O aleluia na vida de Saraiva Saguate e a luta pela água em Bilibiza

| 28 Fev 20

Os projectos de microcrédito promovidos pela rede Aga Khan no norte de Moçambique permitiam reparar sapatos para vender em segunda mão, trazer água a crianças que andavam quilómetros para a obter. Algumas destas coisas faziam-se com uma centena de euros apenas. Em Bilibiza, em 2008, lutava-se pela água, para que as crianças e as mulheres não tivessem de andar 30 quilómetros com baldes à cabeça e nos braços… Agora, a aldeia foi arrasada, como referiu o bispo de Pemba e o 7MARGENS noticiou, por ataques cuja motivação e origem são desconhecidas. Nesta sexta-feira, 28, publicaremos informações sobre a aldeia e os ataques que têm acontecido na região.

Bilibiza (Pemba, Cabo Delgado), Moçambique, Junho de 2008. Foto © António Marujo/Arquivo 7MARGENS

 

Reportagem na província de Cabo Delgado (Moçambique), publicada em Junho de 2008, no Público, e realizada com o apoio da Rede e Fundação Aga Khan e a colaboração de Faranaz Keshavjee

 

Na Ilha do Ibo, perto de Pemba, norte de Moçambique, Ancha, 30 anos e uma filha de 14, é uma das 15 mulheres da Associação de Floristas, criada com apoio de microcrédito. Está a lavar e secar folhas de mangueira para os arranjos que se tornarão colares, bolsas, coroas. É a vida mais florida? “Não tinha rádio, na minha casa, já tenho; não tinha brincos e já comprei. Há muitas coisas que estou a comprar. Primeiro comprei brinco, estou a comprar pratos.”

O financiamento pedido por Saraiva Morossene Saguate, 40 anos, foi “um aleluia” na vida dele. Saguate trabalha em Pemba, nos serviços de emigração, mas o salário não chegava para a família – que inclui sobrinhos. “Os meus filhos estudam na base disto aqui” e aponta para uma moagem que montou num barracão ao lado de casa.

Momade Buana tem um problema numa das pernas que não lhe permitia andar muito. Com 45 anos, já quase não podia trabalhar: a bicicleta, comprada com um pequeno financiamento, permite-lhe agora ir todos os dias para a fortaleza construída pelos portugueses na ilha do Ibo, em 1791. Com outros 24 colegas da Associação Fortaleza, faz peças em prata. E já teve bónus: “Comprei um rádio, um relógio.”

Alifa Bakar, 42 anos, ri mais do que fala. É vendedora de bebidas e capulanas, de novo em Pemba. Ao lado dos panos coloridos, admite que, sem o empréstimo, não poderia ter os três filhos a estudar.

Irage Amisse, 38 anos, tem quatro filhos cujos estudos são garantidos pelo negócio da sua mercearia que, à noite, vira bar e discoteca. E há ainda os sapatos lavados e vendidos em segunda mão de Assime Chale, os desejos de Rahim Bangy ou o olhar perspicaz de Carlos Matiquite.

Há pequenos nadas que podem trazer toda a esperança do mundo a algumas vidas. Na província de Cabo Delgado, que faz fronteira com a Tanzânia, a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento tem operado essa transformação através de duas das suas agências. Em Pemba, isso é feito pela Agência Aga Khan para o Microcrédito, na ilha do Ibo a responsabilidade é da Fundação Aga Khan. No caso da agência, são 400 mil dólares (mais de 250 mil euros) distribuídos em pequenos financiamentos, que têm permitido a criação de pequenos negócios.

Empréstimo de 170 euros

Pemba, Cabo Delgado (Moçambique), Junho de 2008. A sapataria de Amisse Chale, apoiada pelo Microcrédito da rede Aga Khan. Foto © António Marujo/Arquivo 7MARGENS

 

A mudança, para Amisse Chale, 34 anos, já é grande. É vendedor de sapatos em segunda mão no mercado do bairro Natite, no centro de Pemba, definido por algumas ruas de edifícios em tijolo e cimento. Fora dali, predominam os bairros de palhotas, vários deles com vista para a larga baía de Pemba. Na cidade, vivem cerca de 160 mil habitantes.

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