nos deixam em paz?
– Temos um país tão pequeno, e nem isto nos deixam ter! Uma velhinha quase centenária contou que no dia 7 de outubro se sentiu imediatamente de regresso à Shoah.

Acrescentou: em Israel há grupos muito diferentes. Os judeus da Europa têm a memória dos pogroms, os judeus árabes têm a memória do massacre de Hebron e das expulsões em massa. A refém mais velha dos que ainda estão em Gaza tem 86 anos e nasceu em Bagdad.

Há uma memória forte do tempo em que, como judeus, não se sentiam seguros em lugar nenhum do mundo. Mas desde o 7 de outubro, quebrou-se a crença num Estado forte, que os protege. Nos kibutz, ao contrário das expectativas, a polícia e o exército não apareceram em menos de dez minutos. Muitos habitantes esperaram um dia inteiro até serem libertados. Durante todo esse tempo temeram ser executados, torturados ou raptados, e sentiram que não havia ali ninguém que os protegesse. E mesmo em Jerusalém, onde Uriel mora, passaram esse dia em grande sobressalto, temendo serem também vítimas dos ataques. De momento, todos sofrem a angústia do extermínio, misturada com a desconfiança em relação ao governo.

A segunda pergunta foi para Ahmed: O que foi a Nakba?

Significa “catástrofe”, respondeu ele. Um trauma geracional, uma série de acontecimentos trágicos ligados à independência de Israel em 1948. As aldeias onde os seus antepassados nasceram deixaram de existir. Os campos iniciais de refugiados foram evoluindo para comunidades e localidades. 70% dos habitantes de Gaza são descendentes dos palestinianos de outras regiões que ali encontraram refúgio em 1948. Estas pessoas em fuga iam contando pelo caminho o que lhes acontecera e porque fugiam. Movidas pelo medo, muitas outras famílias fugiram voluntariamente. O que está a acontecer neste momento é uma espécie de reencarnação da Nakba, e torna qualquer hipótese de reconciliação muitíssimo mais improvável. O Hamas revela-se particularmente perigoso nesta antecipação da reacção e das suas consequências. Não foi por acaso que decidiram provocar o governo da direita mais radical que Israel alguma vez teve. É isso que torna esta tragédia ainda mais terrível.

O passado é importante, mas insistir na repetição de frases como “os palestinianos já estavam aqui há milhares de anos” inviabiliza qualquer tentativa de construção de um futuro.

A terceira pergunta foi para Muriel: Qual é o papel da memória na política?

A investigadora académica começou por agradecer a oportunidade de falarmos em conjunto sobre estas questões, porque espaços de diálogo como este são muito necessários e têm uma importância vital.

Continuou: estes acontecimentos despertaram os traumas colectivos nos dois lados. De um lado e do outro, as pessoas são revisitadas pelos sentimentos de humilhação, desamparo, desespero. E é este o prisma pelo qual olham para o que lhes está a acontecer. Uns esquecem que o 7 de outubro foi um massacre antissemita e os outros esquecem que a Nakba nunca parou de acontecer.

Temos assim duas populações que se vêem, ambas, ameaçadas de extinção, o que reforça a tendência para cada grupo se fechar sobre si próprio e nos seus próprios mecanismos, e a ninguém ocorre procurar uma solução em conjunto. Dos dois lados falta a empatia, a capacidade de ouvir os outros e as suas razões. E multiplica-se a diabolização e a desumanização do inimigo. No caso de Israel, isto refere-se não apenas aos terroristas, mas infelizmente alarga-se a toda a população, numa espiral de violência e de desculpabilização da violência.

 

A História e o conhecimento mútuo

Da esquerda para a direita: Ahmed Fouad Alkhatib,  jornalista Paul Middelhoff, Muriel Asseburg e Uriel Kashi. Foto: Facebook de Uriel Kashi.

Como se fala da História às crianças?

Ahmed: A Nakba tem duas componentes: os episódios que os nossos avós nos contavam, os detalhes muito vivos, por um lado; mas o aspecto mais importante da Nakba é algo que todos vivem todos os dias, pelo que não é preciso falar sobre isso ou contar histórias: a inexistência de um Estado palestiniano, o excesso de população num território tão diminuto. Por exemplo: as salas de aula, onde há muitas mais crianças que as originalmente previstas para aquele espaço. Não é preciso que ninguém nos conte aquilo que nos entra permanentemente pelos olhos adentro. Esta é também uma das causas da radicalização. Para a evitar, temos de ser capazes de ir ao encontro uns dos outros.

