Director do diário digital 7MARGENS, António Marujo é jornalista há mais de três décadas, tendo uma parte significativa do seu percurso tido lugar no Público, jornal em cuja redacção esteve desde a fundação em 1990 até ser despedido em 2013, conjuntamente com mais cerca de 40 jornalistas. A espiritualidade e a religião, ou, se se preferir, as religiões são os seus temas de eleição. Sobre estas matérias, que, em Portugal, conhece como poucos, escreveu duas dezenas de obras. O seu percurso longo e frutuoso foi tema de uma entrevista conduzida por Américo Azevedo, autor da série “Gente com História”, apresentada no YouTube.
Uma questão sobre os géneros jornalísticos preferidos, fez António Marujo hesitar. Inclinou-se para escolher a reportagem e a entrevista, mas não quis deixar de juntar a notícia e a crónica. A lista dos trabalhos jornalísticos mais empolgantes foi necessariamente incompleta, assim como a das personalidades que mais gostou de entrevistar.
A cobertura noticiosa do funeral do Papa João Paulo II e dos conclaves que escolheram Joseph Ratzinger e Jorge Mario Bergoglio como Papas foram, compreensivelmente, inesquecíveis. Entre os trabalhos memoráveis, encontram-se ainda o conjunto de reportagens realizadas em conventos e mosteiros portugueses, publicado pelo Círculo de Leitores, com o título Vidas de Deus na Terra dos Homens; a organização editorial da produção teológica de Frei Bento Domingues, editada em cinco volumes pela Temas e Debates; e o estudo da correspondência enviada a Nossa Senhora de Fátima, constante dos arquivos do Santuário de Fátima, que deu origem a reportagens publicadas no Expresso e ao livro A Caixa de Correio de Nossa Senhora, publicado igualmente, há dois anos, pela Temas e Debates.
Do extensíssimo rol de personalidades que entrevistou, António Marujo evocou imediatamente duas: o Irmão Roger de Taizé e o Abbé Pierre. Encontram-se ambas no volume Deus vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência (Pedra Angular, 2011), obra que colige ainda as conversas com, entre muitos outros, Aga Kahn, Dalai Lama, Erri de Luca, Hans Küng, Jean-Marie Lustiger, Jordi Savall, Juan Masiá. Michel Quesnel, Nicoletta Crosti, Philip Gröning, René Samuel Sirat e Timothy Radcliffe.
Questionado sobre que questões colocaria ao Papa se agora tivesse oportunidade de o entrevistar, o director do 7MARGENS gostaria de aprofundar o que Francisco considera ser mais premente fazer-se para que a Igreja Católica se torne mais significativa para os jovens.
Na conversa, António Marujo referiu alguns assuntos que lhe são caros. Defendeu, por exemplo, a necessidade de os leigos estarem na praça pública, sublinhando que é essencial a participação política dos católicos em defesa do bem comum, contrariando o populismo que tem emergido perigosamente com as suas lógicas de exclusão. Para António Marujo, é imprescindível que os católicos conheçam a doutrina social da Igreja, não ignorando os documentos do Vaticano II e as principais encíclicas dos Papas. A Igreja, acrescentou, precisa de se reencontrar com o mundo da cultura e o mundo do trabalho e com todos os que hoje se apresentam em situação de vulnerabilidade.
Neste contexto, o entrevistador instou o director do 7MARGENS a prestar uma atenção jornalística concreta em relação aos abundantes obstáculos físicos que obstam a que aqueles que têm dificuldades de locomoção possam aceder aos lugares de culto. Como exemplo de falta de vontade de acolher as pessoas com deficiência, Américo Azevedo referiu dois exemplos de igrejas que têm rampas para quem usa cadeira de rodas, mas são inutilizáveis: num caso, por ela ser excessivamente ingreme e, no outro, por ter degraus no início e no término. Apresentando um bom exemplo de atenção aos mais fragilizados, António Marujo referiu que, em Espanha, houve um gesto concreto de escuta dos sem-abrigo sobre como é que eles julgam a Igreja.
A entrevista de Américo Azevedo a António Marujo tratou também da situação do jornalismo, tendo o director do 7MARGENS deplorado um tipo de jornalismo que atropela a deontologia e usa os jornalistas como tarefeiros mal pagos ao serviço do clickbait.










