“Há um fogo enorme no jardim da guerra
E os homens semeiam fagulhas na terra
Os homens passeiam co´os pés no carvão
que os Deuses acendem luzindo um tição.”
Sérgio Godinho, Cantiga do fogo e da guerra (1971),
com música de José Mário Branco.
A legenda da foto, publicada há poucos dias pelo jornal online Politico, refere o momento do supervisionamento do início da operação militar Epic Fury (Fúria Épica) contra o regime iraniano. O ambiente em Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, a casa de Donald Trump, era de descontração, como se se tratasse de um briefing sobre a preparação de uma qualquer acção pública do presidente dos EUA. Trump, com o seu habitual boné branco, do qual sobressai a inscrição USA junto à pala, e com ele, numa sala de claridade reduzida rodeada por reposteiros negros, estão o director da CIA, John Ratcliffe, o secretário de Estado, Marco Rubio, e a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles.
Tudo se passou no sábado 28 de Fevereiro, dia da semana consagrado pelos judeus à abstenção laboral e outras actividades pessoais, celebrando o descanso de Deus após ter concluído a formação do mundo. O ataque eclodiu logo ao amanhecer, quando no Irão as populações iniciavam o seu primeiro dia da semana, após o descanso semanal de sexta-feira, designado Al-Jumu’ah e dedicado à reunião dos crentes…
Esta primeira incursão militar foi efectuada não por tropas norte-americanas, mas por duas centenas de aviões da Força Aérea israelita sobre mais de 500 alvos, entre bases militares e zonas civis, de acordo com o próprio ministro da Defesa, Israel Katz, citado pelo The New York Times. Este primeiro ataque ao Irão, num relato de sábado do jornal hebraico digital Canal 7, foi referido pelo comandante da Força Aérea israelita, general Tomer Bar, ao dirigir-se às tripulações dos caças no final da sua missão, como o «voo ‘Bereshit’», denominação que significa «princípio», a primeira palavra da Torá com a qual se inicia o relato da criação do universo por Deus.

O ambiente em Mar-a-Lago, Palm Beach, a casa de Donald Trump, era de descontração. Foto: Direitos reservados
O que se seguiu depois, já o sabemos… Recorde-se, por decência, que este primeiro ataque teve o “apanágio” de provocar a morte de mais de uma centena de meninas, na escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, a sul do Irão.
Não é fortuita a evocação que se faz de momentos de simbolismo religioso, como a criação do mundo ou os dias consagrados ao descanso, por judeus e islâmicos. É que por entre o «fogo enorme» que se alevantou no «jardim da guerra» – e em que o planeta se parece estar a metamorfosear –, estão incrustados outros “tempos celebrativos” das sociedades que agora se vêem submetidas às inclemências do inferno dos mísseis… Falamos do Ramadão (nono mês do calendário islâmico, dedicado ao jejum e à reflexão, que neste ano decorre entre 17 de fevereiro e a próxima quinta, dia 19 de março) e do Purim (o décimo quarto dia do mês Adar, celebrado este ano pelos judeus entre a noite de 2 de Março e o dia 3), enquanto recordação da «salvação divina» de quantos haviam sido levados para o exílio no século IV a.C. para a Babilónia, então dominada ocupada pelo reino da Pérsia, actual Irão!
A partir daqui poderíamos interrogarmo-nos pelo momento inaugural da busca humana do Absoluto, pelo tempo inicial da palavra (e da cultura) forjada pela maturidade dos buscadores… Mas antes, há que interrogar pelo que aconteceu, desde então, para que o assombro da busca e a poética da palavra se subordinassem ao poder, enquanto destino mortal e intempérie dos corações? E se os símbolos, como recorda o filósofo Josep Maria Esquirol, «estão forjados sobre o movimento da vida»[1], por que razão se travestiram de ignomínia, impedindo a sua capacidade de ser criativa, perdendo-se na violência do caduco, quantas vezes a roçar a barbárie?
Se a busca do Absoluto nasce do silêncio que levamos dentro, da interrogação premente que deseja compreender como intensificar o nosso Viver, como construir razões da Existência que nos constitui, então a palavra que daqui brotasse nunca deveria tornar-se veículo de degeneração da Vida; nunca a palavra deveria transtornar a (com)vivência humana, jamais deveria manietar o pensamento de quem a escuta, nem tão pouco provocar “apartheids” provocados pela ambiguidade dos escolhidos, dos justos ou mesmo dos sábios…
As trincheiras e as masmorras, os guetos e os colonatos, a censura do pensamento e a mordaça moralista, são os símbolos dos abismos, das noites negras dos corações de quem se entregou ao excesso do estatuto de autoria, das cátedras da sacralização de si próprios. Neles não coabita a maturidade dos buscadores, nem a palavra do essencial; por isso se tornaram fanáticos e rapaces, não apenas de consciências, mas de todo o que os envolve… do todo o que conseguem abranger. «A degeneração da palavra é ruído, demagogia e violência»[2], acautela-nos Esquirol, perante a impertinência dos que, em nome do seu próprio “absoluto”, se arrogam o direito de colocar etiquetas morais e maquilhar a política numa actividade de retórica, para assim iludirem a sua essência do nada, do “vácuo perfeito”. Por isso se digladiam, exercem o mando em hostes fiéis, forjando o medo, desconstruindo a Existência dos povos, inventando divisões, com cegueiras sacralizadas no rosto que eles inventaram nos espelhos construídos por si próprios.
Por isso, a esta hora continuam a lançar mísseis, a mascarar palavras para retaliarem sobre os indefesos, conjugar quimeras do absurdo travestido de absoluto… «Os violentos não deixaram de falar. (…) Que critério temos para discernir? Há muitas coisas douradas que não são ouro, e muitas prateadas que não são prata», acautela-nos Esquirol, para concluir: «A palavra só é propriamente palavra se nela transparece o alento da comoção e não da indiferença»[3]. Aqui reside o momento inaugural da transparência do Absoluto…
Mário Robalo é jornalista
Notas
[1] Humano, más humano – Una antropología de la herida infinita, ACANTILADO, Barcelona (2021); pág. 110.
[2] Ibidem; 113
[3] Ibd.; pág. 113.