Uriel: No que diz respeito às crianças judaicas, em Israel, o modo de lidar com a Shoah mudou inteiramente ao longo destes 80 anos. Começou pelo silêncio, entre outros motivos porque todos andavam ocupados com problemas mais urgentes. Os sionistas, que em parte tinham ideias de esquerda, eram movidos pelo objectivo de tomar o destino dos judeus nas suas próprias mãos e queriam contrariar os preconceitos que o mundo árabe tinha sobre a preguiça dos judeus, tentavam construir um país moderno e eficiente. O que se revelou extremamente difícil, numa terra sem água, com temperaturas de 40 graus à sombra, e com ondas sucessivas dos refugiados que fugiam da Europa ou eram expulsos dos países árabes. Até aos anos 60s e 70s, imperou o silêncio. Tentavam andar para a frente, e esquecer o passado. No máximo, contavam histórias heróicas de resistência e fuga durante a Shoah. Em 1962, com o julgamento de Eichmann e a apresentação de testemunhos no tribunal, muitos israelitas ouviram pela primeira vez o que tinha acontecido. Só depois das vitórias militares tiveram coragem de olhar realmente para o passado. Atualmente, isso está integrado na sociedade: desde os dois minutos de silêncio no Yom HaShoah, que todos observam no país inteiro, à divulgação dos relatos das testemunhas da época. O trabalho de memória da Shoah começa já no infantário, e é feito com o objectivo de proteger as crianças, dando-lhes a conhecer essa realidade de uma forma adequada, de forma a prepará-las para a eventualidade de serem confrontadas com cenas ou histórias com as quais não saberiam lidar. A questão central não é “o que os nazis nos fizeram” mas: “qual foi a reacção dos judeus? Com que dilemas se debatiam, que decisões tomaram?” Estes transformam-se em heróis e modelos para a juventude.

Muriel: Nas escolas, não se contam as experiências do outro povo. Há organizações civis que tentam criar vasos comunicantes mas, de um modo geral, as vivências do outro lado são ignoradas, e portanto inexistentes. O sofrimento de cada um dos dois povos é exclusivo, não inclui o sofrimento do outro. Com Netanyahu, tem havido uma tendência crescente para apagar da consciência colectiva a existência do outro lado. No entanto, há excepções. O relatório da iniciativa “Holy Land Confederation”, por exemplo, escrito em conjunto por pessoas de ambos os lados, dá um espaço importante à História comum e aos pontos de vista de cada povo (aqui, em inglês). Discordo de Ahmed no que diz respeito ao papel da História. Para conseguir avançar, temos primeiro de olhar para o passado e assumir a responsabilidade do que aconteceu, reconhecer a assimetria de poderes que está em jogo, dar-se conta de que os palestinianos não são os autores da Shoah.

Imagem do vídeo de Yael Deckelbaum, Prayer Of The Mothers (Oração das Mães)

Imagem do vídeo de Yael Deckelbaum, Prayer Of The Mothers (Oração das Mães)

A falta de conhecimento da realidade do outro povo está na origem da falta de empatia?

Ahmed: Com certeza! Quando saí de Gaza, em 2005, não sabia praticamente nada sobre a Shoah. Ninguém sabia responder às perguntas que eu fazia. E se recebia alguma resposta, geralmente tinha um fundo antissemita: “A culpa foi deles. Alguma coisa terão feito para merecer isso…” Mesmo entendendo a importância e o impacto da “resistência” (o que é um termo muito lato), as ideias de “globalizar a intifada”, de reagir, de obrigar os israelitas a dar-se conta da nossa existência e do nosso sofrimento são incompatíveis com qualquer espécie de empatia em relação às vítimas inocentes dos atentados. E hoje mesmo, em Gaza: a maioria da população não sabe o que aconteceu no dia 7 de outubro, não viu imagens, não foi informada. Nos kibutzim viviam pessoas incríveis, que ajudavam a população de Gaza a ter acesso a bons cuidados de saúde e a arranjar trabalho em Israel. Essas perguntam-se também: “porque estamos a pagar o preço de um crime que não cometemos?”

Uriel: Nos anos 90 (Oslo, grupos de activistas para a paz) começou-se finalmente a falar do sofrimento dos palestinianos. Quando assassinaram Isaac Rabin, um silêncio perplexo abateu-se sobre o país: como era possível ser justamente um judeu o autor do atentado? Perguntaram-se então como é que o conflito de interesses era tematizado nas escolas, e deram-se conta de que nenhum professor o referia, porque não sabiam lidar com o ambiente de tensão provocado por um tema tão controverso. Foram escritos novos livros escolares para corrigir a situação. Quando começou a segunda intifada, com os ataques bombistas em autocarros, deixou de se falar deste tema. Voltou a ser tabu. Uma excepção é o Center for Humanistic Education, com o seu programa que junta ao longo de um ano alunos dos dois povos para aprenderem mais uns sobre os outros. Pessoas que sentem que o seu sofrimento é visto e reconhecido estão mais capazes de se abrir em busca de soluções. No entanto, nos últimos anos, a disponibilidade para ouvir e tentar compreender o outro recuou significativamente.

