
“Será que precisamos de ativar as nossas memórias para não nos cansarmos de quem já amámos mais quando se debilita?” Foto © Calcutta Rescue
Fui a um hospital privado para uma consulta. Na sala de espera, apesar de não estar muito cheia porque era mês de Agosto, encontravam-se pessoas com as mais variadas dificuldades. Umas em cadeira de rodas, outras de máscara de oxigénio para respirar, outras ainda com a debilidade estampada no rosto, nas mãos ou na marcha incerta. Não esperei imenso tempo. Foram uns 20 minutos durante os quais quase fiquei deprimida a pensar no sentido do existir de cada um e na certeza de que todos os que ali estavam quereriam permanecer nesta condição chamada vida humana. Uns mais acompanhados, outros menos, mas todos determinados a seguir em frente, a sacrificarem-se para continuar a percorrer aquele assim – com próteses, máscara, andarilho, canadiana ou até alheamento da realidade de maior ou menor extensão.
Em certos acompanhantes aparecia a dedicação, alguma conversa e até a tentativa clara de normalização da circunstância. Mas, noutros, era o cansaço, o sacrifício, a saturação, as sucessivas chamadas telefónicas, a obrigação cumprida que nos vem do sentido do dever. Os trabalhos interrompidos, as tardes perdidas nos escritórios, nas fábricas, nas empresas em geral. A preocupação com o que em casa está por fazer, os filhos aos quais não se está a dar a devida atenção, para estar ali, sabe Deus por quanto tempo.
Talvez o denominador comum, que fazia toda a diferença, fosse o juízo, aquilo a que também chamamos estar bem da cabeça. Quando as conversas entre acompanhante e doente fluíam e as atitudes dos mais débeis eram coerentes e cooperantes, a disponibilidade era mais óbvia. No entanto, quando o agir de quem necessitava de apoio era desajustado por falta de consciência da realidade, as respostas dos cuidadores eram, por vezes, intolerantes e, diria eu, frustradas. Por mais que tentassem, nada resultava. Entre a teimosia, a provocação e os comportamentos constrangedores, tudo podia acontecer.
Torna-se, em geral, fácil, até porque estamos mais treinados nisso, perceber a empatia que sentimos por quem está doente, mas o que aqui reflito é a empatia pelos que ajudam. Aqueles que estão duplamente preocupados, seja com quem deles está a precisar de forma mais óbvia e se encontra ali ao lado; seja com aqueles ou aquilo que deviam estar a fazer e não podem, porque essa tarde se destina a estar ali no hospital.
Também estavam nessa sala pais a acompanhar filhos, mas esses pareciam claramente disponíveis e menos preocupados com o que estavam a deixar para trás naquele momento.
É incrível, mas até parece que algumas vidas estorvam. Interrompendo o ritmo frenético de quem precisa de correr e de se despachar. Será isto desgaste de amor? Não tenho a certeza, mas, como alguém disse e eu também costumo afirmar, o amor é descendente. Os pais gostam mais dos filhos do que os filhos gostam dos pais. Ou melhor, são amores diferentes que a natureza institui para nos preparar para perder os pais, mas não para perder os filhos. Aliás, tanto quanto sei, em todos os idiomas que conheço existe a palavra órfão, mas não há palavra para designar os pais cujos filhos morrem.
Quando a partida dos mais velhos parece tornar-se uma libertação para os mais novos, é fundamental relembrar a história de cada um a fim de não deixar desvanecer o amor. O sentido que deram à sua existência, ainda que hoje estejam dementes; as causas pelas quais lutaram; os serviços que prestaram e as missões que cumpriram. Será que precisamos de ativar as nossas memórias para não nos cansarmos de quem já amámos mais quando se debilita?
Sei que este texto é muito duro, mas a sala de espera foi só um pretexto para o escrever.
Na minha vida profissional ouço disto que agora digo.
Julgo, pois, que precisamos de cuidar das relações e do sentido da vida em todas as etapas que a compõem. Julgo que precisamos de cuidar do lugar do amor em pleno século XXI. Julgo, ainda, que temos de assumir a consciência clara da nossa missão e, sobretudo, de aprender a não ter pressa, quando a vida nos impõe certas tarefas que nos desviam dos nossos mais óbvios objetivos e mais regulares compromissos. É, assim, fundamental que nos dediquemos a edificar a melhor versão de nós em cada passo que temos de dar na vida e em cada minuto que temos de a viver.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt










