Editorial

O 7MARGENS e o sentido e alcance do Sínodo da Igreja Católica

| 20 Set 21

“O Vento sopra onde quer” (João 3:8). Apanha-nos desprevenidos. Assim sucedeu quando o Papa João XXIII anunciou a intenção de convocar um Concílio, no Natal de 1961. Assim sucedeu agora, com a convocação do Sínodo dos Bispos de 2023, sobre a sinodalidade, pelo Papa Francisco. Já se conhecia o tema, mas o comum dos mortais, mesmo bispos, terá pensado: “mais um mês de reflexões, com o instrumento de trabalho que orienta para onde as reflexões devem ir”.

O primeiro sopro do Vento, que agitou os ares e nos tem desinquietado, foi a pandemia. O Sínodo seria certamente adiado de 2022 para 2023, constou. Mas o Vento continuava a soprar, ainda breve aragem, impercetível, quase. Os mais atentos aguardavam talvez alguma surpresa. E eis que ela apareceu. Em 21 de maio, o cardeal Mario Grech, responsável do Secretariado Geral do Sínodo, anunciava duas coisas importantes: era vontade de Francisco que esta não fosse uma simples assembleia sinodal dos bispos, mas um acontecimento que mexa com toda a Igreja; e que ele começaria já este ano, através da escuta das igrejas locais. Por outras palavras, mais do que um evento à moda tradicional, como se faz desde os tempos de Paulo VI, teríamos um processo sinodal de dois anos, que deverá, desejavelmente, envolver ou, pelo menos, abrir-se à participação de todos os católicos e de todas as pessoas de boa vontade.

Olhando para o que tem sido o pontificado de Francisco, nós podemos fazer tudo menos dizer que isto é uma surpresa. Na verdade, foi nessa linha que ele já orientou os dois últimos sínodos ordinários e a assembleia episcopal sobre a Amazónia. E preparou o que aí vem, alterando significativamente o quadro normativo através da constituição apostólica Episcopalis Communio, em 2018.

Para ajudar neste processo, foram publicados já este mês dois textos fundamentais: o Documento Preparatório e o manual de procedimentos, o Vademecum. Não teria sido má ideia que quem está ainda a acordar para os desafios que são lançados a todos tivesse sido já motivado e incentivado a ler esses documentos: ambos se encontram traduzidos em português.

As igrejas de várias partes do mundo estavam ou colocaram-se já em processo sinodal, como acontece na Alemanha, na América Latina, na Austrália, entre outras. Na maior parte dos casos, como se verifica em Portugal, vai ser necessário um esforço acrescido para não perder o comboio ou não reduzir a participação ao cumprimento de uma agenda de mínimos.

É preciso reconhecer que o desafio é duro e exigente. Mas as consequências de não o enfrentar com abertura e entrega são bem mais problemáticas. O desafio da escuta requer abertura e criatividade. Não se pode ficar pelos métodos e protagonistas de sempre. Há que clarificar quem e como se vai escutar, como se vai assegurar que essa escuta é feita em completa liberdade e sem partis pris ou agendas escondidas. Há, enfim, que dar garantias de que todas as vozes contam e que a escuta tem consequências, que não é um pró-forma, encenação ou faz-de-conta.

sinodo dos bispos, Foto sugerida pela FEC mas sem creditos

É neste enquadramento que o 7MARGENS se posiciona, relativamente ao Sínodo que está aí à porta. Não sendo nem um jornal confessional e muito menos um jornal católico, não poderia deixar de estar atento e interveniente perante um acontecimento que já foi classificado como “talvez o mais audacioso projeto” do pontificado do atual Papa (Massimo Faggioli, teólogo e historiador católico, in La Croix International, 7.09.2021).

Sem embargo de outras iniciativas que estão em estudo, o 7MARGENS dará a conhecer nos próximos dias os resultados de uma consulta que fez a mais de 60 movimentos e associações de leigos e leigas da Igreja Católica, procurando contemplar diversos carismas e setores de atividade pastoral. Essa auscultação, que teve lugar no final de julho, incide sobre as expectativas suscitadas pelo Sínodo no que respeita à Igreja Católica em Portugal; o que seria importante fazer para acolher o desafio sinodal; e que características e âmbitos deverá ter a escuta, na etapa diocesana do processo sinodal que a Igreja vai viver.

Ainda esta semana, será lançado um inquérito aos mais de dois mil subscritores da newsletter diária deste jornal. São leitores diversos, de trajetórias e experiências diferenciadas, no que diz respeito à pertença à Igreja Católica ou mesmo à crença. Mas terão porventura em comum aquilo que os faz interessar-se pelos conteúdos de um jornal que se centra nas religiões, nas formas de espiritualidade, nas situações das pessoas, comunidades e povos, nas quais se joga a dignidade humana e os direitos humanos, sem esquecer a nossa casa comum.

O inquérito consta de um formulário de possíveis respostas, para facilitar o preenchimento. Contempla uma visão sobre a situação atual da Igreja quanto às três vertentes do Sínodo (comunhão, participação e missão), sobre os obstáculos, exigências e expectativas suscitadas pelo processo sinodal; e, finalmente, a disponibilidade e interesse que esse processo suscita a cada um(a). Prevemos começar a divulgar os resultados por alturas da abertura do Sínodo, prevista para o fim-de-semana de 9-10 de outubro.

O Vento sopra onde quer. Por conseguinte também pode soprar em Portugal e fazer sentir a frescura e energia entre nós, com as pessoas de boa vontade, com os crentes. Mas é suposto que todos assumam a sua parte. Também por isso aqui estamos.

 

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

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A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

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A Assembleia da República (AR) manifestou o seu apreço pela Jornada de Memória e Esperança, que decorre neste fim-de-semana em todo o país, através de um voto de solidariedade com as vítimas de covid-19 e com as pessoas afectadas pela pandemia, bem como com todos os que ajudaram no seu combate, com destaque para os profissionais de saúde.

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