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Cartuxa de Évora. Outubro de 2019

“O adeus dos monges da Cartuxa” recebe Prémio de Jornalismo Dom Manuel Falcão

| 24/05/2020

“O adeus dos monges da Cartuxa” recebe Prémio de Jornalismo Dom Manuel Falcão

by | 24 Mai 20

 

Cartuxa de Évora. Outubro de 2019

Um dos monges da Cartuxa de Évora, antes do encerramento, em Outubro de 2019. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

“Terço entre os dedos, capucho sobre os olhos, a tábua sob o corpo. Tão pouco é tudo. E basta-lhes. Quando um monge cartuxo morre, os companheiros de clausura fecham-lhe sobre o rosto o capucho branco, costurando-o, para que ao chegar à eternidade só veja o rosto de Deus. Nas mãos, colocam-lhe um terço. Sob o corpo, uma tábua. Desce à terra e nesta é posta uma cruz de ferro, sem identificação. No claustro do Mosteiro de Scala Coeli, às portas de Évora, o ritual repetiu-se 120 vezes entre os séculos XVII a XIX; houve seis defuntos no século XX e duas cruzes foram acrescentadas nesta era. As últimas.”

É desta forma que começa a reportagem Cartuxa: o adeus dos peregrinos do silêncio, da autoria de Christiana Martins que, juntamente com as fotografias de António Pedro Ferreira e o vídeo e edição de José Cedovim Pinto, venceu o Prémio de Jornalismo Dom Manuel Falcão, atribuído pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS), da Igreja Católica. A decisão foi anunciada nesta sexta-feira, 22 de Maio.

O adeus dos monges da Cartuxa, a reportagem multimédia publicada pelo Expresso em que o texto se incluía, antecipou a saída dos quatro últimos membros da Ordem Cartusiana em Portugal, em Outubro de 2019. Falta de novas vocações e monges envelhecidos foram as razões que ditaram o fecho do mosteiro de Évora.

Christiana Martins teve de escrever o texto sem poder entrar na clausura do mosteiro – a entrada nesse lugar é interdita a mulheres – falando apenas com o prior da Cartuxa, padre Antão Lopez, na sala de acolhimento e trocando depois correspondência com ele, durante algumas semanas. “Tentei ouvir” o silêncio dos monges, “justamente porque não pude entrar”, afirmou a jornalista, citada pela Ecclesia, reagindo à decisão. “Foi um trabalho muito importante, que me tocou muito”.

Cartuxa de Évora. Outubro de 2019

O padre Antão Lopez, prior da Cartuxa de Évora, no terraço daquele que era o mais comprido claustro monástico protuguês, com 98 metros. Foto António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

O Prémio de Jornalismo Dom Manuel Falcão é atribuído desde há quatro anos pelo SNCS em parceria com o Grupo Renascença Multimédia, e pretende distinguir trabalhos jornalísticos sobre temática religiosa publicados nos média portugueses. Na edição deste ano, foram também distinguidos, a título honorífico, o programa 70×7, que tem 40 anos de emissão na RTP e é responsabilidade do próprio SNCS, e os jornais centenários Notícias da Covilhã e Jornal da Beira (Viseu), como informa a Ecclesia.

A Cartuxa de Évora foi mandada construir em 1587 pelo então arcebispo D. Teotónio de Bragança, para acolher a comunidade religiosa seguidora de São Bruno. Foi nessa altura dedicado à Virgem Maria, sob a denominação Scala Coeli (“Escada do Céu”). Depois da expulsão das ordens religiosas, em 1834, o mosteiro reabriu em 1960 com sete monges.

O Prémio de Jornalismo agora atribuído – que deverá ser entregue numa cerimónia em data e local ainda por definir – evoca a figura do antigo bispo auxiliar de Lisboa e, depois, bispo de Beja. Manuel Falcão (1922-2012) criou o então Secretariado de Informação Religiosa e foi pioneiro nos estudos de sociologia religiosa e na criação de estruturas que levaram a hierarquia católica em Portugal a encetar uma aproximação ao campo dos média, desde a década de 1960.

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