Muriel: Penso que temos de ser cuidadosos, não devíamos chamar “trauma” a tudo. Há traumas palestinianos anteriores à Shoah e à Nakba. Há o massacre de Hebron, em 1929, quando os judeus foram massacrados e expulsos da cidade onde muitos deles viviam há quase mil anos. O sionismo também é a resposta ao antissemitismo e aos pogroms. Tem origens muito antigas, e é muito importante que a Europa se reconheça como a origem das causas desta situação, quer na vertente do seu antissemitismo quer na do seu imperialismo. Não há consenso sobre o conceito de “trauma colectivo”. Qual é a parte do “trauma colectivo” que é construída para dar profundidade a uma história nacional? É algo que as pessoas experienciaram elas próprias, ou os seus pais? Ou é um acontecimento que nos formata?

Ahmed: Neste preciso momento, Gaza está a viver literalmente um trauma colectivo. Gostei de ouvir o que disse sobre o trauma como instrumento de manipulação. Porque é exactamente o que o Hamas está a fazer: “este trauma vai impedir a paz definitivamente”. Ao mesmo tempo, este trauma é acompanhado de uma reacção mais subtil em alguns indivíduos palestinianos. Dão-se conta de que já passaram por isto várias vezes. Na Nakba, na segunda intifada… E reparam que esta violência não está a levar os palestinianos para lado nenhum. É preciso encontrar outro caminho.

Uriel: Ao escolher o que contamos, estamos sempre a fazer uma escolha política. Em Yad Vashem também existe um espaço para os muçulmanos “justos entre as nações”. Pode ver-se, por exemplo, o cidadão egípcio que salvou vários judeus em Berlim. [Nota: é uma escolha política, sem dúvida. Ao procurar mais informação sobre isto, encontrei um artigo do Times of Israel onde se critica que haja tão poucos árabes nessa lista de justos do Yad Vashem. Há muçulmanos europeus, sim, mas faltam os nomes de vários árabes que também correram risco de vida para ajudar os judeus a escapar. Nesse artigo, há uma explicação muito curiosa: “por um lado, há árabes que não querem ver ali o seu nome; por outro lado, o Yad Vashem não está a procurar com muito empenho”] Uriel continua: Em outubro de 2023, o embaixador de Israel na ONU discursou perante o Conselho de Segurança ostentando uma estrela amarela no casaco, como forma de apelar à empatia das Nações Unidas. Foi muito criticado em Israel porque com esse símbolo estava a fazer a ligação entre o Estado de Israel e o tempo em que os judeus não tinham um Estado que os protegesse. Se escolhermos ficar teimosamente no papel de vítima não seremos capazes de construir um futuro melhor.

 

Na Alemanha, fala-se muito na “razão de Estado”. Qual é a ligação entre o sentimento de culpa dos alemães e a forma desastrosa como os debates estão a decorrer neste momento?

Muriel: Não é culpa, é sentido de responsabilidade. Eu não sou culpada da Shoah, mas sinto a responsabilidade de evitar que volte a acontecer. No início, dizia-se: “Nunca mais Shoah, nunca mais guerra”. A este respeito, a política da RFA assentava em dois pilares: – Defesa dos Direitos Humanos, políticas para a paz – Atenção à segurança dos judeus no mundo inteiro. Entretanto, houve uma mudança radical: de “judeus” passámos para “Israel”. A política faz-nos grandes discursos, cheios de grandes princípios. Afirma que o massacre do Hamas foi um crime de tal dimensão que exige da Alemanha um apoio incondicional. Mas omite o fundamental: não se trata apenas de lutar contra o terrorismo, para além disso há muitos interesses envolvidos. Interesses económicos, por exemplo.

Também há que criticar sem margem para dúvidas quando a liberdade científica é ferida, como aconteceu recentemente, e quando no diálogo só se aceitam posições pré-definidas.

Ahmed: A censura é sempre um tiro no pé. Parece-lhe que o governo tem meios para a gerir?

Muriel: Não é função do governo fazer o framing da discussão. O governo tem de ficar de fora destes debates, e simultaneamente garantir que haja espaços para debater livremente.

Uriel: Há três semanas ia falar numa palestra para a qual tinha sido convidado, e boicotaram-me aos gritos. Na Alemanha também há censura contra as pessoas que vêm de Israel. É quanto basta para serem impedidas de falar. Na Alemanha instalou-se um clima aberto de deslegitimação do Estado de Israel. O Estado também tem a função de proteger as pessoas, e neste momento há neste país muitas pessoas que não se atrevem a sair à rua com algum símbolo que as identifique como israelitas.

 

Debate com o público

House. Berlim

House. Fonte: site de “Reflexos e Reflexões” © Simon Gosselin

A primeira pessoa a falar é uma mulher já de certa idade. Diz que vem de um dos kibutzim que foram atacados. Descreve com palavras muito vivas o horror daquele dia. Chora. Diz: “o meu pai agora também é um refugiado, já não tem casa”. A minha família era da esquerda radical, pessoalmente dediquei-me a estudar o passado da terra onde o meu kibutz se instalou. Mas agora penso que a questão mais importante para os judeus é o seu direito a viver. Tenho a sensação que a Alemanha dá com uma mão a Israel e com a outra aos seus inimigos. O que vocês dizem é propaganda emocional muito, muito muito boa. Sinto que ninguém está a entender o sofrimento dos judeus provocado por este massacre, e só olham para o sofrimento dos palestinianos.

Ahmed reage: A minha mãe também não tem casa para voltar. Os meus sobrinhos, de 3, 5, 7 e 10 anos, estão a viver agora mesmo a sua Nakba. E também sei da responsabilidade de Netanyahu, que deu força ao Hamas para dividir os palestinianos.

Outra participante do público fala do Congresso Palestina, repete que “foi convocado por organizações de judeus”, e foi cancelado ao fim de duas horas. Diz: é uma vergonha que na Alemanha impeçam a realização de um debate que junta pessoas das três religiões.

Muriel: Pessoalmente, penso que foi errado mandar a polícia interromper os trabalhos. No caso, houve várias proibições – e é agora função dos tribunais decidir se havia fundamento para isso. As decisões que foram tomadas não me parecem inteligentes, mas também não compro a sua narrativa de que o Congresso Palestina tinha como objectivo a busca de soluções para o problema. Se queremos um país onde as pessoas sejam capazes de se entender, temos de criar espaços para um debate construtivo, em vez de multiplicar iniciativas onde apenas se repetem as acusações.

Uriel: Do que li sobre o Congresso Palestina, tudo indicava que a linha condutora era a extinção de Israel. Isso não é um contributo para ajudar a resolver a situação. Não me vou pronunciar sobre os 700.000 colonos na Cisjordânia. Mas atenção: isto não é um conflito entre Israel e o Hamas. Por trás do Hamas está o poderosíssimo eixo iraniano. Após o massacre de outubro, Israel lembra-me um tigre ferido, encurralado, a atacar tudo e todos. No início teve uma retórica muito agressiva, bélica, tentando dar uma imagem de força – e tem sido muito criticado por isso. Mas a verdade é que Israel se sente um país pequenino e muito frágil. Muito ao contrário daquilo que os outros países vêem nele.

Um terceiro participante traz o tema da UNRWA.

Ahmed: É preciso não diabolizar a UNRWA. Temos de separar as duas funções, a política e a de serviço social. É preciso reformulá-la, lutar contra a corrupção. Mas estamos conscientes de que, sem ela, esta catástrofe humanitária seria ainda pior.

Uriel: Israel conseguiu integrar os seus refugiados, mas os refugiados palestinianos continuam a passar essa condição como herança, de geração em geração. Nem tudo é culpa da UNRWA. É certo que em alguns pontos foram infiltrados pelo Hamas, mas é muito difícil para uma organização daquele tamanho ter o controle absoluto para impedir que isso aconteça.

Última pergunta: Estamos a assistir a acontecimentos muito dolorosos. Como é que o 7 de outubro vai ser visto pelas gerações futuras?

Muriel: Esta data vai ter significados diferentes nos dois lados. Pergunta-se: vai ser um ponto de mudança, ou um passo mais na espiral de violência e retaliação que arrasta todos para o abismo? As duas hipóteses são possíveis.

Ahmed: É um desastre de dimensões épicas para ambos os lados. De momento sinto-me muito pessimista, mas aposto num optimismo estratégico para o futuro. Este momento preciso é uma oportunidade rara para mudar o curso da História. Tal como em 1973 fomos capazes de fazer uma inflexão e construir a partir do trauma [penso que se refere à guerra de Yom Kippur]. É nisto que acredito: “From the river to the sea, only peace will set us free”. Precisamos de um líder que diga às pessoas o que não querem ouvir. Temos de parar de desumanizar os outros. E já vejo algumas sementes a germinar, mesmo na comunidade palestiniana.

Uriel: Antes do 7 de outubro, também havia boas notícias. Estava em curso uma aproximação aos países árabes, que se davam conta das vantagens de trabalhar com Israel em vez de continuarem a oferecer resistência. A ideia de Netanyahu era garantir a paz na região e a partir daí envolver os palestinianos, que podiam ser o elo fundamental de ligação entre Israel e o mundo árabe. Se o 7 de outubro tem algo de positivo, é apenas isto: pode ser que a população israelita compreenda agora que um governo de direita não é sinónimo de segurança para o país. E pode ser que os estados árabes façam pressão junto dos palestinianos para controlarem melhor o seu terrorismo islâmico.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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